ARTIGO

Reflexões Machadianas sobre Simples Reflexos

Lucia Jacobina

De tempos em tempos, costumo reler Machado de Assis. É o escritor brasileiro que mais me marcou dentre os que conheço e admiro. Receio identificar nessas releituras algum traço edipiano que me fez seguir como um dogma o conselho paterno. Sempre que eu recorria aos seus ensinamentos, quando estava às voltas com dificuldades em português, principalmente análise sintática e colocação pronominal, meu pai aconselhava: -Leia Machado de Assis, através dele você vai aprender o português. Conselho dado e aprendido. Mergulhei em sua obra: Helena, A Mão e a Luva, Contos Fluminenses, Dom Casmurro, Quincas Borba, Memórias Póstumas de Brás Cubas, li os ensaios de Tristão de Athayde sobre o escritor, pesquisei mais e me apaixonei por seu estilo, elegante e primoroso registro do vernáculo como não se encontra em nenhum outro escritor brasileiro, mesclado a uma sutil e profunda incursão nos meandros da alma e elegi dentre todos o que mais me toca, seu último livro, Memorial de Aires. Este que é o seu “canto de cisne” evoca ainda as lembranças da minha avó materna que do alto de sua sabedoria ao se defrontar com meus arroubos juvenis, censurava-me com doçura: -Filha, a gente não deve dizer tudo o que pensa! Machado para mim não tem sido somente eleição literária, mas também objeto de apaixonada defesa, quando, representando os pais numa das reuniões do colégio da minha neta, deparei-me com a crítica de um dos presentes à escolha dos livros daquele que ele chamou defasado escritor para leitura curricular obrigatória pelos jovens estudantes. Protestei com energia, no que felizmente tive o apoio de um dos professores responsáveis pelo educandário. Recentemente, durante uma aula do curso de Civilização Francesa que estou frequentando na Aliança Francesa de Salvador, o professor solicitou aos alunos que elegessem cada um de per si um único livro que poderia ser levado a um exílio numa ilha deserta e dentre as mais diversas indicações justificadas que meus colegas fizeram na literatura estrangeira, todas louváveis, argumentei que seguindo a lição do poeta Fernando Pessoa em sua célebre frase “Minha Pátria é a língua portuguesa”, eu escolheria o Memorial de Aires, de Machado de Assis, pois afastada de todos, nada poderia melhor preencher a solidão do que a análise percuciente do velho Conselheiro que em forma de diário vai colocando suas impressões e narrando o cotidiano da vida fluminense que lhe serve de paisagem, mas que em nada difere da realidade vivenciada pelas pessoas dentro do contexto universal.
São dessas reminiscências e desse aprendizado que na maturidade valho-me para interpretar os acontecimentos diuturnos, seja no mais recôndito da privacidade, seja no macrocosmo da avalanche do noticiário com que nos bombardeiam os meios de comunicação. Cada dia mais observo que o convite à reflexão feito pelo Conselheiro Aires e o filtro a que submete a análise de fatos e atos constantes do registro, podem não estar tão anacrônicos e descompassados em comparação com a velocidade que de modo insensato fazemos imprimir aos nossos julgamentos, reduzidos atualmente a meros reflexos como num jogo de pingue-pongue.

Lúcia Jacobina é ensaísta e autora de “Aventura da Palavra”.

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