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Postado em 29-08-2016
Arquivado em (Artigos) por vitor em 29-08-2016 14:07

AVISO AOS LEITORES E OUVINTES: BAHIA EM PAUTA VOLTA AO AR DEPOIS DE ENFRENTAR PROBLEMAS TÉCNICOS DESDE A MADRUGADA DE DOMINGO, 28. VIDA QUE SEGUE, COMO DIRIA O GRANDE JOÃO SALDANHA. (Vitor hugo Soares, editor).

DO G1/ O GLOBO

Filipe Matoso, Laís Lis, Gustavo Garcia e Fernanda CalgaroDo G1, em Brasília

A presidente afastada Dilma Rousseff afirmou nesta segunda-feira (29), em discurso de 46 minutos (leia e veja a íntegra) em defesa própria no julgamento do impeachment no Senado, que é alvo de um “golpe de estado” e que não cometeu os crimes de responsabilidade pelos quais é acusada. Segundo ela, só os eleitores podem afastar um governo “pelo conjunto da obra”.

Dilma começou a discursar às 9h53, 15 minutos depois da abertura da sessão pelo presidente do julgamento, ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal (STF). Ela concluiu a fala às 10h39. O presidente em exercício, Michel Temer, acompanhou o discurso pela TV, no Palácio do Jaburu, ao lado do ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha.

O pronunciamento da presidente afastada antecede as quatro últimas etapas do julgamento – o interrogatório de Dilma, o debate entre acusação e defesa, os pronunciamentos dos senadores e a votação do impeachment pelos parlamentares.

No discurso, Dilma disse que “jamais” renunciaria e que é alvo de um “golpe de estado”.

“Estamos a um passo da concretização de um verdadeiro golpe de estado. Do que eu fui acusada? Quais os crimes hediondos que eu pratiquei?”, indagou.

Segundo ela, o regime presidencialista do Brasil não prevê que, se o presidente perder a maioria dentro do Congresso, o mandato deve ser cassado. Dilma disse que “só o povo” pode afastar o presidente pelo “conjunto da obra”

“No presidencialismo previsto na Constituição, não basta a eventual perda de maioria parlamentar para afastar o presidente. Há que se configurar crime de responsabilidade e está claro que não houve tal crime”, disse Dilma.
Não é legitimo, como querem meus acusadores, afastar o chefe de estado e de governo por não concordarem com o conjunto da obra. Quem afasta o presidente por conjunto da obra é o povo, só nas eleições”
Dilma Rousseff

“Não é legitimo, como querem meus acusadores, afastar o chefe de estado e de governo por não concordarem com o conjunto da obra. Quem afasta o presidente por conjunto da obra é o povo, só nas eleições”, afirmou.

Ela relacionou o que chamou de “golpe” ao governo do presidente em exercício Michel Temer, ao qual classificou como “usurpador”.

“Um golpe que, se consumado, resultará na eleição de um governo indireto e usurpador, a eleição indireta de um governo que na sua interinidade não tem mulheres nos ministérios, quando o povo nas urnas escolheu uma mulher para comandar o pais. Um governo que dispensa negros na sua composição minsiterial e revelou profundo desprezo pelo programa escolhido e aprovado pelo povo em 2014”, disse Dilma.

Ela disse que, em seu mandato como presidente, defendeu a Constituição e jamais agiu contra a democracia.

“Sempre acreditei na democracia e no estado de direito. Jamais atentarei contra o que acredito ou praticaria atos contra os interesses daqueles que me elegeram”, afirmou a presidente afastada.

“Não luto pelo meu mandato por vaidade ou apelo ao poder como é próprio dos que não têm caráter. Luto pelo povo do meu país, pelo seu bem estar”, declarou.

