O escritor e prêmio Nobel da Literatura em 2010 , Mário Vargas Llosa, fala na conferência
“Que Democracia?”, em Lisboa:”corrupção é grangrena”


DO DIÁRIO DE NOTÍCIAS (LISBOA)

Um encerramento com chave de ouro. Coube a Mário Vargas Llosa a palestra de encerramento da conferência “Que democracia”, promovida pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, realizada esta sexta-feira em Lisboa.

Vargas Llosa trouxe avisos e palavras de esperança para todos aqueles que vivem em sistemas democráticos. Alertas para a corrupção, que constitui, no seu entender, uma das “gangrenas” dos sistemas democráticos “do primeiro e do terceiro mundo que provocou o desencanto das sociedades, principalmente dos jovens”, e para o “terrorismo islâmico” que tem provocado movimentos “a defender medidas antidemocráticas” para o combater.

Para Vargas Llosa a democracia “está de boa saúde”. Ela “não é perfeita, mas cria a coexistência na diversidade”, ao contrário dos sistemas “utópicos, como foi o comunismo” e que teve essa falha como “pecado capital”. Outros sistemas, além do comunismo que, “tentaram travar a democracia, como o nazismo e o fascismo, também morreram”. E porquê? “Porque nenhum, como a democracia, contribuiu tanto para diminuir a violência entre os seres humanos, pois é um sistema que põe e repõe os governos através de eleições, sem necessidade de ninguém matar ninguém”.

Mas há ameaças no horizonte. O escritor olha para Espanha, “que foi um exemplo de um final feliz, depois de 40 anos de ditadura”. A culpa é, precisamente da “gangrena da corrupção que atingiu os dois grandes partidos, o PP e o PSOE, que mais contribuíram para a modernização da sociedade”. Isso, “criou um enorme desencanto na sociedade, principalmente entre os mais jovens, que se afastaram da política como se fosse algo desprezível e procuraram as utopias”.

Fazendo uma retrospectiva da evolução dos sistemas políticos na América Latina, onde “ainda há poucos anos se acredita que a democracia era uma máscara para a exploração e a sociedade se dividia nos utópicos do comunismo/socialismo, com os trágicos exemplos de Cuba e Venezuela, e os que achavam que com golpes militares se governava”, Llosa deixa o alerta: “Hoje há democracias mais ou menos perfeitas, mais ou menos corruptas, mas a América Latina já aprendeu que as utopias não trazem o paraíso à terra, nem a igualdade para todos. Criam o inferno”.

Para o escritor, “não há no horizonte nenhum outro sistema que ameace neste momento a democracia”, embora lamente o “inesperado resultado do referendo na Inglaterra”, pelo saída da UE. “Nunca pensei que uma sociedade tão evoluída democraticamente fosse influenciada por uma demagogia tão repugnante!”.

Concluiu com palavras de esperança e uma história do filósofo Karl Popper. “Uma vez foi a Espanha dar uma conferência e foi questionado por um jornalista sobre como podia ser tão otimista, quando todos os dias se havia notícias de violência, de guerra, em todo o mundo. Respondeu que era verdade mas que, apesar de estar mal, o mundo nunca esteve melhor”, referiu.

Para Mário Vargas Llosa, “nunca houve na história da humanidade tantos instrumentos para lutar contra os grandes demônios que mais gente mataram, como as doenças e a fome. Não faz sentido haver hoje fome no mundo. Pela primeira vez podemos escolher a vida que temos, em que deuses acreditamos, o que queremos para a nossa sociedade”. Na verdade, “pela primeira vez na história, depende só de nós haver um mundo melhor.”.

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Comentários

luis augusto on 8 outubro, 2016 at 7:18 #

Nossos “dois grandes partidos” não estão longe dessa “gangrena”.


luis augusto on 8 outubro, 2016 at 7:18 #

Nossos “dois grandes partidos” não estão longe dessa “gangrena”.


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