CRÔNICA
Operação Cumpade Washington

Janio Ferreira Soares

Eu sei que o fato se deu há dias e talvez soe ultrapassado descrevê-lo neste espaço que requer certo frescor diário, mas ao saber que uma das etapas da Lava Jato fora denominada Boca Livre tomei um baita susto e comecei a imaginar que diabos Zé Renato, Claudio Nucci e companhia poderiam ter aprontando depois de tantas toadas maneiras executadas em rodas de viola e novelas globais. Teriam sido os sexagenários músicos flagrados naquela estrada que os levavam a Maceió contando dólares em vez de estrelas, ou estariam envolvidos em algum escândalo de superfaturamento nos vagões do trem de ferro alegre a cantar, na reta da chegada pra descansar?
Apreensivo, fui atrás dos detalhes e só relaxei quando soube tratar-se de uma ação contra empresários que desviavam recursos da Lei Rouanet para aplicá-los em festas particulares. Esclarecido o imbróglio, aproveito os sinais de motim da rataiada do Congresso Nacional contra Capitão Cunha e viajo numa Hellmann’s sabor limão, só para sugerir ao pessoal de Curitiba que batize a operação que o fará ver o sol nascer quadrado com um nome em tributo às feições de sua cara-metade. Devaneio, pois.
Manhã de uma segunda-feira qualquer, Chico Pinheiro, com uma ressaca daquelas, abre o Bom Dia Brasil anunciando a deflagração de mais uma fase da Lava Jato, dessa vez intitulada Operação Aquellos Ojos Verdes.
Sem conter a satisfação e tendo o Buena Vista Social Clube cantando o referido bolero ao fundo, ele anuncia as prisões de Cunha e de sua esposa Claudia Cruz, que nessa hora surge na telinha com os olhos mais arregalados do que os de um caburé diante de um farol de milha. A propósito, se eu fosse um desses políticos baianos já denunciados ao Supremo – ou que possuem rabos presos com a OAS ou a Odebrecht – seguraria legal o tchan, pois, pelo toque do agogô, a qualquer momento pode estourar uma Operação Cumpade Washington, cuja mensagem subliminar é a de que pau que nasce torto nunca se endireita e que, inocente, nem mainha, seu ordinário!

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco.

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