“Novo Chico”:Temer, Padilha, Renan e ministros, no retrato sem
retoque do ato de lançamento do plano no Palácio do Planalto.

ARTIGO DA SEMANA
“Novo Chico”: outro ataque político ao Velho Chico?
Vitor Hugo Soares

Para quem nasceu e passou anos inesquecíveis nas barrancas do Rio São Francisco, entre a Bahia e Pernambuco, é irresistível constatar: a imagem que ilustra a notícia sobre o lançamento, no Palácio do Planalto, esta semana, do “Plano Novo Chico” (há sinais evidentes de marqueteiro novo no pedaço!), assusta e preocupa. Mais que as cenas das conversas e arranjos do coronel Saruê com o deputado Carlos Eduardo, em suas maquiavélicas maquinações nos capítulos mais recentes da novela “Velho Chico” (TV Globo), enquanto o rio da minha aldeia míngua a céu aberto e segue agonizando a olhos vistos.

Na fotografia sem retoques de Beto Barata, que vejo publicada pelo portal G1 , o presidente interino Michel Temer (PMDB) exibe seu sombrio e indecifrável ar de sempre. Está sentado na cadeira de comando do palco da cerimônia, ao centro de uma fileira de ministros de seu governo e de um convidado especial. Do lado direito do mandatário, o Chefe da Casa Civil, Eliseo Padilha, novo “faz tudo” da corte. À esquerda, o presidente do Senado, Renan Calheiros, parece dizer: “com impeachment ou não, e mesmo que o São Francisco não desaguasse em Alagoas, eu estaria aqui”.

Antes da canetada presidencial, os arautos da vez, no poder, trombeteiam que o plano (saído do forno palaciano às vésperas do começo da campanha para as eleições municipais deste ano), prevê que serão distribuídos R$ 1,1 bilhão, nos próximos três anos, entre 217 municípios. Do total de investimentos previstos, R$ 805 milhões devem ir para a construção de sistemas de esgotamentos sanitários em 137 cidades ribeirinhas. Outros R$ 356,9 milhões deverão ser repassados para custear obras de abastecimento de água em mais 80 municípios. A chamada bacia hidrográfica do rio é formada por 505 municípios, onde atualmente vivem 16,5 milhões de pessoas.

Muita gente, muito abandono, múltiplos interesses, incontáveis necessidades. E carradas de votos à espera do primeiro aventureiro ou “salvador da pátria” que apareça. Um “coronel Saruê” ou um “deputado Carlos Eduardo” qualquer, para ficar com o exemplo da espúria e corrupta partilha de exploração política público privada, que o folhetim da televisão apresenta, magnificamente, a cada capítulo. Ainda assim, sinto-me tentado a repetir mais uma vez o ditado irônico dos franceses: “Amaldiçoado seja aquele que pensar mal destas coisas”.

Sob os olhos atentos e o riso meio zombeteiro, no canto dos lábios, do senador Calheiros, o presidente Michel Temer discursa entre amigos e aliados, durante a cerimônia palaciana, e parece que nada mudou. Ao melhor estilo da mandatária afastada – a um passo do impeachment – Temer diz que “a revitalização do São Francisco ajudará a preservar a vida humana, a vida animal e a vida vegetal. E registro aqui uma satisfação extraordinária ao lançarmos esse programa com o título que torna o Velho Chico o Novo Chico… Um Novo Chico cheio de vida para um novo Brasil”.

É preciso reconhecer: a afastada presidente petista Dilma Rousseff; o ex, também do PT, Luís Inácio Lula da Silva, (na vida real, como diz o meu irmão Genival); o coronel Saruê e seu genro deputado, (personagens da novela das nove, na TV) não teriam feito melhor. Nem mesmo o ex-ministro Delfim Neto, quando na sua melhor forma, no começo da gestão ditatorial do general João Batista Figueiredo, lançou o programa “Plante que o governo garante”: Mandou o agricultor plantar cebola, nas margens do rio, com garantia de compra da safra a bons e justos preços. Veio uma supersafra, o Governo de João não garantiu nada, e os lavradores foram levados a lançar cargas de cebola no leito do rio, ou a tocar fogo nas plantações, liberando terrenos férteis e irrigados na área onde surgiria, no ano seguinte, um dos maiores polos de plantação de “cannabis sativa” do País, no chamado Polígono da Maconha, entre a Bahia e Pernambuco.

