Pessoas tiram fotos no Parque Olímpico do Rio.
DAVE HUNT EFE


DO EL PAÍS

Antonio Jiménez Barca

São Paulo

Em plena confusão, chegam os Jogos Olímpicos. Será estranho: nunca ninguém imaginou que fossem encontrar o país dessa maneira. A presidenta eleita há dois anos e meio, Dilma Rousseff, afastada temporariamente do poder, assistirá à cerimônia do Maracanã, na próxima sexta-feira, pela televisão. Também assistirá ao seu vice-presidente, Michel Temer, agora inimigo ferrenho, transformado em presidente interino e em anfitrião geral da nação. Enquanto isso, o terremoto político vivido nas semanas que antecederam o primeiro assalto da luta do impeachment, em maio, deu lugar a uma estranha calmaria em Brasília. É verdade que o Congresso está em recesso desde o dia 18, o que colaborou para esse clima. Os deputados voltam ao trabalho nesta segunda, com votações que podem ficar em segundo plano para o espectador ansioso por notícias mais leves. A Olimpíada, assim, servirá como uma trégua enquanto se prepara o segundo e último assalto do combate em torno da destituição definitiva de Dilma, que se realizará, muito provavelmente, quando os atletas já tiverem partido.

No último dia 12 de maio, depois de uma longa sessão do Senado, os senadores brasileiros decidiram, por 55 a 22 votos, abrir o processo de impeachment contra Dilma Rousseff. A partir daquele momento, a presidenta perdia todo o poder –embora não o cargo–, condenada a viver uma espécie de exílio interno no palácio. Durante todo esse tempo, realizaram-se sessões técnicas no Senado (o processo do impeachment propriamente dito), em que alguns atacavam Dilma e outros a defendiam. Alguns crimes de que Dilma é acusada não foram considerados como tal. E até o Ministério Público Federal do Distrito Federal afirmou que as famosas pedaladas que colocaram a presidenta neste imbróglio não configuram crime.

Mas ninguém parece dar muita bola para o assunto. Todos sabem que o julgamento é estritamente político e que tudo será decidido, mais uma vez, em uma nova votação. Ainda não há uma data definida para isso. O Comitê Olímpico Internacional pediu a Temer que essa votação definitiva fosse realizada somente após o encerramento dos Jogos, ou seja, depois do domingo 21 de agosto, a fim de não contaminar as competições. Temer respondeu que isso não dependia dele, mas da agenda do próprio Congresso brasileiro. Mas tudo indica que, seja por influência olímpica ou do presidente em exercício, a sessão histórica que muito provavelmente afastará Dilma definitivamente de seu cargo ocorrerá na semana seguinte ao final da Rio 2016.

No fundo, Temer não quer perder mais tempo para se tornar presidente de forma integral e começar a governar sem restrições. As chances de Dilma são pequenas. Elas passam por convencer um grupo de senadores de que, caso ela retorne, convocará uma espécie de plebiscito com vistas a novas eleições. Mas isso será difícil.

Enquanto isso, respira-se na área econômica um certo otimismo que ninguém sabe se perdurará. O PIB cairá mais do que 3,3% este ano, segundo o FMI, e o desemprego continua a ultrapassar os 11%, uma taxa recorde. Mas o dólar, que no final do ano passado chegou a valer mais do que quatro reais, oscila hoje em torno de 3,20 reais. A maior novidade: há uma certa sensação de que o fundo do poço já foi atingido. É o que afirmou recentemente o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil, José Augusto de Castro. “Se a destituição for confirmada, as pessoas deixarão de viver de expectativas e passarão a tomar decisões, o que melhorará ainda mais o ambiente”.

Ou seja: a calmaria política é acompanhada de um otimismo expectante na economia. Contribui para isso, também, a própria gestão do Governo interino de Michel Temer. No início, os especialistas previam uma terapia de choque com um pacote de medidas de cortes e aumento dos impostos. Ao assumir o cargo, o próprio ministro da Fazenda de Temer, o circunspecto Henrique Meirelles, esboçou um panorama sombrio das finanças brasileiras. Mas as tão temidas medidas ainda não vieram. Os analistas afirmam que elas virão quando Temer deixar de ser presidente em exercício para se tornar presidente pleno.

Ainda assim, as pesquisas mais recentes mostram que Temer continua sendo impopular (apenas 14% consideram que sua gestão é boa), mas que um improvável retorno de Dilma goza de menos apoio ainda. Flutua no ar uma resignação que é, em grande parte, produto do cansaço após vários meses em que o terremoto da política brasileira abrangia todas as áreas. Leonardo Avritzer, professor universitário, analista político e escritor, resumia a situação, há algumas semanas, da seguinte forma: “A sociedade não acredita em Temer, mas está cansada de se mobilizar”.

O próprio Temer, aos 75 anos de idade, não colabora para isso. À sua falta de carisma e a uma certa rigidez no porte pessoal bem pouco brasileira, somam-se algumas inesquecíveis trapalhadas cometidas nos últimos dias, como quando avisou toda a imprensa, na semana passada, que iria buscar pessoalmente na escola o seu filho caçula, Michelzinho, de 7 anos, para os jornalistas poderem cobrir o evento, se quisessem. Tampouco ajudou muito a revelação de que o mesmo Michelzinho possui em seu nome, desde já, imóveis no valor de dois milhões de reais.

A aparente calmaria que se respira em Brasília à espera do fim dos Jogos Olímpicos, porém, pode ser rompida a qualquer momento por um elemento desestabilizador recorrente nos últimos dois anos no país: o Caso Petrobras. Na sexta-feira, um juiz aceitou tornar réu o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva por crime de obstrução à Justiça. Em março, a condução coercitiva de Lula causou uma ebulição política no país. E sua eventual prisão lançaria qualquer trégua pelos ares. O infindável Caso Petrobras é um poço sem fundo do qual sairão, ainda, revelações capazes de balançar governos inteiros. O maior empresário do país, Marcelo Odebrecht, dono da maior empreiteira de obras do Brasil e uma das maiores da América Latina, está preso por suborno de altos executivos da petrolífera em troca de contratos. Ele aceitou colaborar com a Justiça brasileira em troca de uma diminuição de sua pena. Poucos têm dúvida de que a relação de envolvidos que a Odebrecht pode tornar pública desencadeará, quando isso acontecer, um novo vendaval político.

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