Bispo Dom Flávio Cappio: greve de fome em defesa do rio.

CRÔNICA

Depoimento de um velho rio

Janio Ferreira Soares

“Meu nome é Francisco e nasci oficialmente em 4 de outubro de 1501, embora já corresse em meio a bichos e matas desde os tempos em que brotei filetinho de nada na imensidão das Gerais. Portanto, na próxima terça-feira, dia do santo que inspirou meu nome, estarei fazendo 515 anos de sonho, sangue e América do Sul, como naquela velha canção que ainda hoje ouço quando jovens se reúnem às minhas margens para cantar, namorar e até, se a paixão arder, ouvir as estrelas de Bilac.

Se me aborreço de ser chamado Velho Chico? Olha, aborrecer, aborrecer, a ponto de perder o rumo, não. O que acho estranho – e isso já deixei claro a certos ribeirinhos acostumados com a mansidão de meus remansos -, é essa camaradagem meio forçada de um pessoal que nunca me viu mais cheio e agora, só porque tira uma selfie com minhas águas faceirando ao fundo, acha que pode ser meu amigo em mídias que jamais navegarei. Mas o que me chateia mesmo é esse blá, blá, blá de que depois da malandragem da transposição agora vão me revitalizar, como se eu fosse só uma penugem estragada precisando de uma ampola capilar da Pantene para recuperar meus afluentes partidos.

Quanto à minha participação nessa novela, admito que foi estranho passar de uma unanimidade de curvas perfeitas, para uma espécie de vilão que, literalmente, mata o mocinho no fim. Sobre isso, muitos acham que eu deveria fazer igual aos índios (que poetizaram na TV que gosto de colher almas boas para minhas guardiãs), mas aqui do meu canto digo apenas que quem não me conhece jamais deve se aventurar em mim, como ainda hoje fazem uns meninos traquinos quando querem chupar manga no meu outro lado.

No mais, sigo por aqui entre barragens, turbinas e umas irritantes baronesas, que ora habitam minhas correntes poluídas. Agora, se me dão licença, vou até ali na foz participar de uma festinha antecipada com meu velho amigo mar. Como sempre faço, levarei o doce que ele tanto adora e que fará um contraponto perfeito com seu inigualável salgadinho. Fui.”

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco.

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 1 outubro, 2016 at 20:24 #

Pois é Francisco, ou deveria dizer Senhor Francisco?

Enquanto ensimesma com a camaradagem dos que não lhe margeiam, talvez, só para não perder o tino, recorde que não foram estes, por distantes que transformaram seu leito em emissário, que devastaram seus cílios verdes e de seus afluentes.

Caro Francisco, os que choram hoje emudeceram ontem, ou fizeram pouco barulho, pense nisto!

Quiçá perceba, que a ironia é de todos, uns por não terem tido a benção de conhecer seus bons momentos, outros que conheceram, abusaram, para finalmente te fazer “desmilinguir” sob maus-tratos.


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