Isaquias: canoeiro três medalhas do Brasil…


…e Ryan: desculpas mal alinhavadas e com atrasos repercutem mal.

ARTIGO DA SEMANA

Imprensa e verdade: do canoeiro Isaquias ao nadador Ryan

Vitor Hugo Soares

Discreta, no meio do bombardeio cerrado do noticiário, sobre os Jogos do Rio 2016 e o impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff (que decidiu comparecer aos atos derradeiros do seu praticamente inevitável bota fora, pelo Senado), a Associação Baiana de Imprensa (ABI) festejou 86 anos de fundação, na última quarta-feira, 17. Fiquei indeciso sobre como fazer o registro do relevante fato histórico, para o jornalismo da Bahia e do País, até deparar com os desdobramentos de dois fatos contrastantes, mas expressivamente representativos, do jogo decisivo verdade X mentira, dos tempos olímpicos que atravessamos. Em ambos, a veracidade parece vencer o confronto com a empulhação.

Isso merece ser vivamente saudado. às vésperas do empolgante desfecho de mais um agosto para ficar na memória. Refiro-me, no primeiro caso, aos relatos sobre as glórias de Isaquias Queiroz, o jovem canoeiro de 22 anos, nascido e criado em Ubaitaba, no sul baiano: às margens do lendário Rio de Contas, que embalou os melhores sonhos do menino simples do interior, “sem um rim” (o noticiário faz questão de lembrar o detalhe), perdido depois de despencar de uma árvore durante desastrada brincadeira de infância. Na sexta-feira em que escrevo este artigo, Isaquias já tem conquistadas duas incríveis medalhas olímpicas (prata e bronze), e acabara de se classificar, em primei ro lugar, para disputar a terceira, neste sábado. Qualquer que seja o resultado da última prova, no deslumbrante cenário da Lagoa Rodrigo de Freitas, o Brasil já celebra, com justiça, os feitos memoráveis deste filho dileto da “aldeia das canoas”.

A parte desonrosa desta narrativa fica por conta da equipe de quatro nadadores dos Estados Unidos, entre eles o multi medalhista Ryan Lochte – “o garoto mimado da imprensa americana”, como resumiu o repórter Guga Chacra, correspondente da canal privado Globo News em Nova York – , que declarou, em uma delegacia da Polícia Civil, ter sido assaltado violentamente, por ladrões que se faziam passar por policiais, na madrugada de domingo passado, – juntamente com seus colegas Jimmy Feigel, Gunnar Bentz e Jack Conger -, quando retornavam de taxi, na madrugada, de uma festa de embalo na Casa da França, para a Vila Olímpica.

A apuração da denúncia criminosa e irresponsavelmente forjada e cheia de “buracos” factuais, abriria espaços para um episódio robusto de contradições e acusações perversas e perniciosas, mal costuradas por Ryan, seu idealizador, desde a origem. Um caso carregado de deslustres pessoais, desportivos e profissionais em várias setores (inclusive o jornalismo), repleto de de áreas de sombras, de invencionices e graves e irrecuperáveis malefícios causados à imagem do Rio de Janeiro, sede da Olimpíada, e aos seus habitantes tão generosos e hospitaleiros.

Ao país também, quando, no primeiro momento, o delinquente principal (ao lado de seus parceiros, cúmplices por ação ou omissão), aos 33 anos de idade, foi tratado como “moço, jovem vítima da violência cruel e sem freios que impera na cidade sede dos Jogos 2016. Sem qualquer verificação ou checagem, tudo (ou quase) passou a ser considerado a mais pura e cristalina verdade factual.

E a versão marginal ganhou a estrada do mundo, começando pela Austrália, até chegar, logo em seguida, aos Estados Unidos, onde se transformaria na vergonha real e explícita que se conhece e se revela agora, depois de assentada a poeira do mito – neste caso da mistificação – de que fala o escritor francês, Eduardo Zamacois, em “Opinião Pública”, seu romance mais famoso.