Ninguém me contou. Eu sou de lá. Eu estava lá. Eu vi. E narrei vários episódios em reportagens que fiz para o Jornal do Brasil, na época.

Em junho do ano passado, a propósito das manifestações do Dia Nacional em Defesa do Rio São Francisco, escrevi um texto, neste espaço, com o título “Velho Chico: Jeito PT- Lula de governar e o rio que definha”. Peço licença aos leitores para reproduzir um trecho, antes do ponto final:

“Em 2004/05, período das vacas gordas, do primeiro mandato do governo petista (e de pesquisas de aprovação popular que só faziam crescer), com dinheiro de órgãos públicos de financiamento e de estatais “dando sopa”, para bancar todo tipo de megalomania aventureira, Lula decidiu bancar, de fato, a transposição.

Para encurtar esta história, que é longa e tem passagens impróprias para menores: no começo da execução do projeto, as obras foram orçadas em R$ 4,8 bilhões (2007). Atualmente pulou para R$ 8, 2 bilhões. Reajustes contratuais, em geral destinados a atender aos apetites insaciáveis de grandes empreiteiras, aumentaram em 30% o custo inicial, entre 2007 e 2012. Mas contribuiu decisivamente, no Nordeste, para o marketing eleitoral na conquista do segundo mandato de Lula e nas votações avassaladoras de Dilma no primeiro mandato e na reeleição recente.” Em favor do rio e da sua gente mais necessitada, até agora nada.

Mais não digo, nem precisa. Só peço julgamento severo, e o castigo mais duro, para todos os responsáveis e culpados, por ação ou omissão, pela morte, que parece inexorável, do Velho e do Novo Chico, o amado e generoso rio da minha aldeia.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia e Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Taciano Lemos de Carvalho on 13 agosto, 2016 at 9:18 #

Esse dinheiro (R$1,1 bilhão) que Temer promete aplicar no São Francisco vai provocar uma enchente sem tamanho. Enchente de demagogia e engodo.

Vejamos:

O valor de R$1,1 bilhão será aplicado nos próximos 3 anos, isto é, durante os próximos 1.080 dias.

Numa continha rápida, dividindo-se R$1,1 bilhão por 1.080 dias, encontramos que Temer aplicará apenas R$1,01 milhão por dia no seu portentoso (Cruz Credo, palavrão) programa de recuperação do Velho Chico. Sabe o que esse valor de R$1,01 milhão significa? Irrisório, vergonhoso, imoral, infame, 0,04 por cento do gasto DIÁRIO com a dívida pública federal.

Resumindo: o governo Temer promete (promete) aplicar nos três próximo anos, na recuperação do Velho Chico, um rio que agoniza pela perversidade dos homens, em especial pelos dedicados ao agronegócio, um irrisório R$1,1 bilhão. Valor que representa tão somente 41,8 por cento do GASTO DIÁRIO com a dívida pública federal.

Demagogia! ‘Marquetagem’ pura, sim senhor!


Taciano Lemos de Carvalho on 13 agosto, 2016 at 9:27 #

Esclarecendo: O gasto DIÁRIO com a dívida pública federal foi, em 2015, de R$2,63 bilhões.


luiz alfredo motta fontana on 13 agosto, 2016 at 9:41 #

Caro VHS

As torturas, sofridas pelo Velho Chico, encontram substrato num outro rio, o Rio das das Ilusões, caudaloso, profundo, prenhe de figuras grotescas e abomináveis, que inunda o caricato mundo político, do teu nordeste, do meu sudeste, da nossa Pindorama.

Ele está sempre presente, onipresente, na verdade, sem contar que costuma produzir enchentes em períodos eleitorais.

Este rio, contudo, só tem sua força predatória, graças ao afluentes, que lhe dão força, que o sustentam e que, pasmem os incrédulos, o idolatram.

Basta folhear as páginas políticas de nossos diários, sejam eles os grande circulação, ou mesmo os tímidos que mal ultrapassam bairros.

