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Postado em 22-08-2016
Arquivado em (Artigos) por vitor em 22-08-2016 01:34


Carro alegórico no encerramento da Rio 2016.
MICHAEL REYNOLDS EFE

DO EL PAIS

María Martín

Rio de Janeiro

Sob uma cortina constante de chuva, a chama que trouxe os Jogos Olímpicos ao Rio de Janeiro apagou-se às 22h30 da noite carioca. A Olimpíada na Cidade Maravilhosa, questionada até o último momento pelo zika, o terrorismo ou o transporte, deu certo, e comemorou-se seu sucesso com uma cerimônia modesta e muito menos surpreendente que a da abertura, num Maracanã convertido em um sambódromo, com o gari Sorriso, figura popular do carnaval carioca, e a supermodelo Izabel Goulart, sambando como se não houvesse amanhã.
Carro alegórico no encerramento da Rio 2016.

A festa, idealizada pela carnavalesca Rosa Magalhães, que foi responsável pela cerimônia de abertura dos Jogos Pan-Americanos de 2007, ficou longe da criatividade da cerimônia com que se inauguraram os Jogos, e caiu em repetições como a homenagem ao aviador Santos Dumont. A festa, porém, recorreu a homenagens à cultura brasileira menos conhecida pelo estrangeiro e esquecida, em muitos casos, pelo próprio brasileiro.

Embora Carmen Miranda e o carnaval carioca tenham ajudado a internacionalizar a cerimônia, houve lembranças às pinturas rupestres da Serra da Capivara no Estado de Piauí, Patrimônio Mundial da UNESCO, à cultura indígena, e aos fazeres brasileiros, como a renda de bilros ou a modelagem com barro, o material com o qual ainda são construídas muitas casas no interior do Brasil. Duplamente homenageados foram os 50.000 voluntários, que trabalharam de graça durante os 16 dias do evento, e em alguns casos fazendo muitas horas-extras – e com refeições insuficientes.

A primeira homenagem a eles foi com uma versão exclusiva do cantor brasileiro Lenine, e depois nos discursos oficiais das autoridades olímpicas.“Valeu, voluntários!”, disse o presidente do COI, Thomas Bach, imitando o jargão carioca. A pesar dos seus elogios à cidade anfitriã, Bach evitou afirmar que estes foram os “melhores Jogos da história”, um ditado repetido pelos representantes do COI desde os Jogos de Barcelona em 1992. Bach limitou-se a falar dos “Jogos maravilhosos na Cidade Maravilhosa”.

“Fazer os Jogos no Rio foi um grande desafio. Um desfio que foi um êxito. Tenho orgulho de meu país, da minha cidade e do povo”, disse o presidente do comitê organizador, Arthur Nuzman, em um discurso muito similar ao da inauguração. Como é tradicional, os vencedores da maratona masculina, a última e mais clássica prova dos Jogos, a que recupera as raízes gregas da Olimpíada, receberam suas medalhas na cerimônia. As ovações não foram só para o vencedor, o queniano Eliud Kipchoge, mas também para o vice-campeão, o etíope Feyisa Lilesa, que confessou que teme ser morto ao voltar em seu país. O corredor comemorou sua chegada na meta cruzando os punhos sobre a cabeça em protesto à repressão que sofrem os manifestantes no seu país. “O Governo etíope está matando minha gente. Meus parentes estão na prisão e, se eles falarem sobre direitos democráticos, serão assassinados”, acusou.

Na cerimônia o prefeito do Rio, Eduardo Paes, entregou a bandeira olímpica à governadora de Tóquio, Yuriko Koike, representando a passagem do desafio olímpico ao Japão. Após a Rio 2016 inaugura-se um novo conceito mais austero na concepção dos megaeventos esportivos. Tóquio apresentou sua cidade como uma anfitriã bem-humorada e moderna até o ponto em que o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, surgiu de um enorme cano verde no centro do palco, vestindo o boné do personagem Super Mario, em homenagem ao mais famoso encanador da Nintendo.

Com a ausência do presidente interino do país, Michel Temer, fortemente vaiado na cerimônia de abertura, o Rio de Janeiro apaga, por fim, a chama olímpica que alimentou seus sonhos por pelo menos duas semanas. Só voltará a brilhar em Tóquio em 2020, e até então, o Rio deverá enfrentar o enorme desafio da realidade. Uma cidade ameaçada pelo desemprego pós-Jogos, uma rede estadual de hospitais e escolas em situação precária, contas do Estado no vermelho e uma grave crise de segurança que chegará de vez na hora em que os 85.000 militares e policiais mobilizados para a Olimpíada voltem às suas funções e o foco da imprensa internacional e a última luz do Maracanã se apagar. Será só no silêncio da ressaca olímpica que o Rio deverá se mostrar verdadeiramente vitorioso.

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