E se falamos neste caso de imprensa e ética, dos permanentes contrastes e confrontos do bom e do mau jornalismo, vale aqui um destaque especial ao diário britânico The Guardian. Foi ele o primeiro a cumprir, de fato, a regra basilar da reportagem: duvidar sempre das aparências, investigar com afinco e isenção, confrontar dados e palavras, seja lá de quem for, com a realidade. E assim foi buscar as imagens, de Ryan e seus comparsas, tomadas na volta predatória à Vila Olímpica, depois “do terrível assalto sofrido no Rio”. As imagens revelaram delinquentes despreocupados, de posse de suas carteiras, celulares, credenciais e outros pertences. Salvo os 100 reais e os 20 dólares, que se dispuseram a gastar, para pagar prejuízos e se livrarem da enrascada em que, de fato, se envolveriam se chegasse a polícia, chamada para conter os desordeiros olímpicos que vandalizaram, urinaram e depredaram o posto de gasolina onde pediram ao taxista para dar uma parada – já perto da Vila dos Atletas – de volta da noitada com mulheres, álcool e vídeos. O Jornal Nacional da TV Globo divulgou tudo, e o rumo do caso começou a mudar.

Depois é o que se sabe, e as conseqüências ainda por saber e a conferir. Reviravoltas. Mudanças bruscas de opiniões nas redes sociais e na mídia nacional e estrangeira, em muitos casos sem nenhum pedido de desculpas ou autocrítica, nos Estados Unidos, mas também no Brasil. Pusilanimidades, também, a exemplo das justificativas e cumplicidades com os delinquentes e seus maiorais, contidas nas declarações, ao JN, do coordenador de comunicação da Rio 2016, Mário Andrada. Em silêncio seguem o Itamaraty e a diplomacia norte-americana. Encerrada a investigação policial, com esclarecimentos cruciais e devidos, aguarda-se a firme e severa decisão da justiça – esportiva e criminal – que puna os mentirosos predadores responsáveis por este triste e vergonhoso episódio.

Enquanto isso, antes do ponto final, salve Isaquias e viva o aniversário da Associação Baiana de Imprensa e a plena liberdade de informação.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

regina on 20 agosto, 2016 at 5:54 #

Aqui, mais uma manifestação da inteligência jornalistica de Nei Duclos, jornalista, escritor, poeta:
VERDADES E MENTIRAS NO ESPETÁCULO

Americanos são especialistas em mentir. Essa é a sua essência como civilização. O espetáculo foi inventado como representação da realidade e dos sonhos, mas serve para a mentira e a patriotada. Americanos manipulam os fatos com as versões que os colocam como os bam bam bam do mundo. É preciso porém atender às expectativas do público, pois o show precisa de dinheiro. Assim, os nadadores aproveitaram eventos anteriores (é sempre uma refilmagem), da violência carioca, para compor o roteiro do assalto no Rio sem lei. Colocaram-se como protagonistas de um filme de ação, onde seriam as vítimas e os heróis medalhados à mercê da barbárie do mundo pobre. Foram desmascarados.

Agora a mídia e as fontes oficiais dos Estados Unidos querem provar que esses mentirosos não são a essência deles. Pois são. Vejamos o caso de Santos Dumont. A diplomacia americana pressionou o Aero Clube de Paris para incluir, de última hora, os irmãos Wright entre os primeiros pilotos com brevê. Armaram então uma demonstração do voo do Flyer, que teria sido o pioneiro dos voos (ate Santos Dumont voar, eles estava mudos). Pois bem. Funcionava assim: o avião estava ligado a um peso, o pylon, que era puxado por uma fila de homens, apelidados de os barqueiros do Volga pelo humor parisiense. Quando soltavam o peso o aviãozinho ganhava impulso para voar. Não era o que tinha feito Santos Dumont depois de muitos anos de pesquisa e mostrado, nas fuças no mundo, filmado e fotografado, como levantar o mais pesado que o ar, um mecanismo até hoje vigente na indústria aeronáutica.

Há outros exemplos notórios. Como a injustiça a Nikola Tesla na implantação do parque energético, como devassaram seu escritório roubando documentos, como se apropriaram dos seus inventos relegando o inventor ao ostracismo e ao esquecimento. Há também a versão cinematográfica de que foi o John Wayne (eles, os gringos) que ganhou a Segunda Guerra, quando se sabe que os russos fora decisivos na batalha de tanques de Kursk. Americanos passearam na Europa derrotada e filmaram a alegria e os alivio dos povos “libertados” pelo charme ianque, que nos filmes sempre “comem” as mulheres dos outros povos, de qualquer nacionalidade. São os paus de ferro do mundo.

Só que não. Perderam inclusive, nesta Olimpíada, além do carisma de suas vitórias com o evento da mentira dos nadadores, a própria experiência de marcar um espetáculo com criatividade. Isso coube ao jamaicano Usain Bolt, que além das medalhas de ouro usou um gesto antigo da mitologia para definir e identificar suas grandes vitórias. Nesse caso, o espetáculo (o gesto vitorioso do corpo e o braço apontando o infinito) cumpre seu papel de representação ética dos fatos. Coisa que os americanos perderam, há tempos.

