ACM Neto nada de braçadas em Salvador…


´…na campanha em que Wagner e Dilma dão sotaque nacional

ARTIGO DA SEMANA
“A Grande Feira”: do filme à Bahia de Wagner e Dilma

Vitor Hugo Soares

Pobre de quem acredita que sabe e conhece tudo da Bahia. Pensando desta maneira, sobre a terra onde se diz -desde Otávio Mangabeira – “que em cada esquina há sempre alguém disposto a pagar 10, para o outro não ganhar 5”, o sujeito está sempre a um passo de cometer graves equívocos, enfrentar sérios dissabores, ou simplesmente cair estatelado no chão, vítima de uma rasteira desmoralizante.

Se o caso é de política e de campanha eleitoral, então, nem se fala!. Vejam, nesta primeira quinzena de setembro de 2016, (tão distante do tempo do falecido governador e pensador político, de notável senso de humor e perspicácia), um exemplo emblemático dos dias que correm no País em geral, mas, principalmente, na capital baiana, nesta campanha municipal que vai assumindo contornos de ferrenha disputa nacional.

Campo minado por todos os lados, onde se joga cartada crucial, agressiva e decisiva. De quase sobrevivência mesmo, principalmente para o petismo desmontado do poder, depois de 13 anos de mando e desmando, no Palácio do Planalto. Com o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (condenada por crime de responsabilidade, mas logo anistiada pelo estranho e ainda não devidamente explicado fatiamento da sentença, anunciada pelo ministro Ricardo Lewandowski, costurada pedaço a pedaço pelo próprio presidente do Supremo, com o presidente do Senado, Renan Calheiros, a senadora Kátia Abreu e outros acólitos de menor monta – a Bahia virou uma espécie de Raso da Catarina do petismo.

O Raso é, para quem desconhece, um quase deserto do sertão baiano, a poucas léguas de Paulo Afonso, nas margens do São Francisco, o rio da minha aldeia. Sempre foi considerado o refugio mais seguro de Lampião e seus cangaceiros, quando perseguidos pelas volantes policiais, dos estados nordestinos, envolvidas em sua caça.Até o ataque mortal em Angicos (SE). Mas esta é outra história, e não quero me desguiar dos caminhos deste setembro brasileiro e baiano.

Na edição de quinta – feira, 8, da Tribuna da Bahia, na coluna política Raio Laser, leio a nota de abertura sob o título “Articulação”. É de cair o queixo, para definir a situação desenhada no informe, no melhor linguajar soteropolitano. Conta sobre o furdunço nos arraiais do PT local – que controla o governo estadual, com Rui Costa instalado no Palácio de Ondina, com planos de ficar 8 anos por lá: Há quem diga entre petistas – revela a nota – que o ex-ministro (e ex-governador) Jaques Wagner, padrinho e guia político de Rui, é o principal articulador da tese de que a ex-presidente Dilma Rousseff (recém afastada, mas com todos os seus direitos políticos preservados), pode disputar vaga no Senado pela Bahia em 2018.

“Caso a estratégia se concretize, Wagner teria, obviamente, que desistir da disputa na chapa de Rui Costa (PT), já que esta não poderá ter três integrantes do mesmo partido. Neste caso, Wagner concorreria a uma vaga na Câmara dos Deputados, disputa considerada muito mais fácil do que a do Senado, normalmente puxada pelo candidato a governador. Na Bahia, se dá como certo o lançamento da candidatura do prefeito ACM Neto (DEM) ao governo na próxima sucessão estadual”, completa a nota da TB. Parada para desmantelo, já se vê, a julgar antecipadamente, pelo andar da carruagem, na campanha pela prefeitura de Salvador, na qual Neto segue “nadando de braçadas” (a expressão, apropriada, é do jornalista Ricardo Noblat), a caminho da reeleição.