Agora mesmo, às vésperas das eleições municipais o que se lê? Debates sobre as necessidades dos munícipes? Com certeza não. Na tua Salvador, por exemplo, repetido em toda província, deste país em atraso secular, o mote é outro, se o cacique da varanda irá plantar seu poste de ocasião, ou se tomará uma surra do alcaide de plantão.

O Velho Chico caminha para a morte, solitário, triste, esmaecido, vencido, tendo ainda de suportar, por vezes, o papel de escada, para diletantes globais, em busca de uma manchete curricular.

Quanto ao Temer, ele é o que é, um politico antigo, sem votos, sem jaça, mas especialista em mumunhas, doutor em acertos de compadrio, cujo habitat são os corredores e gabinetes sombrios e alienados do mundo real, que um tal comunista, vide a ironia, ergueu como monumento ao desperdício de concreto, na Brasília que nos sangra qual imensa ameba abstrata.

Caro VHS, os rios de nossa infância, já não aliviam nossas almas, em parte, por conta de nosso descuidar com os pequenos córregos de nossos quintais. Já nem trazemos, em nossa memória, a grandeza das pinguelas.

O Velho Chico, quem diria, virou alimento de marqueteiro, essa espécie agressiva de lombriga que corrói nosso discernimento.

Tim Tim!!!
(em busca da margem de algum rio, com cara de minha infância)


luiz alfredo motta fontana on 13 agosto, 2016 at 11:33 #

Ao mais, está na Gerais, na Minas e suas nascentes, a obra emergencial, recuperar as águas do Chico, não se encorpa quem mitiga em alimento, é hora de trocar os interesses das “samarcos”, pela urgência de ressuscitar o natimorto. Pulverizar recursos, ao longo de suas margens, sem planejamento, é mera cooptação de cabos eleitorais.

Fica uma pergunta, para que serve os centros de pesquisa, afora manter em gaiola estéril os ditos donos da ciência e da verdade?

Ficaremos até quando pautados “por celebridades”, em busca de afeto e notinhas sociais?

O caminho do Velho Chico, começa pelas nascentes, a sua recuperação deverá começar pela decência no trato, menos fantasias mais ciência, menos abuso mais consciência.


Janio on 13 agosto, 2016 at 13:01 #

Mestre Vitor, veja só os acasos que essas barrancas aprontam. Ontem, eu e Lindemar estávamos exatamente no quiosque de Zezinho Preto, aqui em Nova Glória, traçando um tucunaré com umas Originais daquele jeito (e mais umas doses de Germana, que é pra ficar pensando melhor), olhando para o lago de Moxotó e comentando mais essa “empulhação”, que é como esse meu genial tio, prestes a completar 90, anda chamando mais esse factoide.
Com lucidez e humor que, tomara, hereditários, ele, que já andava puto com esse negócio de Velho Chico (sua tese é a de que ninguém por aqui nunca o chamou assim, mas apenas de Rio), agora está uma arara com esse rejuvenescimento midiático, provavelmente aprovado por Michelzinho.
Mas como eu ia dizendo das coincidências ribeirinhas, aí vem você com essa beleza de texto que, só quem é de cá, pode teclar com a mesma segurança dos velhos canoeiros que manobravam os remos cortando as águas do nosso Kaxaká. Tim, Tim!


vitor on 13 agosto, 2016 at 13:56 #

Janio

Palavras de lavar a alma e enxaguar com a melhor água do rio da nossa aldeia. Ainda mais quando acompanhadas das melhores notícias sobre Lindemar Liberalino da Silva, aos 90 gloriosamente vividos e muitos mais por viver: um dos meus primeiros e grandes mestres , fundador do Clube Recreativo Lítero-Cultural de Gloria, onde assisti a primeira sessão de cinema e li os primeiros livros e Gibis. Vai aqui o meu forte abraço de agradecimentos. Tim Tin!!!


luiz alfredo motta fontana on 13 agosto, 2016 at 14:35 #

Pois é!

Eu continuo com a besta impressão que “cuidar do nosso”, caso impossibilitado de o fazer sozinho, é, ao menos, eleger quem conhece e sabe o que fazer.

Coisas de menino que perdeu o rio da infância, há muito tempo!


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