‘Pena de morte política’
Segundo Dilma, o julgamento ao qual é submetida é “injusto” e a eventual perda do mandato representará para ela uma “pena de morte política”

“Cassar meu mandado é como me condenar a uma pena de morte política. Essa é a segunda vez que me vejo em um julgamento injusto. Na primeira vez, fui condenada por um tribunal de exceção. Daquela época, ficaram as marcas no meu corpo e um registro da minha presença diante dos meus algozes, olhando de cabeça erquida enquanto eles escondiam o rosto. Hoje, quatro décadas depois, não há prisão ilegal, não há tortura. Meus julgadores chegaram aqui pelo mesmo voto popular que me conduziu à Presidência e, por isso, têm meu respeito. Continuo de cabeça erguida olhando nos olhos dos meus julgadores”, declarou.
Por duas vezes, vi de perto a face da morte: quando fui torturada por dias seguidos, submetida aos que nos faziam duvidar da humanidade e do sentido da vida, e quando uma doença grave e extremamente dolorosa poderia ter abreviado minha existência. Hoje, só temo a morte da democracia, pela qual muitos de nós aqui neste plenário lutamos com o melhor dos nossos esforços.”
Dilma Rousseff

Emoção

Em um momento emocionado de seu discurso, Dilma disse que já esteve perto da morte por duas vezes: quando foi presa, na ditadura militar, e quando tratou um câncer, em 2010. Ela disse que, agora, não teme a própria morte, mas a morte da democracia.

“Por duas vezes, vi de perto a face da morte: quando fui torturada por dias seguidos, submetida aos que nos faziam duvidar da humanidade e do sentido da vida, e quando uma doença grave e extremamente dolorosa poderia ter abreviado minha existência. Hoje, só temo a morte da democracia, pela qual muitos de nós aqui neste plenário lutamos com o melhor dos nossos esforços”, afirmou Dilma.

‘Ruptura democrática’
A presidente afastada reafirmou que não cometeu nenhum dos crimes de responsabilidade pelos quais é acusada e disse que o país corre o risco de uma “ruptura democrática”.

Depois de fazer referência aos ex-presidentes Getúlio Vargas, Juscelino Kubtscheck e João Goulart, alvos de tentativas de retirada do poder, disse que a “ruptura democrática” se dá agora sob pretextos constitucionais “embasados por uma frágil retórica jurídica”.

“O que está em jogo no processo de impeachment não é o meu mandato”, afirmou. Segundo ela, “o que está em jogo são as conquistas dos últimos 13 anos”, e listou iniciativas do governo dela, como valorização do salário mínimo, programas de médicos e de casa própria.

Eduardo Cunha

Dilma fez críticas à atuação do ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), alvo de um processo de cassação na Casa. Para ela, o processo de impeachment é resultado de uma “chantagem” de Cunha, que, segundo ela, agiu em retaliação depois que o processo de cassação foi aberto no Conselho de Ética da Câmara.
Todos sabem que este processo de impeachment foi aberto por chantagem explícita do ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha (…). Exigia aquele parlamentar que intercedesse para que deputados do meu partido não votassem pela abertura do seu processo de cassação. Nunca aceitei na minha vida ameaça ou chantagem.”
Dilma Rousseff

“Todos sabem que este processo de impeachment foi aberto por chantagem explícita do ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, como chegou a reconhecer em declaração à imprensa um dos próprios denunciantes. Exigia aquele parlamentar que intercedesse para que deputados do meu partido não votassem pela abertura do seu processo de cassação. Nunca aceitei na minha vida ameaça ou chantagem. Se não o fiz antes, não o faria na condição de presidenta.”

Segundo ela, na gestão de Cunha, além de a Câmara não ter dado apoio a medidas para combate à crise econômica, ainda apresentou “pautas-bomba” que aumentavam os gastos do governo.

“Deve ser ressaltado que a busca de equilíbrio fiscal desde 2015 encontrou forte resistência na Câmara, à época presidida pelo deputado Eduardo Cunha. Os projetos enviados foram rejeitados parcial ou integralmente. Pautas-bombas foram apresentadas e algumas aprovadas, afirmou.