Enquanto os gringos emporcalharam suas medalhas de ouro com a atochada homérica, o Brasil tem se saído bem, revelando novos ídolos em esportes pouco cultivados entre nós. Vem aí, se soubermos aproveitar e deixarmos de ser um país de atordoados, novos atletas de pulo, remo, boxe, judô etc.

Nei Duclós


luiz alfredo motta fontana on 20 agosto, 2016 at 10:36 #

Caro VHS!

Enquanto Isaquias comemora sua terceira medalha, este poeta distraído, atreve-se a palpitar sobre tua seara, o jornalismo, não como expert, mas como leitor, desde sempre, desde quando a Folha da Manhã, parecia ser um mar de surpresas, entremeadas, é claro, dos quadrinhos, saudades de Arapuã e sua coluna, “Cavalo comedor, Cabresto curto”.

Jornalismo esportivo, o que é isso? É o jornalismo feito por um jornalista calçando tênis? Acredite, poderia ser, afinal, o que vemos, amiúde, são jornalistas calçando bairrismo, ufanismo, estrabismo, entre outros ismos.

O que se espera de um Galvão Bueno? A expressão da verdade dos fatos que cercam o tal evento? Como? Se da sua exaltação, ao nada, advém maior ou menor verba publicitária. Não é a verdade e sim o Ibope que comanda o show. Eu disse show? Pois é , é show!

Ah, mas tem os comentaristas!

Ok! Por falar em Isaquias, que se aponte um comentarista destas redes que entenda de canoagem. Mas, por certo, todos saberão falar do rim, ou da origem humilde. Eu, afora um bando de incautos, continuarei sem saber detalhes da canoagem.

Esqueçamos, por um momento os atletas, foquemos em Hélio Vieira Andrade, o soldado da Guarda Nacional, morto na Vila do João, na Maré. O jornais noticiaram, entrou em área perigosa, por engano, esta a causa de sua morte.

Epa!

Área perigosa? Engano? Fatalidade?

Como assim?

Mobilizam milhares de homens, equipamentos, ministros, generais, agentes, cães, fuzileiros, aeronáutica, o escambau, dizem que viram até Jerônimo, o herói do sertão, acompanhado do Moleque Saci, fazendo um bico de segurança no Leblon.

Mas, mesmo assim, obraram um acordo tácito com os traficantes, do tipo, “vocês ficam ali e nós aqui”, quem cruzar a linha morre!

E ninguém diz nada? Não de busca informar como se deu esta acomodação de forças?

Bom, deve ter faltado verba, afinal até no futebol existe reportagem de campo, então, os fatos deveriam ser cobertos em toda sua “amplitude” (doce palavrinha).

Caro VHS, Olimpíada é um bom negócio para a combalida imprensa nacional, heróis de ocasião vendem, a verdade costuma espantar leitores, ouvintes, telespectadores,sem contar que, via de regra, é um saco para suportar.

Eu, confesso, tive bons momentos assistindo as provas de atletismo.

Enquanto, o mariliense Thiago Braz, saltava para o ouro e o orgulho da terrinha natal, um outro, salta nas páginas da Veja para o inferno de Dante, Toffoli leva minha Marília para as páginas marrons da história.

Caro VHS, de canoa ou com vara, somos todos olímpicos!

Tim Tim!


luiz alfredo motta fontana on 20 agosto, 2016 at 10:43 #

Ao mais, se esta Olimpíada foi de alguém, foi de Bolt!


Rosane Santana on 20 agosto, 2016 at 11:37 #

Salve Isaquias e viva o aniversário da Associação Baiana de Imprensa e a plena liberdade de informação.
E salve Vitor Hugo Soares pelas lições do bom jornalismo que está a ensinar!


Rosane Santana on 20 agosto, 2016 at 11:38 #

Entre aspas, que esqueci de colocar, a frase do amigo Vitor.


