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Posted on 03-09-2016
Filed Under (Artigos) by vitor on 03-09-2016


Myrria, no jornal A Crítica (AM)


Lewandowski e Renan: sentença em fatias e suspeitas

ARTIGO DA SEMANA

Fado Tropical em Brasília: rainha morta (?), rei posto (?)

Vitor Hugo Soares

Montado nas asas benevolentes do presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, e do afoito presidente do Senado, Renan Calheiros, o inesperado fez uma surpresa, em Brasília, no último e histórico dia de agosto de 2016. A dupla atuou, nitidamente, em comando compartilhado e bem afinado (só algum tolo ou desavisado ainda pode pensar ou acreditar em mero acaso ou simples improviso) durante o ato final do impeachment da ex-mandatária Dilma Rousseff, encenado por nove meses, e que culminou na estranha e suspeita sentença fatiada, que ainda vai dar muito o que falar.

Pelo menos até o completo esclarecimento de suas circunstâncias, de seus bastidores, de todos os personagens envolvidos. E, principalmente, de seus (ainda camuflados) verdadeiros objetivos.

Na primeira parte, a condenação da ré, e seu afastamento definitivo do posto maior de mando do País, por crime de responsabilidade. Dilma foi atropelada por expressiva lavagem de 61 votos a 20. Resultado esperado, e previsto em praticamente todos os prognósticos, mesmo de alguns dos mais renhidos defensores da petista retirada do trono, dentro de seu partido, ou dos grupos aliados, que haviam jogado a toalha na véspera.

O imprevisto viria logo em seguida. Quando o painel eletrônico do Senado exibiu o resultado da segunda parte da sentença. Pela votação dos juízes políticos(42×36 e três abstenções), a mandatária não foi inabilitada politicamente. Poderá exercer cargo público, ser professora universitária, conferencista dentro e fora do Pais, vocação repentinamente descoberta por seus aliados e defensores. Pelo que está determinado na Constituição, em princípio, todos os direitos políticos da ex-presidente, a começar pelo de ser nomeada e exercer algum cargo comissionado, seriam cassados pelo período de oito anos. Sem falar na rede de proteção que a condenada recebe, contra efeitos de operações do tipo Lava Jato, conduzida pelo temido juiz Sérgio Moro , desde Curitiba, na área de primeira instância judicial.

Este estranho desfecho decorreu de questão de ordem levantada pela bancada petista, no começo da sessão final do julgamento, logo acolhida por senadores aliados e de linhas auxiliares, e defendida com devoção quase religiosa pela senadora Kátia Abreu, do PMDB, ex-ministra do governo Dilma. E, prontamente acatada pelo ministro Lewandowski, que se esmerou em oferecer riqueza de detalhes nas justificativas de seu parecer. O magistrado, – ao contrário de grande parte dos senadores, na condição de juízes, – não aparentava o mínimo sinal de surpresa com o questionamento. Ao contrário, parecia haver se preparado (e com afinco), para aquela esdrúxula situação de atropelamento constitucional.

Nesta segunda parte do rito, o condutor principal do julgamento teve a participação explicitamente orientadora e decisiva para o voto de “juízes” do PMDB, que praticamente concedeu uma anistia política à presidente deposta, no mesmo momento da sua condenação.

Amaldiçoado seja aquele que pensar mal destas coisas, diriam os irônicos franceses.

O fato é: a sociedade brasileira e o mundo testemunharam um episódio de real e transcendente importância política e institucional, mas com desfecho à moda de fado tropical. Mais propriamente, do soneto declamado pelo cineasta Rui Guerra, em seu forte sotaque de Portugal, no meio da composição famosa de Chico Buarque,(este, até aqui, um polêmico e indecifrável protagonista deste furdunço de agosto no Brasil). Vale lembrar versos do soneto, antes do ponto final deste artigo:

“Sabe, no fundo eu sou um sentimental/ Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dose de lirismo…(além da sífilis, é claro) /Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar/ Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora… “Meu coração tem um sereno jeito/ E as minhas mãos o golpe duro e presto/ De tal maneira que, depois de feito/ Desencontrado, eu mesmo me contesto/… Quando me encontro no calor da luta/ Ostento a aguda empunhadora à proa/ Mas o meu peito se desabotoa/ E se a sentença se anuncia bruta/ Mais que depressa a mão cega executa/ Pois que senão o coração perdoa…”

Agora, a condenada Dilma discursa como no tempo da guerrilha dos anos de chumbo. Declara guerra e promete fazer do Governo Temer e seus aliados, um verdadeiro inferno, e a manada começa a promover fogueiras e depredações em São Paulo. Enquanto isso, aparentando zanga de pai enfezado, o novo mandatário pega Renan Calheiros pelo braço, e embarca com ele para uma viagem de sete dias à China. O que virá depois? Responda quem souber.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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