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Postado em 23-07-2016
Arquivado em (Artigos) por vitor em 23-07-2016 01:07

DO EL PAÍS

Marc Bassets

Cleveland

O republicano Donald Trump se apresentou nesta quinta-feira como o presidente que devolverá a lei e a ordem aos Estados Unidos, renunciará ao intervencionismo militar e defenderá o cidadão comum contra as elites, que identificou com sua rival, a democrata Hillary Clinton. Em um discurso estridente de mais de uma hora, descreveu um país mergulhado na violência e no caos e qualificou Clinton como uma mulher corrupta e incapaz de tirar a maior potência mundial da crise.

“Com humildade e gratidão, aceito a indicação à presidência dos Estados Unidos”, iniciou Trump. Eram 22h22 (hora local) em Cleveland (Ohio), e o Partido Republicano homologava definitivamente o magnata e showman nova-iorquino como seu novo líder.

O discurso colocou fim a uma atribulada convenção republicana, que confirmou sua candidatura, mas fracassou na tentativa de acalmar o ceticismo motivado por seu temperamento volátil e seus vaivéns ideológicos. O pessimismo do candidato e sua desconfiança quanto às possibilidades do próprio país se afastam das melhores tradições do partido – a do sorriso reaganiano e sua luminosa cidade sobre a colina.

Trump desta vez encaixou sua retórica num texto mais trabalhado e organizado do que o habitual em suas falas de improviso. Leu sem se afastar do roteiro, mas deixou claro que não mudará o tom estridente adotado nas primárias. A correlação entre imigração e criminalidade, o insulto aos rivais como arma política e a retórica apocalíptica guiaram um discurso infestado de meias verdades e dados manipulados. Trump foi Trump.

O candidato prometeu uma era de prosperidade e segurança nos Estados Unidos, depois de anos de suposto declínio e corrupção que atribuiu a Hillary Clinton, ao presidente Barack Obama e aos seus antecessores, incluindo os democratas e republicanos. Sua presidência quer representar um recomeço. Com uma retórica que mistura a lei e a ordem de Richard Nixon com a tradição nativa mais populista e nacionalista, postulou-se como o candidato que gerará empregos, salvará as classes médias e tornará o país mais respeitável perante o mundo.

“A criminalidade e a violência que hoje afligem a nossa nação logo acabarão. Em 20 de janeiro de 2017 a segurança será restaurada”, disse Trump, referindo-se à data da posse presidencial.

O candidato traçou um retrato sombrio dos EUA. Um país, segundo ele, mergulhado numa onda de criminalidade e inundado por imigrantes perigosos, com uma economia que empobreceu as classes médias e especialmente as minorias. Os acenos a negros e hispanos foram constantes, como se ele quisesse se redimir das ofensas que proferiu a essas comunidades, especialmente a hispânica.

É a hora do populismo em ambas as margens do Atlântico. Trump prometeu defender “os homens e mulheres esquecidos deste país” e “as pessoas que se esforçam, mas não têm mais voz”. “Eu sou sua voz”, repetiu várias vezes, como um estribilho. “Entrei para a arena política para que os poderosos não possam ferir as pessoas incapazes de se defender sozinhas.” Clinton, disse ele, é “uma marionete” a serviço de lobbies e dos poderosos.

Um populista multimilionário? “Ninguém conhece o sistema melhor do que eu, e é por isso que só eu posso consertá-lo.”
O palco de Cleveland.
O palco de Cleveland. RICK WILKING REUTERS

“Americanismo, não globalismo”

Outro lema de Trump é America First, “a América em primeiro lugar”, idêntico ao que era usado no começo dos anos 1940 por simpatizantes do nazismo e grupos antissemitas contrários à entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial.

Num país cansado de envolvimento em conflitos armados, é popular a rejeição aos “quinze anos de guerras fracassadas no Oriente Médio” – guerras iniciadas por um republicano, George W. Bush. “Americanismo, não globalismo – será o nosso credo”, acrescentou. Trump é um produto puramente norte-americano, mas também muito europeu: nacionalismo e cosmopolitismo, a divisão é idêntica.

O candidato mencionou de passagem a proposta de construir um muro na fronteira com o México e não citou o veto à entrada de muçulmanos, uma ideia sua agora remodelada como um veto aos imigrantes de países implicados em terrorismo. Também disse que renegociará os principais acordos comerciais dos EUA.

Trump, um bilionário sem experiência política, não pronunciou o slogan extraoficial desta convenção: o grito de “para a cadeia, para a cadeia”, que foi em diversas ocasiões entoado em coro pelos convencionais contra Hillary Clinton. No entanto, o candidato a acusou de “crimes terríveis”, uma afirmação sem base jurídica, mas amplamente aceita por muitos eleitores.

Depois de recapitular sua etapa como secretária de Estado, disse: “Este é o legado de Hillary Clinton: morte, destruição e fraqueza”. Para a maioria dos norte-americanos, e para a maioria dos aliados externos de Washington, tampouco Trump é aceitável como presidente. Dado o tom da campanha, é difícil hoje imaginar que na noite de 8 de novembro, fechadas as urnas, o derrotado possa felicitar o vencedor.

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