CRÔNICA

Diferentes modos de ver a rua

Janio Ferreira Soares

No ótimo Birdman, vencedor do Oscar de melhor filme em 2015, há um delicioso diálogo entre Emma Stone (sentada no parapeito de um prédio na Broadway) e Edward Norton (tragando um cigarro num estilo James Dean), onde, no final, ela pergunta se ele quer fazer amor. Sincero, ele responde que é melhor não, pois tem medo de falhar.

Decepcionada, mesmo assim a jovem Sam quer saber o que o velho Mike faria com ela na hipótese de irem para a cama. Sua resposta é um desses petardos que lembra o chute enviesado de Nelinho contra a Itália na Copa de 78. Ele diz que arrancaria seus olhos e os colocaria no seu cérebro, só para poder voltar a ver a rua com o olhar de quando tinha sua idade. Bingo!

Por mais que se tente, é quase impossível lembrar o momento exato em que deixamos de ver a vida pela ótica desencanada da adolescência, para vê-la pelo ponto de vista da velha labuta. Na modesta opinião desse barranqueiro do rio das curvas perdidas, esse distanciamento se consolida a partir do momento em que trocamos o banco da praça pela fila do banco, agravado por essa desenfreada obsessão das pessoas em compartilhar suas intimidades, como se isso fosse normal.

Não é. A propósito, se eu me arrepio ouvindo John Lennon cantando Stand By Me numa manhã de setembro, por que diabos vou querer tirar uma foto da minha pele eriçada para que todos saibam que ela está assim porque estou ouvindo Stand By Me numa manhã de setembro? Daí a opinar sobre Bolsonaro e Dilma, ou postar palminhas falsas para uma gordinha na frente do espelho, basta um click.

Outro dia um amigo falava de sua agonia numa madrugada dessas, só porque seu filho estava numa festa sem dar notícias. Aí, quando ele o viu chegar cheirando a vodca e com o braço de lado como se tangendo uma galinha, pensou até em brigar, mas desistiu ao se lembrar do tempo em que ele também chegava em casa pisando em ovos com o maior medo de acordar o galo-mor, que, trepado num poleiro de araque, fazia de conta que nunca tinha sido frango um dia.

Janio Ferreira Soares , cronista, é secretário de Cultura em Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco.

Be Sociable, Share!
Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos

  • setembro 2016
    S T Q Q S S D
    « ago   out »
     1234
    567891011
    12131415161718
    19202122232425
    2627282930