Lula em Carpina: camisa vermelha, chapéu de vaqueiro
e cansaço


…e o Coronel Saruê na novela Velho Chico

ARTIGO DA SEMANA
Coronel Saruê vestido de vaqueiro: Lula, de Juazeiro(BA) a Carpina (PE)

Vitor Hugo Soares

Na simbólica cidade de Carpina, na Zona da Mata pernambucana, a 45 quilômetros da capital , mas região de histórica pobreza nordestina, desde os poemas de João Cabral de Melo Neto, apareceu praticamente do nada, nesta singular semana de julho, o ex-presidente da República e fundador do PT, Luiz Inácio Lula da Silva.

De repente, não mais que de repente: trajando camisa vermelha e, na cabeça, um típico chapéu de couro dos vaqueiros do sertão. Estampa demodê e extemporânea que mal consegue disfarçar o ar cansado e o discurso esvaziado de um Quixote que perdeu o rumo, um Brancaleone à frente de exército roto e sem destino certo (salvo um encontro provável com o juiz Sérgio Moro, da Lava Jato, em Curitiba) ou do velho personagem de romance em busca do tempo perdido.

Mais constrangedor e patético impossível.

O cansaço e o abatimento se justificam, talvez, em razão das condições claramente adversas do ex-líder e senhor, quase absoluto, da política e do governo no Brasil, dos últimos 14 anos, nesta mais recente peregrinação ao Nordeste. Quase penúria, se comparada ao conforto, fartura e aconchego que antes recebia, dos grandes da política e dos negócios, onde pisava os pés. E dos afagos no ego que vinham dos pobres e pequenos nas ruas, nos comícios ou nas inaugurações.

Escrevo este artigo da Bahia, quando o viajante petista acaba de passar por Juazeiro, cidade baiana das minhas melhores lembranças de adolescente, à beira do Rio São Francisco. Onde o ex-presidente foi receber o título de cidadão honorário, proposto por um vereador do PT, e entregue sob as expensas da atual administração municipal do PC do B. O governador do Estado, Rui Costa (PT) o acompanha, a título de “inaugurar obras e assinar ordens de serviço”. Ainda assim, a visita não passa “de um notável fiasco”, na definição de um veterano radialista local, já aposentado da profissão, mas ainda experiente e antenado nas repentinas oscilações dos jogos de poder local, estadual e federal.

Provavelmente movido pela ilusão nostálgica de reviver momentos apoteóticos de outras passagens pelo lugar – por exemplo quando, na manifestação, um garoto carregado nos braços do pai agricultor é levado, por cima da multidão, para abraçar o visitante ilustre no palanque. Imagem que virou peça de propaganda crucial, no Nordeste, na campanha de reeleição ao Palácio do Planalto – o PT, Lula e seus aliados e propagandistas, que restaram, escolheram Juazeiro para abrir o roteiro desta nova viagem ao antigo celeiro seguro de votos.

Ledo e triste engano. Desta vez, os fatos e as imagens da visita, mais parecem o cenário do samba “Notícias de Jornal”, de Chico Buarque, ainda fiel seguidor do viajante. “O lar não mais existe/ Ninguém volta ao que acabou/ Joana é mais uma mulata triste que errou”. O cerco agora parece se fechar cada vez mais. Amigos ricos, antigos aliados poderosos e fundamentais da política e da propaganda estão na cadeia ou em palpos de aranha, com a polícia e a justiça no encalço. A afilhada Dilma Rousseff, o poste que Lula e o PT colocaram no Palálacio do Planalto, para facilitar o retorno do , está afastada do mando e se perde cada dia mais no labirinto em que se meteu e nas armadilhas que segue construindo para si mesma.

O poder se esfacela e se esvai como a areia fina da praia da Ilha do Fogo, na divisa da ponte entre Juazeiro (BA) e Petrolina (PE), no Velho Chico da novela do coronel Saruê, escorrendo entre os dedos. Para culminar, na madrugada desta quinta-feira, 14, o deputado Rodrigo Maia, do DEM do Rio de Janeiro, foi eleito para o lugar de Eduardo Cunha no comando da Câmara. Portanto, um adversário mais jovem, mais inteligente, mais hábil, com mais jogo de cintura político, inesperado e, provavelmente, mais devastador ainda para os planos futuros de Lula, Dilma e do PT. A conferir.

A notícia apanhou Lula no encerramento do périplo nordestino: Juazeiro, na Bahia, Petrolina, Carpina, Caruaru e Recife, em Pernambuco. “Foram essas as cidades escolhidas pelo ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva para retomar seu caminho de volta ao Palácio do Planalto, em 2018 ou até antes disso, caso a crise política desemboque em eleições antecipadas”, diz um site porta-voz do lulismo e do PT (investigado pela Lava Jato) na reportagem sobre a viagem, ilustrada com a imagem de Lula de camisa vermelha e chapéu de vaqueiro na cabeça. Em Carpina, voz trôpega e ar visível de cansaço, o petista ameaça e manda recado com as forças que lhe restam: “Se eles não sabem governar sem privatizar, eu sei”. Ou: “Se eles quiserem reduzir os direitos do povo brasileiro a pó, afastando de vez a companheira Dilma, eu digo: ”não me provoquem, porque eu posso voltar”.

