ARTIGO DA SEMANA

Cem anos de Ulysses, 28 da Constituição, e a Hidra de Lerna na Bahia

Vitor Hugo Soares

Olhando bem para os escombros e, ao mesmo tempo, para as múltiplas possibilidades abertas pelos resultados das urnas, no primeiro turno das eleições municipais de domingo passado – principalmente nos casos já definidos de São Paulo e Salvador, mas também do Rio de Janeiro, a se resolver no final deste mês –é inevitável a recordação de Ulysses Guimarães. Outra vez, abre-se a oportunidade de constatação da sua sabedoria, clarividência e atualidade, nesta semana em que o Senhor Diretas teria festejado 100 anos (6/10), se vivo estivesse, e que a Constituição de 1988 comemora 28 anos (5/10) de sua promulgação. A Constituição Cidadã segue firme e com vitalidade para muito mais, apesar dos trancos que tem enfrentado ultimamente. Tim Tim!!!

Brindemos em memória a “um autêntico tecelão da História”, na definição do ilustre mineiro José Aparecido de Oliveira. O homem que, na conceituação de Tancredo Neves, outro notável de Minas, “conduzia o MDB como se fosse o Supremo Tribunal Federal”. Escrever, falar e pensar sobre Ulysses, sua visão e considerações (originais na forma e preciosas e transcendentes no conteúdo) sobre a política, eleições, as coisas, as pessoas e, principalmente, a respeito do poder e suas simbologias, torna-se ainda mais essencial neste momento confuso e complicado que atravessamos.

Mas, é preciso ressaltar, não o tipo de confusão pretendido e sugerido pelo esquentado ministro do STF, Marco Aurélio Mello, no diálogo com a presidente da Suprema Corte de Justiça do Brasil, Cármen Lúcia (transmitido ao vivo pela Globo News ), depois de ser vencido (6 a 5) em seu voto de relator na histórica sessão da última quarta-feira, 5, que decidiu pela prisão de condenados em segunda instância. Crentes ou ateus sabem que o espírito iluminado de Ulysses rondou o plenário da Corte durante toda a memorável sessão de 5 de outubro. E depois seguiu sobrevoando o Planalto Central do Brasil, encantado e vigilante.

“Com respeito à minoria vencida, o Supremo decidiu que não somos uma sociedade de castas e que mesmo crimes cometidos por poderosos encontrarão uma resposta na Justiça criminal”, pontuou o juiz Sérgio Moro, firme e implacável (com malfeitores públicos e privados), ao comentar o resultado da sessão em Brasília.

Homenagear este incrível Hamlet da vida política brasileira (a comparação é do escritor e poeta Almeida Sales) torna-se mais importante ainda, esta semana, em face da nova realidade aparentemente produzida pela veloz apuração das urnas eletrônicas e as análises, ainda mais apressadas, sobre os passos e o futuro de inquestionáveis grandes vencedores (direta ou indiretamente) da refrega de domingo. A começar por ACM Neto: o prefeito de Salvador, reeleito com 74% dos votos da quarta maior capital do País (espalhados homogeneamente por todas as sessões eleitorais, da sofisticada Barra ao subúrbio ferroviário de Periperi). Ou a lavagem da vitória acachapante de João Dória Jr, na maior e financeiramente mais importante cidade do Brasil e os reflexos devastadores em seu “cinturão vermelho”, berço histórico do PT. Conduzido por seus próprios méritos pessoais e políticos, somados a propostas inovadoras de gestão, mas vigorosamente empurrado pelas mãos audazes e pressurosas do governador Geraldo Alckmin (PSDB), ao tocar em velocidade máxima o seu projeto tucano de poder com vistas às presidenciais de 2018.

Há grandes perdedores, igualmente. À exemplo do governador Rui Costa e de seu padrinho e guia, Jaques Wagner: ex-governador e ex-ministro de Lula e Dilma, para citar apenas dois nomes da imensa legião de petistas derrotados, no país inteiro domingo passado. Ambos, chefes da política baiana atual, onde – respaldando o pensamento de Guimarães Rosa, de que “desgraça nunca vem sozinha”, que permeia o conto fabuloso “A Hora e a Vez de Augusto Matraga” – a operação Hidra de Lerna, da Polícia Federal, deu uma “batida” em regra esta semana. O monstro, (bicho de sete cabeças, para os nordestinos) inspirado na mitologia helênica, ainda assombra e causa calafrios e tremores em poderosos dos arraiais do governo do Estado e do PT (com seus aliados).

A conferir ainda, no final de outubro, o restante. Incluindo capitais de grande porte e relevância no contexto nacional. A começar pelo Rio de Janeiro e Belo Horizonte, mas também Recife, Fortaleza, Curitiba e Porto Alegre.

De volta a Ulysses, antes do ponto final neste artigo semanal de informação e opinião. O homenageado desta semana e saudoso timoneiro de tempos de tempestades, produziu no seu referencial “Decálogo do Estadista”, uma das páginas mais fundamentais de seu pensamento político e de homem público.

Na fundamentação do Sétimo Mandamento – A Paciência – ele ensina que a impaciência é uma das faces da estupidez. “Paciência é a capacidade para fazer a hora, não se precipitar… O estadista tem a paciência de escutar, não é falastrão. Saber escutar é um dom político. A santa paciência de escutar! A misericordiosa paciência de ouvir os redescobridores da roda, os inventores da quadratura do círculo, os chatos que “não o deixam ficar só e não o fazem companhia”… Como o peixe, o mau político apodrece pela cabeça e morre pela boca”.

Verdades insofismáveis. Ou não? Brindemos então, outra vez, a memória e a eternidade do pensamento e dos exemplos de Ulysses Guimarães. Tim Tim!!!

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E_mail: vitor-soares1@terra.com.br

Be Sociable, Share!
Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos

  • outubro 2016
    S T Q Q S S D
    « set   nov »
     12
    3456789
    10111213141516
    17181920212223
    24252627282930
    31