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A bandeira içada no Maracanã
ANDREW BOYERS REUTERS

DO EL PAIS

David Alandete

Quando a popular atriz de cinema e televisão Regina Casé subiu ao palco do Maracanã esta noite para proclamar que o “Rio é diversidade”, já ficara claro que esse valor fundamental da nação brasileira seria o tema central e único da cenografia idealizada por Fernando Meirelles, o aclamado diretor de Cidade de Deus.

Tão angustiante foi a contagem regressiva dos Jogos para os desmoralizados brasileiros, temerosos de qualquer tragédia na organização, que segundos antes do início da cerimônia as redes sociais ainda fervilhavam de imagens do estádio em que se buscava de forma obcecada cadeiras vazias para mostrar um iminente fracasso.

Mas durante cerca de uma hora e meia o Brasil se permitiu um respiro. A crise política e a recessão econômica ficaram do lado de fora do Maracanã –certamente lotado—para dar lugar à celebração da heterogeneidade e vitalidade do país. Houve orgulho, muito orgulho de fato, por parte de um país que conheceu poucos motivos para isso nos últimos meses.

A evolução do evento se deu de uma forma estranhamente caótica, a anos-luz da coreografia industrial de Pequim de oito anos atrás ou da fleuma de Londres em 2012. Meirelles repassou a história do Brasil desde a sua antiguidade como um paraíso virgem até a construção do fascinante mar de concreto que é, hoje em dia, São Paulo. Viram-se alguns tópicos, é verdade, mas para poucos países esses tópicos caem tão como para este.

Houve um momento em que se demonstrou claramente que uma cerimônia como essa só poderia acontecer em um lugar como o Brasil: a top model Gisele Bundchen com um vestido de noite prateado desfilando no centro do estádio ao ritmo de Garota de Ipanema de Antonio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes. Porque, de fato a beleza e a bossa nova, assim como outras formas consagradas de arte que também foram contempladas, são essenciais para o Brasil.

A cerimônia, por exemplo, começou expondo mosaicos inspirados nos do artista Athos Bulcão, nascido no Rio e consagrado em Brasília, capital erguida do nada nos anos 50 do século XX. A bandeira nacional foi içada enquanto Paulinho da Viola cantava o hino nacional sobre uma plataforma que poderia muito bem ter sido desenhada pelo gigante da arquitetura Oscar Niemeyer, falecido no Rio em 2012.

Entre outras coisas, os Jogos podem significar um pretexto para que uma nação ganhe em autoestima e promova a sua imagem perante o mundo. Nesta noite, o Brasil demonstrou que tem motivos para alimentar o orgulho nacional. Só falta, agora, que esse espírito tão olímpico penetre para além destas competições. E isso é algo muito mais difícil.

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