DO EL PAÍS

Carlos E. Cué

Buenos Aires

No último momento antes do impeachment de Dilma Rousseff, o ex-presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, tenta estender a crise em nível regional e procura apoio de seus aliados políticos no continente. Lula enviou uma longa carta à ex-presidenta argentina Cristina Kirchner detalhando sua visão da crise política que o Brasil atravessa e denunciando uma conspiração de diversos setores conservadores da política, do empresariado e da imprensa para acabar com seu partido, o PT, e sobretudo para impedir que ele possa se candidatar em 2018.

A ex-presidente Kirchner publicou a carta rapidamente nas redes sociais e aproveitou para comparar a situação de Lula com a sua na Argentina, onde enfrenta problemas judiciais por sua gestão e também por suspeita de lavagem de dinheiro com as empresas familiares, já que ela, ao contrário de Lula, é uma mulher rica.

Lula afirma que o impeachment de Dilma é “inconstitucional” e está sendo impulsionado pelas forças conservadoras com o único propósito de obter pela força o que não puderam conseguir nas urnas: tirar o PT do poder. Afirma, ainda, que investem contra Dilma, mas sobretudo contra ele. “Temem que em 2018, em eleições livres, o povo brasileiro possa me eleger presidente da República, para resgatar o projeto democrático e popular”, sentencia.

Kirchner intitula a mensagem em que divulga o texto de Lula “carta urgente à América do Sul” e sustenta a teoria de que existe uma conspiração contra todos os governos de esquerda do continente. Lula, no entanto, concentra-se no Brasil e denuncia com veemência a conspiração em seu país.

“Por meios pacíficos e democráticos fomos capazes de tirar o Brasil do mapa da fome no mundo elaborado pela ONU, tiramos da miséria mais de 35 milhões de pessoas que viviam em condições sub-humanas e elevamos a renda de outros 40 milhões, o maior processo de mobilidade social de nossa história”, diz o ex-presidente. “A presidenta Dilma, apesar de enfrentar um cenário econômico internacional adverso, conseguiu manter o rumo do desenvolvimento e consolidar os programas sociais”, ressalta.

Depois de recordar a vitória de Dilma em 2014, começa a teoria da conspiração. “A coalizão adversária, vencida nas urnas em 2002, 2006, 2010 e 2014, não se conformou com a derrota. Começaram a sabotar o Governo e a conspirar para tomar o poder por meios ilegítimos. Em seu afã de inviabilizar o Governo, apostaram contra o país, chegando até mesmo a aprovar no Congresso um conjunto de medidas irresponsáveis destinadas a comprometer a estabilidade fiscal. Finalmente, não titubearam em desencadear um processo de impeachment inconstitucional e completamente arbitrário”. “Trata-se de um processo estritamente político, que viola abertamente a Constituição e as regras do sistema presidencialista, no qual é o povo quem escolhe diretamente o Chefe de Estado”, arremata.

“As forças conservadoras querem obter por meios escusos aquilo que não conseguiram democraticamente. Querem apoderar-se do patrimônio nacional e desarmar a rede de proteção aos trabalhadores e aos pobres”, enfatiza.

Lula defende, depois, que é o maior interessado em combater a corrupção e rebate todas as denúncias contra ele. “Não temo nenhuma investigação. Se a justiça for imparcial, as acusações contra mim nunca prosperarão. Nada me fará renunciar a meu compromisso de vida com a construção de um mundo sem guerras, sem fome e com mais prosperidade e justiça para todos”, clama Lula em tom dramático no final da carta.

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