Corrupção

Dilma afirmou no discurso que seu governo contrariou interesses ao apoiar investigações contra a corrupção. Segundo ela, essa atitude gerou reação daqueles que queriam “evitar a continuidade da sangria de setores da classe política brasileira”.

“Assegurei a autonomia do Ministério Público, nomeando como procurador-geral da República o primeiro nome da lista indicado pelos próprios membros da instituição. Não permiti qualquer interferência política na atuação da Polícia Federal. Contrariei, com essa minha postura, muitos interesses. Por isso, paguei e pago um elevado preço pessoal pela postura que tive”, afirmou.

Para ela, os setores contrariados com o seu governo e aqueles que queriam se proteger das investigações encontraram em Eduardo Cunha “o vértice da aliança golpista”.
Apelo

No final de sua fala, Dilma disse que não nutriria ressentimento por senadores que votassem pelo impeachment, mas pediu a eles que votassem pela democracia.

“Votem sem ressentimento. o que cada senador sente por mim importa menos do que aquilo que todos nos sentimos pelo povo brasileiro. Peço votem contra o impeachment, votem pela democracia”, declarou.

“Faço um apelo final a todos os senadores. Não aceitem um golpe que, em vez de solucionar, agravará a crise brasileira. Peço que façam justiça a uma presidente honesta que jamais cometeu qualquer ato ilegal na vida pessoal ou nas funções públicas que exerceu”, concluiu Dilma.

O julgamento
A sessão foi aberta às 9h38. Depois disso, o presidente do julgamento, ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal, pediu ao presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), para introduzir a presidente afastada no recinto. Dilma sentou-se no extremo da mesa, à esquerda de Lewandowski. Ela começou a discursar às 9h53 e conclui às 10h39, 46 minutos depois.

As regras do julgamento estabeleceram 30 minutos para o pronunciamento de Dilma – período que acou sendo prorrogado por mais 16 minutos. Em seguida, ela começou a ser interrogada pelos senadores. Até a última atualização desta reportagem, 49 dos 81 senadores estavam inscritos para fazer perguntas, pelo tempo de cinco minutos cada. Dilma não teve limite de tempo responder aos questionamentos.
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A presença de Dilma no julgamento marca a fase final do processo, iniciado em dezembro do ano passado, quando o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), aceitou uma denúncia apresentada pelo advogado Hélio Bicudo, pela professora Janaína Paschoal e pelo jurista Miguel Reale Jr.

A decisão final, pela condenação ou absolvição da petista, deve ocorrer entre terça e quarta-feira (31), após debate entre acusação e defesa e novas manifestações do senadores. São necessários 54 votos entre os 81 senadores para o afastamento definitivo da petista.

Convidados
Para a sessão desta segunda, Dilma convidou 18 ex-ministros, entre os quais Ricardo Berzoíni, Carlos Gabas, Jaques Wagner e Juca Ferreira, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o cantor e compositor Chico Buarque de Hollanda. Os convidados ficaram na galeria do Senado, acima do plenário.

Na semana passada, entre quinta (25) e sábado (27), os senadores ouviram as testemunhas de defesa e de acusação no processo. Ao longo de três dias, os parlamentares fizeram inúmeros questionamentos aos depoentes, colheram informações e pediram esclarecimentos.

Tom do discurso
Afastada do mandato há 110 dias, Dilma passou o último fim de semana no Palácio da Alvorada, residência oficial da Presidência, preparando o discurso que leu para os senadores nesta segunda.

Na sexta-feira passada (26), Lula esteve em Brasília e, segundo relatos de assessores e senadores petistas, se reuniu com Dilma no Alvorada.