Inevitável a comparação com o estágio atual da novela “Velho Chico”. O poderoso coronel Saruê, antigo senhor do poder, da política, das coisas e das pessoas, bradeja às tontas e em desespero, à medida que vai ficando cada vez mais só: sem poder mandar como antes nos velhos parceirose antigos aliados, no delegado, no juiz, no prefeito, abandonado pelo filho, pelo neto, atraiçoado pelo genro deputado e sem voz altiva nem mesmo com o jagunço, cão fiel de todas as horas. O desfecho se aproxima e não parece prenunciar boas coisas: para o Saruê e para Lula, a deduzir pelos sinais desta semana, incluindo a viagem do fundador do PT ao Nordeste, a eleição de Rodrigo Maia na Câmara, e a conferência do juiz Sérgio Moro, condutor da Lava Jato, em Washington. Mas isso é outra história, a conferir com o tempo, senhor da razão.

Vitor Hugo Soares, jornalista, é editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

luís augusto on 16 julho, 2016 at 6:45 #

Parabéns, caro colega. Essa comparação magnífica há de estar no raciocínio de tantos quantos acompanham a cena política e a novela.


luiz alfredo motta fontana on 16 julho, 2016 at 9:55 #

Caro VHS

Lula está nu, traduz ofensa aos bons costumes, traz o cheiro putrefato da indecência. Lula está revelado, identificado e prestes a ser devidamente indiciado.

Perfeito?

Isso redime?

A Bahia, por exemplo, para não ficarmos restritos ao ABC paulista, onde este molusco criou musculatura, sairá ilesa deste enredo?

Lula, qual patógeno oportunista, metabolizou a fraqueza moral de muitos, sorveu o cinismo dos que o louvaram, corrompeu discursos, flagelou ideologias, violentou consciências, transformou em bordel a democracia.

Lula, de forma circense, levou a cabo o extermínio de quaisquer resquícios de decência que porventura tivesse sobrevivido aos horrores da ditadura.

Lula reinou por obra e graça da leniência de todos!

Não basta seu exílio em Curitiba, sem o mea culpa dos que o embalaram!

Dom Paulo Evaristo Arns, por exemplo, fará Ato de Contrição?

Em tempo:
Brizola não se iludiu!

Acrescento, sem nenhuma modéstia:
Eu também não!

Tim Tim!!!


Taciano Lemos de Carvalho on 16 julho, 2016 at 12:24 #

Na foto de chapéu de vaqueiro, o Silva está parecendo mais com o Silva. O personagem de Chico Anísio. Mas no fundo é um Pataleão.


luís augusto on 16 julho, 2016 at 13:44 #

Porra, Poeta, você esnobou no vocabulário e na análise. Permita-me criar, por você inspirado, um neologismo: molusculatura.


Taciano Lemos de Carvalho on 16 julho, 2016 at 15:53 #

‘Viagem ao Nordeste mostra a derrocada de Lula, abandonado e sem prestígio’

http://www.tribunadainternet.com.br/viagem-ao-nordeste-mostra-a-derrocada-de-lula-abandonado-e-sem-prestigio/


Vanderlei on 17 julho, 2016 at 21:50 #

É o começo do fim! Tanto na ficção quanto na realidade.


JOÃO BOSCO SOARES DOS SANTOS on 17 julho, 2016 at 22:30 #

O ESCURO, POBRE E TRISTE OCASO DO LULA.
É apenas um cacaricato Canto de um imaginário Cisne” que nunca chegou a ser codorna.
Viveu construindo nuvens de uma rústica conjunção de carvão, poeira, vento e mentiras, onde viveu, convicto de que era um compacto e seguro céu particular seu.
Parabéns e louvores, Vitor, por mais um dos seus trebilhantes artigos.
Ninguém – e creio que nem você próprio – teceria, nem tecerá, um texto tão fielmente real quanto este. É um retrato-contexto jornalístico-virtual perfeito. Você esgotou todas as frases, palavras e montagens existentes e possíveis para esta sua construção jornalísticas. Está sincronicamente completo.


vitor on 18 julho, 2016 at 12:44 #

João Bosco:

Obrigado. Muito obrigado mesmo. Saiba que boa parte vem de longe: do tempo do Colégio Dom Bosco, em Petrolina (PE), na beira do nosso sempre querido Velho Chico, o rio da nossa aldeia. E saiba que você tem, para mim, importante relevância nisso tudo. Meus agradecimentos mais uma vez. Com admiração.


Seu Ze on 19 julho, 2016 at 8:43 #

Vai dar meia hora de cu com o relogio parado


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