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Postado em 30-08-2016
Arquivado em (Artigos) por vitor em 30-08-2016 02:10


OPINIÃO

Por que não é golpe a deposição de Dilma

JC Teixeira Gomes | Jornalista, membro da Academia de Letras da Bahia

As alterações no poder se dão por quatro motivos: 1) eleições; 2) golpes de Estado, com transgressões das leis vigentes; 3) revoluções, o processo mais radical, com violência institucional e substituição do regime político anterior; 4) impedimento (impeachment), ritual político que preserva as leis para afastar governantes.

Neste último caso, a classe política é acionada pelas pressões da opinião pública, a massa do povo insatisfeita com a condução do país, ante as evidências de corrupção e deterioração da vida nacional. Estas se revelam nos descalabros da economia, no desemprego crescente e na prática de atos lesivos no plano fiscal, as chamadas “pedaladas”, usadas para ocultar equívocos administrativos.

Dois fatos são essenciais para mostrar que o processo de impeachment se originou não por retaliação política de outros partidos, mas por motivos sociais e jurídicos consistentes: no primeiro caso, desde 2013 o povo brasileiro começou a entupir as ruas, em todo o país, para protestar contra o governo petista, culminando com as manifestações de 2016; o Congresso, pois, acolheu contra Dilma Rousseff um clamor popular que se generalizava. Já o fator jurídico foi deflagrado a partir de quando três juristas se associaram para apresentar o pedido de impeachment, um dos quais é inclusive uma prestigiosa figura petista de primeira hora, Hélio Bicudo.

Três fatos se articularam, ao longo dos anos, para motivar o objetivo de deposição de Dilma: 1) as práticas do mensalão, quando se descobriu que, para manter o poder, o PT negociou com partidos aliados um generalizado sistema de compra de apoio, usando o dinheiro público; 2) a corrupção crescente do partido que, ainda para manter e consolidar o poder em duas administrações diferentes (Lula e Dilma), se associou aos mais poderosos empreiteiros e empresários do Brasil, saqueando os recursos da Petrobras, ao difundir e sistematizar o superfaturamento e o uso do pagamento de propinas; 3) além disso, canalizou recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social para financiar obras de empreiteiras em países periféricos, em nada úteis ao Brasil. Não esqueçamos que o Partido dos Trabalhadores favoreceu operações financeiramente desastrosas, como a compra da refinaria falida e obsoleta de Pasadena, quando chefiava o Conselho Deliberativo da Petrobras a própria Dilma Rousseff, que, pela posição que ocupava, não poderia ter concordado com a negociata.

Os casos do mensalão e da Petrobras foram respectivamente conhecidos após as investigações do Supremo, com destaque para o juiz Joaquim Barbosa, e da Operação Lava Jato, com relevo para a ação do juiz Sérgio Moro, do Ministério Público e da Polícia Federal. A militância petista desde o início atacou o juiz Joaquim Barbosa, e ainda agora investe violentamente contra Moro, mas os protestos partidários nada representam diante da evidência das provas.

No momento em que escrevo, o processo de impeachment se aproxima do seu final, como é do desejo de todos os brasileiros, ansiosos pela normalidade institucional. Quanto ao PT, não custa lembrar que, quando passou a ser poder, jogou na cesta de ovos podres todas as suas promessas de oposição. Começou impondo ao país a mesma reforma da previdência que combateu e rejeitou no governo de Fernando Henrique Cardoso, numa demonstração inicial de oportunismo. Foi logo abandonado por figuras históricas, como Arruda Sampaio, e hoje paga o preço de uma ambição desmedida, sustentada pelo logro ideológico que levou o partido a encher de dinheiro o bolso estufado dos magnatas.

JC Teixeira Gomes, é Jornalista, membro da Academia de Letras da Bahia. Artigo publicado originalmente no jornal A Tarde.

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Comentários

Vanderlei on 30 agosto, 2016 at 7:52 #

Excelente artigo. Um dos mais claros sobre o momento que vivemos. Se no Brasil já estivéssemos adiantados, como a maioria das democracias, com o parlamentarismo, o processo de destituição seria rápido e eficaz. O impeachment da Dilma deixa claro o esgotamento do regime presidencialista de coalizão existente.


luiz alfredo motta fontana on 30 agosto, 2016 at 8:12 #

Seja qual for a ótica, seja qual for o ângulo, a imagem final é a mesma, uma figura apodrecida cercada de meliantes por todo lado!

Talvez, porém, contudo, todavia, poderá haver alguém que ainda lhe de crédito, que seja pessoal, enquanto nos livramos do mal, amém!


Taciano Lemos de Carvalho on 30 agosto, 2016 at 12:10 #

Instantes finais
Terça, 30 de agosto de 2016
Do Correio da Cidadania
http://www.correiocidadania.com.br
por Henrique Carneiro*
Após meses, o impeachment vai chegar ao fim. Dilma, em seu discurso, rebateu do ponto de vista jurídico a ausência completa de legitimidade nas acusações das pedaladas fiscais.

Porém, ao afirmar que não se acumpliciou com o pior da política no Brasil, não disse a verdade. São seus próprios ex-aliados que agora vão votar pelo fim do seu mandato, entre os quais vários ex-ministros.

Ela se aliou, sim, com o pior da política no Brasil, de Maluf a Collor, dos partidos fisiológicos aos fundamentalistas evangélicos e, sobretudo, com o PMDB, seu parceiro de longa data.

Por que ela não pode fazer uma autocrítica destas alianças? Porque tais alianças continuam!

Íntegra em:
http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=11953:instantes-finais&catid=72:imagens-rolantes


rosane santana on 30 agosto, 2016 at 21:45 #

Este artigo desmerece o intelectual que Joca é. Trata-se de uma sucessão de argumentos equivocados, que partem de falsas premissas: “desde 2013 o povo brasileiro começou a entupir as ruas, em todo o país, para protestar contra o governo petista (ops!), culminando com as manifestações de 2016(ops!); o Congresso, pois, acolheu contra Dilma Rousseff um clamor popular que se generalizava (ops!).”
As caminhadas de Junho foram contra a classe política, de uma maneira geral, inclusive o próprio Congresso. O mais mediano dos cidadãos brasileiros sabe disso. Que tristeza!


rosane santana on 30 agosto, 2016 at 21:50 #

Montanhas de literatura especializada analisam as caminhas de junho no Brasil, nos quatros cantos do mundo. É lamentável Joca dizer bobagens como essa.


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