CRÔNICA
Água nunca teve cabelo

Janio Ferreira Soares

Quando menino, eu adorava olhar os pescadores arrumando suas redes, verificando a textura do piche que tapava as frestas nas laterais das canoas e depois tirando água dos cascos com umas latas que raspavam na madeira, provocando uma gastura danada nas cáries nutridas por rapaduras e deliciosos alfenins produzidos na cozinha de dona Alice.

Na sequência, rezas e mandingas pediam proteção a quem de direito e aí era só sentar num barranco qualquer e se encantar com as velas abertas cortando correntezas e driblando panelas, que se abriam em rodopios como se fossem enormes ralos de uma pia gigante sugando restos de comidas rumo a um sifão sem fim.

Banho? A recomendação era de sempre acontecer na companhia dos mais velhos. Só que essa regra era constantemente quebrada depois das peladas e das caçadas aos passarinhos pousados nos tamarineiros que enfeitavam ruas e quintais, quando então partíamos para a prainha localizada um pouco à esquerda de onde nascia o Sol. Mas apesar de sozinhos, a onda era controlar afoitezas e nunca deixar de seguir os conselhos dos mais velhos, que não se cansavam de repetir: “água não tem cabelo, menino!”.

Não dá para dizer qual a sensação de Montagner antes de ser sugado pelas águas do rio que ele aprendera a amar. Mas, se lhe sobrou algum tempo entre o mergulho e a partida, deve ter sido igual a que tive quando a canoa onde eu pescava afundou de vez. Naquela ocasião, um dia de Reis de 1995, depois de nadar contra o vento e cansar, tive a clara percepção de que iria desmaiar. Por sorte me lembrei de boiar e assim fiquei um bom tempo, apenas olhando o Céu e imaginando o paradoxo de morrer tragado pelas mesmas águas que me banharam pela primeira vez na vida.

No dia seguinte, acordei cedo e fiquei olhando-o em respeitoso silêncio. Em seguida uma vaca mugiu, uma garça voou e passarinhos passaram rentes. Respirei fundo, coloquei My Sweet Lord pra tocar e a voz de Harrison se misturou aos gritos dos meus filhos brincando solenemente no meu jardim.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco.

Be Sociable, Share!

Comentários

luiz alfredo motta fontana on 17 setembro, 2016 at 14:55 #

Janio! Janio!

Te confesso, ando necessitado de textos como o teu. Grato meu caro!

Zapeando ontem a tarde ouvi um ribeirinho dizendo algo assim: nós evitamos, mas se acontecer, deixamos a correnteza nos levar, vamos acompanhando, sem pressa de sair, até a possibilidade de escapar surgir, não se luta contra ela.

Achei sensato, óbvio até, o que nos faz creditar a tragédia ao desconhecimento, a ausência de respeito, um certo modo juvenil de enfrentar o desconhecido.

Montagner, como tu disseste, deve ter aprendido nestes dias a amar o rio, quem ama se fascina pelo beleza, deixa-se levar pela sedução, não resiste aos convites. Só o tempo lhe ensina a conhecer, conviver e contornar os arroubos e mistérios do ser amado.

Matutei sobre isto, enquanto a tarde morria, um misto de paz e tristeza, um cadinho de saudade dos tempos de menino, acompanhando o pai na fazenda de café e gado, tentando descobrir os porquês de tantas fainas.

Hoje tu oferece este texto, encharcado de poesia.

Tudo que tentei traduzir do dizer do ribeirinho está à mostra em forma de arte.

“Nadar contra o vento!”

“Boiar e contemplar”

“Seguir o rio e seu abraço”

“Conhecer quem te abraça”

Grato Janio!”


regina on 17 setembro, 2016 at 17:14 #

Mas, poetas, o amor era novo, desses que apagam qualquer julgamento prévio, esquece-se as lições, cega e põe fogo no desejo… a vontade era ir namorar com o “Velho Chico”, que para ele era um broto, enfeitiçando e encantando o menino doçura de cana e rapadura… E era despedida junto com a paixão, ai fica difícil de fazer qualquer sentido, não ir, não se atirar, não se entregar de corpo e alma…que seja o que Deus quiser…
Acontece que o seu amor o queria para sempre….


Vanderlei on 17 setembro, 2016 at 23:13 #

Emocionante ler o seu texto e logo em seguida ouvir Boca Livre , cantando Barcarola de São Francisco. Parabéns!


vitor on 18 setembro, 2016 at 0:29 #

Janio

Maravilha de texto! Se fosse um filme, seria daqueles que o bonequinho da página de críticas de cinema, de O Globo, bateria palmas de pé. Duplamente impactante para este beradeiro que vos fala.Primeiro pela emoção comovente da leitura do belo escrito sobre Montagner. Depois pelas mágicas recordações que vc me fez reviver dos dias de infância na beira do rio, em Santo Antonio da Gloria. Em especial, as dos doces , rapaduras e alfenins de tia Alice ( e tia Teta, a irmã), a mesa cheia (motivo também das muitas idas minhas ao consultório de doutor Severino, o dentista de Paulo Afonso, para cuidar das cáries. Mas que delícia cada vez que voltava a provar! E da prainha de Glória , antes da inundação, onde dei meus primeiros mergulhos e braçadas (acompanhado dos mais velhos) mas sem aprender a boiar como você. Parabéns e forte abraço.


Nilton Santos(NIZINHO) on 22 setembro, 2016 at 15:56 #

Parabéns,maravilho texto,me vez recordar de Glória velha,e este dizer “rio não tem cabelo”,minha saudosa mãe dizia para nós quando fugia pra tomar banho na bomba dágua.


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos

  • setembro 2016
    S T Q Q S S D
    « ago   out »
     1234
    567891011
    12131415161718
    19202122232425
    2627282930