UMA FOTO DO PASSADO, UMA CHARGE DE AGORA E UM BELO ARTIGO REDESCOBERTO A PARTIR DE COMENTÁRIO DO JORNALISTA LUIS AUGUSTO GOMES (EDITOR DO POR ESCRITO) NO BP. CONFIRA QUE VALE APENAS, PELA QUALIDADE DO TEXTO E O INTERESSE DAS INFORMAÇÕES. (Vitor Hugo Soares)

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O Jânio que ficou na retina

Ana Maria Mauad

Os presidentes Jânio Quadros, do Brasil, e Arturo Frondizi, da Argentina, caminham lado a lado pela cidade de Uruguaiana (RS), em plena performance política, acompanhada por jornalistas. Surpreendido por um ruído, Jânio se vira e é flagrado pela câmera atenta de Erno Schneider em uma pose inusitada: cada perna parece querer ir para um lado, os pés também indicam sentidos opostos, num desequilíbrio que sugere a iminência de uma queda, ou de um nó.

A imagem obtida foi tão marcante que ficou para sempre associada ao personagem. E não só pela ambigüidade que sempre marcou a vida pública e a própria figura de Jânio. Aquela fotografia jornalística sintetizava o conturbado período político por que passavam o Brasil e o mundo. E iria além, cumprindo um papel quase premonitório.

1961 foi um ano e tanto. A Alemanha Oriental ergue o Muro de Berlim, símbolo da guerra fria. Os Estados Unidos rompem com a Cuba revolucionária de Fidel Castro e invadem a Baía dos Porcos. O soviético Iuri Gagarin é o primeiro homem a fazer uma viagem espacial. É criada em Londres a Anistia Internacional, para defender presos por motivos políticos, religiosos, étnicos, ideológicos ou raciais. Os Estados Unidos tentam conter a influência cubana na América Latina, representada por Che Guevara. Jânio Quadros condecora o mesmo Che Guevara com a Ordem do Cruzeiro, o que abre uma crise política: em protesto, vários militares devolvem suas condecorações.

No flagrante de Erno Schneider, o mundo congela. Enrolado em suas próprias pernas, Jânio é o retrato daquele momento de incerteza e confusão. Os episódios seguintes confirmam a mensagem de “troca de rumo” anunciada pela imagem: o presidente renuncia em agosto de 1961, decisão que lança o país em crise e resulta no golpe militar de 1964 e em duas décadas de ditadura.

Tão forte era a fotografia, e tão fiel ao momento histórico, que se perpetuou uma versão errônea sobre o contexto em que foi tirada. O flagrante foi feito no mês de abril de 1961, quando Jânio recepcionava o presidente argentino. Portanto, quatro meses antes da renúncia. Mas o episódio da condecoração de Che, em agosto, seria tão emblemático que até hoje publicações especializadas afirmam que o balé desequilibrado de Jânio deu-se naquele momento, poucos dias antes de sua surpreendente decisão.

Publicada no Jornal do Brasil sob o título “Qual é o rumo?”, a foto conquistou o Prêmio Esso de Jornalismo em 1962. Este fato também revela bastante sobre o contexto político da época e sobre as transformações da imprensa nacional. A petrolífera Esso – ou, como era chamada desde sua chegada ao Brasil, em 1912, Standard Oil Company of Brazil – foi uma das grandes reformuladoras da comunicação no país. Em 1935, com a entrada no Brasil da empresa publicitária McCann-Erickson, desenvolve-se uma parceria que não se limita à divulgação dos produtos Esso: publicidade e notícia passam a andar juntas. Anos depois começa a Segunda Guerra Mundial, e a “política de boa vizinhança” promovida pelos Estados Unidos na América Latina amplia o consórcio entre a McCann e a Standard Oil. Entre em cena no país a United Press, uma das principais agências de notícias americanas, encarregada de distribuir informações sobre a participação aliada na guerra. Os principais veículos resultantes dessa tríplice parceria foram a Revista Seleções e o famoso noticiário “O Repórter Esso”, cuja estréia em 1941 coincidiu com a entrada dos Estados Unidos na guerra. O programa radiofônico tornou-se um sucesso de audiência e virou um modelo para a veiculação de notícias. Seu formato, sintético e objetivo, influenciou não só o radiojornalismo, mas também a imprensa escrita.

O Prêmio Esso foi criado em 1956 sob inspiração do Pulitzer, da Universidade de Colúmbia, nos Estados Unidos, uma das mais respeitadas premiações da área. A cada nova edição, o Esso criava mais categorias e contemplava também a imprensa regional, fora do eixo Rio-São Paulo. A fotografia foi premiada pela primeira vez em 1960, ainda como um “voto de louvor”, e no ano seguinte tornou-se categoria oficial do prêmio. Era mais um sinal de uma mudança dos tempos: o fotojornalismo vinha conquistando espaços privilegiados dentro da imprensa diária.

Havia duas décadas que a fotografia já se destacava nas revistas ilustradas, mas somente nos anos 1960 passou a fazer a diferença também na imprensa diária. Esse processo era resultado tanto da modernização tecnológica quanto da organização profissional dos fotógrafos. Estavam na pauta questões como o aumento dos salários e a alteração na estrutura vigente nas redações, que privilegiava o redator. O próprio Erno Schneider descreve a forma como funcionava o trabalho até então:

“Antes havia uma hierarquia, o repórter dizia: ‘Esse aqui é o meu fotógrafo’ ou ‘Bate uma chapa aqui’. Naquele tempo tinha essa mania, o fotógrafo tinha que fazer o que o repórter mandava. Antigamente, o repórter era o dono do fotógrafo”.

