TEXTO PUBLICADO NO SITE “OBSERVATÓRIO FEMININO”. REPRODUZIDO EM SUA PÁGINA NO FACEBOOK POR GRAÇA DOURADO TONHÁ, AMIGA DO PEITO DO BP.

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Um ‘awe’ ao Domingos Montagner…

por Talita Corrêa

Quando morre uma pessoa pública, a gente vive um luto coletivo, que envolve empatia e curiosidade. Quando morre uma pessoa pública, realmente muito querida em todas as suas relações pessoais, a gente vive um luto coletivo que envolve empatia, curiosidade e dor. Quando morre uma pessoa pública, realmente muito querida em todas as suas relações pessoais, e de uma maneira tão trágica, a gente vive um luto coletivo que envolve empatia, curiosidade, dor e medo. Quando morre uma pessoa pública, realmente muito querida em todas as suas relações pessoais, e de uma maneira tão trágica, e quase poética, a gente vive um luto coletivo que envolve empatia, curiosidade, dor, medo e arrebatamento.

No inglês, existe uma palavra pequena, de sonoridade confusa, que traduz essa mistura contínua de sentimentos bons e ruins, grandes e ferozes, diante da pressa da vida. “Awe” pode significar todo pavor e deslumbramento simultâneos que o mundo é capaz de nos causar ao assistir a um pôr do sol na ponta de um penhasco, ao descobrir a brevidade dos dias, ao presenciar uma tempestade na praia ou a correnteza violenta de um rio com quedas d’água.

Essa sensação de vazio e plenitude nos traz uma noção valiosa de insignificância em relação ao universo. Nos torna seres menos egoístas, vaidosos e prepotentes. Nos coloca no lugar discreto que merecemos. Nos faz entender que somos partes poucas de um grandioso todo. Regidos por um cosmos outro, uma natureza única, um deus inexplicável, uma fé sem nome, um amor sem tamanho. Somos nada. Somos pedaço de carne em um campo de alma. Awe.

Sentados no alto de uma montanha, debaixo de um céu que pipoca em estrelado, somos só um detalhe. Awe. Surfando no mar verde mais profundo, somos só invasão vulnerável. Awe. No meio da perfeição de um quilômetro de flores, somos só passagem. Awe. Awe. Awe. O que nos deslumbra, o que nos assusta, o que nos impressiona, o que nos encoraja. Tudo é awe.

E awe é tudo que nos ajuda a dar às coisas da vida o tamanho que elas merecem, sem que elas nos arrastem.

Quem acordou, naquela quinta-feira, irritado com a rinite, com o cansaço, com a passagem de avião não comprada, com as contas, com o clima, com as malas… Teve um banho de awe. Lembrou que problemas são pequenos perto da morte irreversível, pensou que momentos de dor gratuita são irrecuperáveis. Awe. Confessou que o celular quebrado é pouco perto da grandiosidade do presente-dia. Awe. Entendeu que amor atrasado é revivescível se for dado em garantia. Awe. Prometeu que a briga à toa é ridícula perto da vida que pode acabar de repente. Awe. Confirmou que o lamento é cansativo perto do que merece continuidade. Awe.

Awe é que nos faz perceber, com humildade, que a vida é o mergulho em um rio sem margem. Um pulo corajoso num banho novo, que pode a qualquer momento terminar. Que nossos dias são braçadas sem direção certa, procurando pedras pra nos segurar. Que rancor nos atrasa e afunda. Que ganância nos cansa e submerge. Que mentira nos afoga e confunde. Que só existe felicidade em superfície clara.

Awe é que nos faz ver o São Francisco do alto, imponente, grandioso, cheio de si. E saber que somos apenas um pontinho que nada, insistente, em sua majestade. Somos levados. Sem peso, sem pressa. Banhados quando e como tiver que ser. Tudo parte de um espetáculo de vida que não nos pertence ou compreende. Tudo ironia, coincidência, imprevisibilidade.

Só o que fazemos reverbera mundo afora. Só o que sentimos se mistura com a força da água que nos molha. Só o que doamos se multiplica nas profundezas do nosso insignificante nada. Só é importante o que importa. A morte que nos busca é gigante. A vida que nos ronda é instante. Isso que é grande. Awe. Awe. Awe.


Desde a tarde da última quinta-feira, quando a morte de Domingos Montagner foi noticiada, muitos amigos jornalistas têm compartilhado, nos seus perfis sociais, fotos feitas ao lado do ator. É uma vontade natural de se sentir parte da história de um homem conhecido pelo temperamento amável e atos infinitos de extrema gentileza. Uma vaidade do bem. Eu, que só conversei com Montagner uma vez, durante as gravações da novela Cordel Encantando, não tenho foto para mostrar. Mas guardo a boa impressão feliz de um artista leve, simples e de sorriso fácil, que brincava com os sotaques dos seus entrevistadores e fazia truques de sumir moedas. Um farol de awe perto da pequenez de quem tenta transformar essa tragédia em pauta de absurdo político, explicação pra castigo sobrenatural ou material de fofoca rasa extraconjugal.

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Comentários

Gracinha on 21 setembro, 2016 at 18:31 #

Bela homenagem! Grande abraço VHS


luis augusto on 22 setembro, 2016 at 7:16 #

A gente fica besta com um texto desses, tem de fazer como a Táti da TV, com a boca aberta: “Oh?”


Sol on 15 setembro, 2018 at 10:50 #

Mais que sensato: afável visão da vista de um ponto! Iluminaram-se todos, depois disso: o homem, a jornalista, o leitor.


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