Nei Duclós on 31 agosto, 2016 at 8:39 #

Diz o comentarista: “este poeta distraído, atreve-se a palpitar sobre tua seara, o jornalismo, não como expert, mas como leitor”. Sou jornalista desde 1970. A especialidade do jornalista não é o esporte, a cultura ou a economia, mas o jornalismo. Sou editor de texto de três livros de esportes. Escrevi vários textos sobre esportes e publiquei nas redes sociais. Não sou distraído nem me atrevo a nada. Exerço a minha profissão.


luiz alfredo motta fontana on 31 agosto, 2016 at 13:02 #

Senhor jornalista Nei Duclós

Nenhuma referência, mesmo que distraída, foi feita à Vossa Senhoria, desconheço-o, portanto está isento do estorvo de sofrer algum comentário meu, dirigi-me, em meu comentário ao VHS.

Assim, e da melhor arte, restrita está a conversa, cabendo, talvez, à vossa distração, esta intempestiva reação.

Abraços!


luiz alfredo motta fontana on 31 agosto, 2016 at 13:18 #

Caro VHS

Reitero meu comentário de 20 de agosto, feito em tom, de conversa, dirigida a um fraterno amigo, fruto da consideração de nosso já longo convívio, mesmo que virtual, tal fato permite, creio eu, que possa, distraidamente, livre pensar sobre alguns assuntos, especialmente este afinal sou leitor, ouvinte e telespectador, sou exatamente aquele a quem o jornalista oferece seu trabalho e esforço.

Abraços, fraternos e sinceros, sem nenhum laivo de corporativismo!


luiz alfredo motta fontana on 31 agosto, 2016 at 14:56 #

Ao mais!

Caro VHS, renovo minha profissão de fé, morrerei distraído, não perderei jamais este olhar perdido que a poesia me emprestou!

Que os atentos ditem regras, eu apenas me atrevo. Afinal sou humano, tanto quanto a poesia!


regina on 31 agosto, 2016 at 15:40 #

Caro Fontana:
Distraída estava eu, preocupada e ligada, ainda que a milhares de milhas dai, nos acontecimentos que nortearão nosso amado Brasil, outra vez vilipendiado pelas tenebrosas transações….(OK, eu sei que vc não concorda comigo nesse ponto, releve, é minha opiniao, rsrsrs) . Ao voltar à tal realidade, porque as vezes a gente pensa que sonhou certas coisas por bizarras que são, encontro-me com esse debate/embate aqui no BP…
Estou aguardando que o nobre jornalista Nei Duclós, que nos honra com sua presença, volte para retratar-se do equivoco cometido contra vc, ambos queridos poetas.
O artigo que eu trouxe a tona aqui no BP veio à mim através do facebook e achei que refletia meu sentir naquele momento e por isso o transcrevi nesse nosso recanto de encontros e pensamentos. Está claro que houve um equivoco na interpretação do Nei Duclós do seu comentário. Pela parte que me toca, peço desculpas!!!!
Abraço,
Regina


luiz alfredo motta fontana on 31 agosto, 2016 at 16:06 #

Cara Regina

O apreço por você é enorme, verdadeiro, reiterado a cada aceno. Respeito tua posição, a tenho visto amiúde aqui e no twitter, não me atrevendo sequer lhe passar um pito merecido (risos como desculpa do atrevimento).

Quanto ao equívoco, não o creio, afinal o autor do deslize fez questão de assinalar que não se distrai nem se atreve, portanto o fez de caso pensado. Resta, a este distraído poeta, reiterar que o desconheço, não pretendendo sequer conhecer, ficando portanto, esse incidente, retratado como um incomodo, numa tarde de outras atrações.

Abraços, com a devida ternura!


regina on 31 agosto, 2016 at 16:13 #

Te beijo, ainda que de pontos opostos, no momento!!!!


Nei Duclós on 31 agosto, 2016 at 16:57 #

Errei, desculpem. Abs


luiz alfredo motta fontana on 31 agosto, 2016 at 17:05 #

Beijo, com um pequeno adendo, não estamos em pontos opostos, eu continuo critico ao governo, sai Dilma, a bizarria em pessoa, entra Temer, a dissimulação ensaiada.

Lamento reconhecer,que aos 63 anos, já não tenho mais esperanças de reconhecer entre os que se digladiam nas lides politicas alguém que mereça um mínimo de respeito e esperança.

Jaz no mesmo mar, em encantamento, que Ulisses escolheu para descansar, as minhas antigas ilusões, de uma já distante crença nos rumos e futuro deste país desarvorado.

Afagos!


regina on 31 agosto, 2016 at 17:59 #

Democracia é isso, meu prezado amigo, a esperança que nos animou na juventude acena cada vez mais longe… Aí vem Donald Trump (risos)…


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