ACM Neto: resposta dura ao governador- foto de Raul Spinassé

DO JORNAL A TARDE

Patrícia França

A uma semana da eleição e na condição de líder absoluto na disputa pela prefeitura de Salvador, com 69% das intenções de voto, segundo pesquisa do Ibope divulgada no último dia 19, o prefeito ACM Neto (DEM) já admite se reeleger no primeiro turno. Diz não acreditar que o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), como desejam seus opositores, tenha força para mudar o atual cenário eleitoral. Nesta entrevista, ele rebate críticas a sua gestão, fala de suas propostas para um novo governo, como o programa Salvador Emprego, e afirma que terá uma relação “objetiva e pragmática” com o governo federal.

P- As pesquisas até aqui realizadas colocam o senhor com folga na dianteira da disputa pela prefeitura. A eleição será mesmo liquidada no primeiro turno?

R- Eleição só se resolve depois que os votos são computados nas urnas. A mensagem que tenho levado para a minha equipe de trabalho é para que ninguém entre no clima do já ganhou. Trabalharemos até o último instante. Agora, é claro que a gente confia na possibilidade de uma vitória já no primeiro turno. Sobretudo porque a construção de uma vitória eleitoral para quem busca uma reeleição não é feita em 45 dias de campanha, mas ao longo dos quatro anos do mandato.

P- A que o senhor atribui a avaliação positiva da sua gestão, considerando que Salvador deu votação expressiva a Lula e Dilma nas últimas eleições presidenciais, e o PT há dez anos governa a Bahia?

P -Não tenho dúvida de que o principal elemento de força para essa vantagem eleitoral é o êxito da nossa gestão. As pessoas, neste momento, querem saber exclusivamente da cidade. Como estava Salvador em 2012, como está Salvador hoje? No que avançou, quais são as expectativas para o futuro?

P- Então o impeachment da ex-presidente Dilma e a denúncia formal do MPF contra Lula no processo da Lava Jato não terão influência nesta eleição?

P- Acho que o contexto político nacional não tem interferência nenhuma, nem positiva, nem negativa a favor de nenhum candidato. Há quatro anos ganhei uma eleição sozinho. Não governava Salvador, não tinha o volume de realizações que tenho hoje, enfrentava um governador de estado (Wagner), uma presidente da República (Dilma) fortíssima, um ex-presidente (Lula) com a mais alta popularidade que um homem público já teve na história recente deste país, e, ainda assim, ganhei a eleição contra tudo isso. Por quê? Porque o tema da eleição é o município.

P- O senhor tem sido o alvo preferencial dos seus adversários. É acusado de golpista por ter apoiado o impeachment da presidente Dilma Roussef e de fujão, por não participar de debates com os candidatos. Isso o tem incomodado?

P- De maneira alguma. Você não viu eu dedicar um segundo da minha campanha, nem do meu programa de TV e de rádio, para atacar ninguém, muito menos responder críticas infundadas e absurdas dos meus adversários. Com relação à participação nos debates, estabelecemos uma premissa na nossa equipe de trabalho. Os debates cujas regras tenham a nossa concordância, nós participamos. Tanto que eu já confirmei a presença no debate de quinta-feira (29) que vai ser promovido pela TV Bahia. Provavelmente o mais importante de todos os debates, porque tem uma audiência muito grande e faltando três dias para a eleição.

P- Do debate da TV Record (25) o senhor também não participará?

R- A rede Record decidiu colocar sete candidatos no debate. Na minha opinião um debate com sete candidatos (como também foi o da TVE, no último dia 22) não é produtivo. A lei hoje é clara: as emissoras estão obrigadas a convidar para o debate os candidatos que representem partidos políticos com pelo menos nove deputados. Em Salvador, quatro candidatos têm assento garantido no debate (DEM, PCdoB, PDT e PP). Ponto.

P- O senhor está processando a vice-prefeita e concorrente Célia Sacramento (PPL), que o acusou de superfaturar as obras da Barra e do Rio Vermelho. O MP a intimou a prestar esclarecimentos. Não seria o caso de o senhor mesmo abrir esses contratos?
Não… Os contratos são públicos, estão à disposição dos órgãos de controle e fiscalizados pelo Tribunal de Contas dos Municípios. Todos os processos foram absolutamente lícitos. Ela fez uma acusação absurda, o que me fez interpelá-la na Justiça para que prove se existiu qualquer irregularidade.