A pesquisa divulgada, mais recentemente, mostra ACM Neto disparado, com 67% da preferência do eleitorado, enquanto reunidos, todos os demais candidatos, incluindo a deputada Alice Portugal, do PC do B, apoiada pelo PT de Rui e Wagner, mal alcançam a casa dos dois dígitos.

Munida do diploma de Cidadã Baiana, recebida da Assembléia Legislativa em plena batalha perdida contra o impeachment, Dilma deveria desembarcar nesta sexta-feira, em Salvador, “para dar uma força a Alice e às esquerdas, na briga municipal e contra o golpe”. Cancelou a viagem, remarcada agora para acontecer na próxima semana, dia 16. A conferir.

O cenário político soteropolitano, destes dias temerários, lembra, de muitas e variada formas, o ambiente de “A Grande Feira”, filme de Roberto Pires (sobre o incêndio da lendaria feira de Água de Meninos, na Cidade Baixa, cujas dúvidas e suspeitas sobre culpados seguem vivas até hoje), marco da trilogia da chamada “nova onda do cinema baiano”. Iiniciada com “Bahia de Todos os Santos”, de Trigueirinho Neto, e completada por “Barravento”, de Glauber Rocha. Os três filmes tiveram o ator Antonio Pitanga brilhando como intérprete dos personagens protagonistas.
Em “A Grande Feira”, Pitanga faz Chico Diabo, mostrado na primeira sequência, “como um exímio ladrão que rouba jóias em Salvador e, na sequência, um frio assassino, ao matar um guarda que o interpela na saída da joalheria”, conforme descrição de Maria do Socorro Carvalho em seu livro “A Nova Onda Baiana”, publicado pela Edufba . Mais não digo, mas recomendo ver (ou rever o filme) e a leitura do livro. Antes dos próximos e eletrizantes lances da campanha na Cidade da Bahia.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Lucia Jacobina on 10 setembro, 2016 at 11:54 #

Concordo plenamente com sua análise, Vitor, a situação política baiana começa a se desenhar, no mínimo, temerária. Porque motivos haveria a Dilma de aterrizar justo aqui na Bahia? Somente pelas mãos de outro forasteiro se explicaria… Que ingrato, até mesmo Lula foi mais generoso com sua terra de adoção, pois ao forjar a criatura, dividiu o ônus com o Brasil inteiro. Não estamos utilizando nossa criatividade, não renovamos na política, deveríamos, sim, dar um basta nas heranças autoritárias também. A Bahia já tem mazelas demais!


vitor on 10 setembro, 2016 at 14:22 #

Lucia Jacobina:

Pode apostar, Lúcia. Pode apostar.Considero irretocável o seu comentário. De outra maneira, será o caminho da Cidade da Bahia em sua histórica tentação pelo fogo. Até outro grande incêndio, igual ou maior ao da Feira de Água de Meninos, no começo dos anos 60,tema do filme de Roberto Pires. Que vc como grande amante do cinema e excelente comentarista, seguramente já viu. Forte abraço.


rosane santana on 10 setembro, 2016 at 17:27 #

Não entendi bulhufas! Uai, ACM Neto não é hegemômico em Salvador? Não é unanimidade? Não está toda a cidade encantada com sua administração? Ou estou enganada?


Rosa Maria Carvalho Darcie on 11 setembro, 2016 at 22:44 #

Prezado amigo Vitor! Não, eu não estou surpresa. A Nossa Bahia tem nos mostrado ao longo dos últimos anos, escolhas políticas de uma qualidade de nível tão assustador. Talvez eu esteja até exagerando pois outras capitais, especificamente nas próximas eleições, estão deixando pouquíssimas Boas Opções para os eleitores. Mas, se isso se concretizar, e Ela ( forasteira), vier a sair candidata pela Bahia. Definitivamente será a maior decepção que a Bahia poderá proporcionar aos que ainda acreditam na inteligência e bom senso do eleitor da nossa querida Bahia. Espero sinceramente que seja só especulação. Abraço


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