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CINEMA/ TELAS FEMININAS

TRÊS MULHERES OCUPAM TELAS BAIANAS

Lúcia Jacobina Mesquita

Três personagens femininas ocupam as telas dos cinemas em Salvador, sob o foco da câmera de três diretores diferentes, um francês, um inglês e um espanhol.

O primeiro, “Marguerite”, de Xavier Giannoli, acaba de ser premiado com quatro “César de 2016”, na França. Este filme estreou no Festival Varilux, uma mostra das últimas produções cinematográficas francesas, exibido em todo o Brasil, este ano, entre os dias 08 e 22 junho passado, por iniciativa da Embaixada da França no Brasil, de seus vários consulados espalhados pelas principais capitais e da rede de Alianças Francesas, além de filiais de empresas francesas.

“Marguerite” foi o primeiro filme dessa mostra a entrar em cartaz no circuito comercial, já estando na quarta semana de exibição. Seu diretor não é tão conhecido do grande público e Catherine Frot, a atriz principal destacou-se por sua excelente interpretação como chefe de cozinha do presidente Miterrand, no filme “Os Sabores do Palácio”. Xavier Giannoli é um dos jovens realizadores do cinema francês e adaptou livremente em “Marguerite” uma história real. Seu filme ganhou os prêmios de “Melhor Figurino” e “Melhor Direção de Arte”, recebeu ainda o de “Melhor Edição de Som” e sua intérprete, Catherine Frot, o de “Melhor Atriz”. Além do figurino, da cuidadosa reconstituição de época e do talento da atriz principal, Giannoli ambienta sua Marguerite nos arredores de Paris, na década de 20, como uma mulher rica, dedicada à música lírica que realiza recitais beneficentes em sua residência, com o aplauso condescendente de um grupo de amigos, até que dois jornalistas inescrupulosos penetram no exclusivo ambiente e revelam para o grande público a farsa. Giannoli nos fala do poder do dinheiro que tudo pode comprar e de uma mulher que chega até o esgotamento físico por lhe faltar senso de realidade.

O filme se constrói sobre uma sociedade cruel que se diverte com o sofrimento alheio como nos espetáculos de pão e circo dos romanos e zomba também da decadência da classe artística. Enfim, diretor e roteirista passam toda a duração do filme procurando uma justificativa para a alienação da mulher, construindo ao seu redor personagens desestruturadas e caricatas, até o dramático epílogo.

Com o mesmo argumento, Stephan Frears, o famoso diretor inglês, criou “Florence”, interpretada pela magnífica Meryl Streep e baseado na história real de Florence Foster Jenkis, uma rica herdeira americana cujo sonho era protagonizar grandes papéis na ópera e cujo amor pela música era reconhecido entre os que estavam próximos e lhe devotavam verdadeira admiração. Ela era portadora de sífilis, doença contraída através do casamento e que iria interferir em toda sua vida, burlando sua percepção auditiva, a emissão de voz e até o relacionamento amoroso mantido com um nobre inglês vivenciado na tela por Hugh Grant. O roteiro seguido por Stephan Frears é mais consistente, a narração linear permite acompanhar o desenvolvimento do enredo em poucos cenários e os cortes precisos dotam o filme de leveza e concisão. Suas personagens vivenciam a vida artística com entusiasmo e a imprensa cumpre com seriedade o seu papel de informar. Até a exposição final de Florence, numa grande sala de espetáculos, feita perante o grande público que indiferente às carências e ignorante da generosidade da promoção, não perdoa excentricidades. Florence já ingressa na segunda semana de exibição e ocupa várias salas de cinema.

Por último, há “Julieta”, o filme do espanhol Pedro Almodóvar cuja filmografia sempre se construiu no excesso, seja no comportamento das personagens, nas cores berrantes dos cenários e na profusão de ornamentos no figurino. E o cineasta continua a projetar nas personagens seus demônios e culpas, já tendo criado ao longo de sua carreira uma complexa galeria de mulheres histéricas, barulhentas, imprudentes e, por fim, castradoras. “Julieta” é trazida para a contemporaneidade e mostrada como uma mulher solitária e independente que exerce a profissão de professora de literatura clássica sempre envolvida com a leitura, colocando em cena uma personalidade fantasiosa e impulsiva. Almodóvar exibe de forma deliberada uma analogia com a aventura e a tragédia num mar espanhol que é ao mesmo tempo simulacro do mar grego, onde as paixões humanas definiram para a posteridade seus arquétipos. No momento crucial do filme, a convulsão no mar e na alma dos amantes fundiram-se para atingir a todos com o seu rastro de destruição e morte, fazendo com que a culpa atinja duplamente Julieta em sua integridade física e psíquica com as perdas decorrentes de seu relacionamento amoroso e maternal.

O enigma permanece em sua essência como a incomunicabilidade que não poupa sequer os relacionamentos mais íntimos. Mas Almodóvar reservará para suas personagens a ação do tempo se incumbindo de trazer a cada um o calvário que lhe foi reservado e através dessa experiência uma perspectiva de redenção.
Curioso é constatar que as três películas exibidas simultaneamente colocam em evidência um universo feminino dominado pela fantasia e pela obstinação.

Lúcia Leão Jacobina Mesquita é advogada, ensaísta e autora de “A Aventura da Palavra”.

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