P- E como está a sua relação com a vice-prefeita?

P- Não temos mais relação administrativa nem pessoal. Ninguém pode cobrar de mim manter uma relação com uma pessoa que sempre teve o meu respeito e, da noite para o dia, inclusive de uma maneira combinada com o governador e com o PT, os meus adversários, começa a dizer o que disse.

P- A candidata do governo, Alice Portugal (PCdoB), tem apontado que o senhor faz um governo de maquiagem, para a elite, e contesta sua afirmação de que destinou 76% dos recursos para bairros periféricos. O que tem a dizer?

P- Ela certamente nos últimos anos passou muito tempo em Brasília, não andou por Salvador e não conhece a nossa cidade. Mais forte do que milhares de palavras, ou discursos histriônicos, é o que as pessoas vivem, sentem e veem com os próprios olhos. Temos todos os dados consolidados: 76% dos investimentos da prefeitura foram feitos nas áreas mais pobres de Salvador.

P- O senhor pode dar exemplos?

R- São grandes obras estruturantes, como a Av. Dois de Julho (ligação Cajazeiras/Valéria/BR-324), a nova Av. Suburbana, a nova Baixa do Fiscal, a Ladeira do Cacau, Av. Eduardo Doto, a rua Iriguacu (Paripe). Há projetos sociais, como o Morar Melhor, reformando milhares de casas; o Primeiro Passo, ajudando na complementação de renda de crianças de 0 a 5 anos; o Casa Legal, os avanços do transporte com os programas Bilhete Único, o Domingo é Meia, a Estação da Lapa, a integração do sistema (de mobilidade), obras de encostas, escadarias, 411 quilômetros de asfalto.

P- Na última pesquisa do Ibope a saúde foi apontada por 54% dos entrevistados como o maior problema em Salvador. Seus adversários também afirmam que a cidade tem a pior cobertura de assistência à saúde. Como melhorar?

R- Qualquer pesquisa que se faça no Brasil a saúde vai ser apontada como principal problema. Quando assumi, Salvador tinha a pior cobertura de atenção básica do Brasil. Nós tiramos de 18% e chegamos a 46% de cobertura. Mais do que dobramos o número de equipes da Saúde da Família (PSF), e contratei 3,7 mil profissionais. A prefeitura tinha uma UPA que não funcionava, e hoje tem nove que funcionam. Construímos quatro multicentros e estamos construindo o primeiro hospital de Salvador. Elevamos o orçamento da saúde de 15% para quase 20% este ano. O que meus adversários deviam justificar é que existe uma unidade em Plataforma, do governo do estado, até hoje fechada, e porque o novo HGE não foi inaugurado e nem deram destinação ao Hospital Batista Caribé, no subúrbio.

P- Por falar no governador Rui Costa, ele tem dito, no horário político, que vai construir cinco policlínicas em Salvador. Se reeleito, cobrará isso dele?

R- O governador está no governo há dois anos, tinha tempo suficiente para fazer e ainda não fez. O que o governador sabe fazer é muita propaganda e se esconder atrás dos seus candidatos, com discurso. Ele devia ter coragem é de debater comigo, para eu mostrar o que eu prometi e fiz por Salvador, e ele será cobrado pelo que prometeu e não fez.

P- Apesar dos resultados positivos do Ideb, há críticas sobre a pouca cobertura de creches na cidade. A candidata comunista afirma que a educação infantil é uma tragédia. O que o senhor tem a dizer?

R- O partido da candidata comunista governou a educação em Salvador no governo de João Henrique e não construiu uma creche na cidade. Quando eu assumi a prefeitura, tínhamos 20 mil vagas para crianças de 0 a 5 anos e a mais antiga creche pré-escola de Salvador tem 80 anos. Eu, em apenas quatro, criei mais 20 mil vagas, dobrei. Além disso, as crianças de 0 a 3 anos, hoje, já estudam em tempo integral, com cinco refeições.

P- E para um eventual segundo governo, o que terá mais na educação?

R- A nossa ideia é que todas as crianças de 0 a 5 anos possam estudar em tempo integral. Não posso deixar de registar que o governo do PT prometeu, lá em Brasília, 140 creches para Salvador e não liberou uma. Todas as creches que nós construímos, todas as vagas criadas foram com esforço próprio da prefeitura, que está fazendo uma revolução na educação. Não ouvi nenhum candidato tecer comentário sobre a nossa evolução no Ideb, a capital que mais avançou no Brasil, fruto do investimento que estamos fazendo na educação.

