João Bosco, 70, e sempre.

O que é felicidade?

Artur Xexéo / O Globo

João Bosco chegou mostrando-se, além de cantor e compositor, um ótimo instrumentista

Ninguém precisa de desculpas para ouvir João Bosco. Mas, como João Bosco completou 70 anos esta semana, eu aproveitei para ouvir algumas das muitas canções que ele compôs e que fazem parte da trilha sonora da minha vida. Ultimamente, tem sempre algum compositor que musicou a minha juventude fazendo 70 anos. Eu me lembro quando eles comemoraram os 50 anos. Depois, os 60. Agora são os 70. João Bosco é o último a chegar lá. Ivan Lins já fez 71. Chico está com 72. Caetano e Milton fizeram 73. Gil já chegou aos 74. João Bosco não pegou a era dos festivais. Quando entrou em cena, já não era novidade o compositor cantar suas canções. Até os anos 50 e começo dos 60 do século passado, nós tínhamos um grupo de cantores e um grupo de compositores. Foi esta a geração que misturou tudo. Para trazer alguma novidade, João Bosco chegou mostrando-se, além de cantor e compositor, um ótimo instrumentista. Como não reverenciar o violão de João Bosco?

Mas, como eu ia dizendo, para fazer a minha singela homenagem, tirei a semana para ouvir João Bosco. “O mestre-sala dos mares”, “De frente pro crime”, “Dois pra lá, dois pra cá”… Pesquiso no YouTube e descubro duas calouras que usam “O bêbado e a equilibrista” para travar uma batalha no “The Voice Angola”. Elas certamente não sabem quem foi o irmão de Henfil, quem são as Marias e Clarices que choram no solo do Brasil, e devem achar incompreensível a imagem de uma tarde caindo como um viaduto. Mas de alguma maneira a canção também as sensibiliza. De acordo com recente pesquisa do Ecad — o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição —, “O bêbado e a equilibrista” é a música mais gravada de João Bosco. De suas mais de cem composições, é também a mais executada entre 2011 e 2015. Será a minha preferida?

Música transporta. Funciona como uma máquina do tempo. Você ouve hoje e se lembra da primeira vez em que a escutou, ou de um momento especial no qual ela estava tocando ao fundo… e você é transportado de volta àquele momento. Qualquer biografia de João Bosco vai contar que sua primeira música gravada foi “Agnus Sei”. Ela era o Lado B de um compacto simples lançado por “O Pasquim” e vendido em bancas de jornal. “O Pasquim” criou o Disco de Bolso, uma promoção que juntava num mesmo disco uma canção inédita de um compositor consagrado e uma canção desconhecida de um novo compositor. No outro lado da primeira gravação de João Bosco, estava Tom Jobim cantando “Águas de março”.

Não me lembro de nada disso. A primeira vez que ouvi “Águas de março” foi num show de Elis Regina, grávida de Maria Rita, no Teatro da Praia, em Copacabana (ou foi no Casa Grande?). Ela não tinha decorado a letra ainda. Lia num papel. A primeira vez que ouvi João Bosco… bem, acho que cheguei atrasado. Não foi “Agnus sei”. Não foi o seu primeiro LP, que já trazia “Bala com bala”, também gravada por Elis. João Bosco e Aldir Blanc foram os compositores mais gravados por Elis. Esta pesquisa, eu mesmo fiz, quando estreou um musical sobre a cantora no CCBB. Mas, enfim, descobri João Bosco numa festa muito estranha, como costumavam ser estranhas as festas dos anos 70.

Um amigo da faculdade de Comunicação tinha conseguido uma cópia em 16mm de “Emmanuelle”, o filme pornô com Sylvia Kristel que tinha chegado ao circuito comercial de cinemas de todo o mundo. Quer dizer, de quase todo o mundo. No Brasil da ditadura militar, o filme foi censurado. Pois a festa era para conhecer uma cópia pirata de “Emmanuelle”. Apesar do motivo, era um ambiente bem família. Alguns colegas de faculdade, a mãe do anfitrião, os irmãos. A ansiedade era palpável. O filme começou, a aeromoça Emmanuelle fez sua primeira estripulia no avião e… o tédio se instalou no apartamento de Copacabana. A projeção foi interrompida. Que chatice aquela “Emmanuelle”!

O anfitrião tentou salvar a reunião pondo um disco na vitrola. Era o segundo LP de um novo artista. Ele mesmo, João Bosco. “Caça à raposa”, o primeiro disco de João em que todas as 12 faixas eram em parceria com Aldir Blanc. Um clássico instantâneo atrás do outro. Mas lá no fim do disco, a penúltima música do Lado B, apareceu um samba irresistível, “Kid Cavaquinho”. Todos os convidados pararam para ouvir. Assim que acabou, antes mesmo de a gente começar a ouvir a última faixa, alguém pediu: “Toca de novo!” E foi assim a noite inteira. Tocou de novo, e de novo e de novo… A gente não se cansava de ouvir “Kid Cavaquinho”. Era de uma alegria irresistível. A letra foi sendo decorada aos poucos. No fim da noite, todos os convidados já cantavam juntos, aos gritos, dançando, alegres. “Genésio/ A mulher do vizinho/ Sustenta/ Aquele vagabundo.” A máquina do tempo em que “Kid Cavaquinho” se transformou esta semana, quando João Bosco completou 70 anos, transportou-me para um momento de felicidade.

Nós éramos jovens, rebeldes (não contei que nos reunimos para assistir a “Emmanuelle”?) e com excesso de sonhos que transbordavam por todos os poros. Desde então, para mim, felicidade é ouvir “Kid Cavaquinho”.

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