Nem mesmo o crédito fotográfico estava consolidado na época: o texto das matérias saía assinado pelo repórter, mas as fotos eram impressas sem a devida identificação do autor. Uma das importantes contribuições do Prêmio Esso foi a associação entre a imagem vencedora e seu autor. No caso da foto de Jânio, o prêmio consagrou um fotógrafo antenado com a modernização de seu ofício.

Nascido em 22 de outubro de 1935 na cidade de Feliz, no Rio Grande do Sul, Erno era o mais jovem de uma família de oito filhos. Pai agricultor e mãe dona-de-casa, ele começou cedo sua experiência fotográfica. Aos 17 anos se emprega em um laboratório de fotografia em Caxias do Sul, e em seguida compra sua primeira câmera fotográfica: uma American Box. Na mesma cidade, trabalha como free-lancer no jornal O Pioneiro. Em 1955, muda-se para Porto Alegre à procura de emprego. Depois de receber algumas negativas, é aconselhado a procurar “um jornalzinho novo que está saindo aí”. Era o Clarim, de propriedade de um político local: Leonel Brizola. Lá ele começa a “fazer esporte”, ou seja, a fotografar futebol, mas sua vida é marcada pela política e pela boemia. Trabalha na campanha de Brizola para prefeito e depois, viajando por todo o estado, para governador. Na noite de Porto Alegre, ronda acompanhado pelos colegas de redação e amigos, como o compositor Lupicínio Rodrigues.

O desejo de trabalhar em grandes periódicos o leva ao Rio de Janeiro, então capital federal, em 1960. A idéia era acompanhar a política de perto, no corpo a corpo com personagens importantes. Contratado pelo Jornal do Brasil, Erno aprendeu a ficar sempre atento. Alguma coisa acontecerá num determinado momento e não vai se repetir. O fotógrafo é uma testemunha que guarda certo sentido de espera, próprio de quem está à caça. E é assim que ele consegue a foto que se eternizaria, como relembra:

“A imprensa toda foi pra lá, os uruguaios, argentinos, brasileiros… O Janinho andando e eu do lado, com Rolleiflex (…) Eu tava bem ao lado dele, acompanhando. De repente deu uma confusão, estourou um… Um barulho (…) Todo mundo olhou pra trás. Ele virou e eu clack, plá, só deu aquela, só fiz uma”.

A história está por trás da foto ou as fotos (e seus fotógrafos) também fazem a história? Esta era uma questão que rondava fotógrafos de todo o mundo desde a década de 1930. Aquela época marcou o surgimento dos concerned photographs (algo como “fotógrafos engajados”), para quem o ofício não era apenas um meio de ganhar dinheiro. Ao revelar a condição social das várias populações do mundo, eles influenciaram a forma como a História passou a ser contada. Das privações provocadas pela Grande Depressão nos Estados Unidos às situações-limite dos tempos de guerra, o fotojornalismo humanizou a memória histórica em imagens assinadas por nomes como George Rodner, David Seymour, Walker Evans, Margareth Bourke-Wright, Dorothea Lange e Henry Cartier-Bresson. Em comum, eles rejeitavam a montagem, valorizavam o flagrante em tomadas não-posadas e eram adeptos da Leica, pequena câmera fotográfica alemã que prescindia de flash e valorizava o efeito de realidade.

O legado da geração do fotojornalismo heróico – cujo emblema é Robert Capa (1913-1954), que morreu num acidente de mina durante a cobertura da guerra no Camboja – foi a politização do olhar. Erno Schneider compartilhava desse valor. No momento em que o Brasil respirava ares democráticos após a ditadura do Estado Novo e a cultura urbana e industrial se disseminava, ele liderou um grupo de fotojornalistas que redefiniu os rumos da profissão. Do Jornal do Brasil, onde participou de uma importante reforma gráfica – em que a fotografia adquiriu destaque até então inédito na imprensa nacional –, foi para o Correio da Manhã. Já respeitado pela premiada foto de Jânio, assumiu o cargo de editor de fotografia, promovendo uma verdadeira revolução visual no jornal. Ampliou a importância da fotografia e dos fotógrafos na construção da notícia, e quando veio a ditadura, participou da forte oposição do Correio ao regime militar. Perseguido pelo governo, o jornal fechou as portas em 1969, o que levou Erno a transferir-se para O Globo, onde permaneceu até 1986 como editor de fotografia.

O segredo do negócio? É simples: “Acho que isso aí é bater a foto, bater a foto, não tem escapatória… A gente está pra registrar a História, não está pra mudar, né? A gente registra… Olhar tudo. Fotógrafo tem que olhar tudo”.

Foi assim que Erno Schneider conseguiu criar uma foto que, ainda hoje, mesmo para quem não vivenciou o momento de sua produção, circulação e consumo, é referência para se pensar a História brasileira recente.

Ana Maria Mauad é professora de História da Universidade Federal Fluminense (UFF) e autora de Poses e Flagrantes: estudos sobre história e fotografias.

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Comentários

luis augusto on 17 setembro, 2016 at 6:41 #

Caro Vítor, obrigado por nos propiciar essa memória tão bonita. A história foi muito bem relatada por Ana Maria Mauad. Eu não sabia nada daquilo, nem que Brizola já foi “dono” de jornal.

No fim, a ida de Erno Schneider para O Globo bate um pouco com aquela história de que Roberto Marinho, apesar de tudo, “protegia” profissionais adversários do regime militar. A confirmar.


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