P-Como o senhor vê as críticas de seus adversários de que o Plano Diretor (PDDU) atendeu mais a interesses empresariais do que urbanísticos e que houve pouco debate?

R- O que incomoda meus adversários é que, no passado, eles participavam e lideravam o processo de debate do plano diretor na calada da noite, votado através de emenda de plenário, sem que a população soubesse. Nós fizemos o debate mais democrático que a cidade já viu, realizamos audiências públicas, colhemos sugestões de entidades da sociedade civil e da Câmara Municipal. É um plano que traz as bases do crescimento futuro da cidade, devolve a capacidade dela se planejar.

P- A mobilidade em Salvador ganhou novas linhas do metrô, garantido pelo estado, vai receber o BRT e o VLT. Mas ainda há crítica em relação à qualidade dos serviços das empresas de ônibus. Como melhorar o sistema?

R- Nós fizemos uma concessão que estava na gaveta há 40 anos, renovamos 75% da frota. Hoje todos os ônibus são acompanhados por GPS, implantamos um centro de controle operacional (COC) e outras melhorias, como um aplicativo para saber o horário do ônibus, a integração dos modais, mais de 600 abrigos para passageiros e recuperamos inteiramente a Estação da Lapa, por onde passam mais de 500 mil pessoas/dia. Temos o cenário ideal? Óbvio que não.

P- O que fazer, então, para avançar neste setor?

R- Estamos fazendo um estudo de redesenho de todas as linhas da cidade, que será implementado no próximo ano. Entendemos que quando o metrô estiver funcionando, com suas duas linhas completas, e que o sistema de BRT estiver funcionando, aí, sim, teremos um transporte de alta capacidade, mais organizado e confortável. Vale lembrar que só havia três ou quatro pontos de recarga do Salvador Card, e hoje são 140.

P- Num segundo governo quais projetos o senhor gostaria de concretizar?
Me preocupei em fazer um plano de governo com um conjunto de propostas para as diversas áreas. Mas destacaria um, chamado Salvador Emprego. Seu propósito principal é estimular novos investimentos em Salvador no ano de 2017. É um plano que tem caráter emergencial, por um tempo de duração, e vai ser um estímulo para empresários locais, nacionais e internacionais investirem em áreas específicas.

P- Qual a ideia?

R- Temos dois grandes centros que concentram o maior número de empregos na cidade: o Centro Antigo e a região do Iguatemi. Nossa ideia é estimular a existência de outros centros econômicos para estimular a moradia perto do trabalho, previstas no PDDU e Lei de Ocupação do solo (Louos) Enxergamos quatro áreas: os bairros que divisam com a BR-324, como Águas Claras, Cajazeiras, Valéria, Pirajá, e o subúrbio, do Lobato até São Tomé de Paripe. Nos dois casos, se o investidor comprar um imóvel para garantir o investimento, poderá ter isenção de ITIV e ISS e, após a instalação, até desconto do IPTU.

P- E as duas outras áreas, quais são?

R- São a região de Itapuã, onde se quer fomentar um corredor turístico, e o Centro Histórico, onde vamos aproveitar o Pidi (Programa de Incentivo ao Desenvolvimento Sustentável e Inovação), que permitirá que imóveis antigos abriguem novos empreendimentos. Neste caso, o investidor poderá acumular crédito tributário de IPTU e ISS.

P- Com estes novos planos, o alinhamento político com o governo federal, agora sob a batuta do PMDB de – Temer e Geddel, será boa ajuda, não?

R- Todo mundo sabe que não tive vida fácil com o governo do PT. O BRT é um exemplo claro disso: passamos três anos discutindo projeto, negociando com o governo federal, a ex-presidente esteve em Salvador, prometeu publicamente, e depois só nos enrolou. Em três meses do atual governo nós conseguimos resolver o problema (empréstimo de R$ 408 milhões). Então, tenho uma visão pragmática e objetiva de utilizar esta relação que eu tenho com o PMDB da Bahia, em especial o ministro Geddel Vieira Lima, que vem nos ajudando, para obter cada vez mais recursos para a cidade. E, claro, que ter uma relação saudável com o governo federal é importante para isso.

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