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Comentários

Mariana on 29 agosto, 2016 at 15:45 #

Bem vindo de volta! Já estava preocupada e sentindo falta, não só da presença do editor e comentaristas do BP, como deste espaço, para mim muito especial. Vida que segue…
O Bahia em Pauta não poderia ficar fora do ar em um dia como o de hoje!
Daqui de Brasília, neste dia quente e seco, sob todos os aspectos que o rodeiam, acompanho, ao mesmo tempo em que trabalho (a cabeça está dividida com o que se passa a algumas quadras de onde me encontro) esses momentos finais da presidente afastada.
Não sei se mais triste ou aliviada com o que vejo, mas, certamente, bastante atenta aos ruídos e assombros do momento que vivemos.
Do discurso dela, pouco esperei, pois sei que feito “para a plateia”, pro documentário… e menos para, realmente, se defender ou prestar contas a Nação do que fez ou deixou de fazer.
Não posso deixar de lamentar a presença de Chico Buarque no Congresso. Não por ele está ao lado dela, de maneira nenhuma o julgaria ou deixaria de gostar ou gostar menos dele ou de suas músicas e arte por causa disso. Serei sua fã incondicional até o fim dos meus dias. Mas, simplesmente, porque não vejo razão qualquer para sua presença naquele local. Está cabisbaixo, de óculos escuros, deslocado…enfim, apenas um lamento meu e nada mais.
Continuarei acompanhando e aguardando o que vem por aí…


luiz alfredo motta fontana on 29 agosto, 2016 at 16:09 #

Cara Mariana!

A razão acompanha teu sentir. Da mesma forma que não esperamos que o pasteleiro nos ofereça nada além de excepcionais pastéis, não interessando se sabe ou não compor um sambinha, o mesmo se deve em relação ao Chico, pouco nos importa sua cegueira política, talvez minorizada pelo sentimento de gratidão face à antiga nomeação da irmãzinha, ou pelos laivos cubanos que, exoticamente, o compositor insiste em envergar. Lamenta-se contudo, até para preservação de sua imagem, que esteja sentado ao lado de um indiciado do naipe e da lavra de um Lula, “namorado de Rose.”


luiz alfredo motta fontana on 29 agosto, 2016 at 16:27 #

Em verdade, Chico pode estar com aquela cara de nauseabundo face à proximidade de Jaques Wagner, ninguém merece tal castigo.

De uma lado o “namorado da Rose”, de outro o “avarandado”. É dose pra leão!


regina on 29 agosto, 2016 at 17:33 #

Jamais fiz parte do bloco “Maria Vai Com As Outras”, desde tenra idade procurei ter opinião própria e baseada em fatos até onde eu possa constatar. Leio, estudo, procuro ser imparcial e quando chego a uma conclusão não fecho as portas da mente nem do coração, sempre há a possibilidade de um arrependimento ou segunda opinião. Nesse momento histórico no Brasil, eu, de longe por demasiado tempo, arrisco a dizer que a presidente eleita Dilma Rousseff merece meu respeito e solidariedade num momento em que a postura de dignidade e coragem esta muito mais do seu lado do que dos seus acusadores.
Não quero confundir esse momento com o desempenho do seu partido político e do seu antecessor, falo da representante do poder executivo que está a se defender, firme, forte e de cabeça erguida, como deve ser o comportamento de quem não tem do que se esconder.
Alguns dos meus mais próximos amigos e familiares discordariam do meu parecer assim como outro tanto concordam comigo e entraram em contato quando viram, em momentos de dúvida, que eu necessitava orientação e clarificação em certos pontos, à estes meu mais sincero agradecimento, pois só amigos de verdade trazem a luz no nosso caminho quando estamos perdidos e aceitam meus argumentos e debates.
Já testamos na nossa história muitas formas de transição do governo federal, este que estamos a viver, como outros no passado, na minha juventude, não será um motivo de orgulho no futuro, na minha modesta opinião!!!


Rosane Santana on 29 agosto, 2016 at 22:37 #

Faco minhas as suas palavras, Regina Soares.


Cida Torneros on 30 agosto, 2016 at 2:42 #

Amiga Regina parabéns pela lucidez. Beijo DE Cida Torneros


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