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A primeira-ministra May e seu marido, Philip, chegam ao número 10 da Downing Street.
JUSTIN TALLIS (AFP) / ATLAS

DO EL PAIS

Pablo Guimón

Londres

Theresa May é, a partir do final da tarde desta quarta-feira, 13, a primeira-ministra britânica. A segunda mulher a ocupar o cargo, depois da também conservadora Margareth Thatcher. Assume um desafio gigantesco. Terá de negociar a saída do Reino Unido da União Europeia, reduzindo o seu impacto econômico, mas sem trair um mandato muito claro, que ela prometeu cumprir. Terá de redefinir o lugar do país no cenário mundial, suas alianças comerciais e estratégicas, sua política migratória, sua própria realidade territorial. E terá, ainda, de construir o seu próprio legado político, que, como adiantou nesta quarta-feira em seu primeiro discurso à frente do número 10 da Downing Street, passar por unificar o país e combater a “ardente injustiça” vigente na sociedade britânica.

Duas comitivas se cruzaram, no meio da tarde, à porta do Palácio de Buckingham. David Cameron, acompanhado de sua esposa e seus três filhos, deixava o palácio depois de apresentar a sua demissão à rainha, enquanto Theresa May entrava no mesmo lugar, de mão dada com seu marido. Por volta das 17h30 (hora local), a nonagenária Elizabeth II cumpria, pela décima-terceira vez em seu mandato, aquele ritual. Perguntou a Theresa May se estava disposta a formar um Governo e, diante da resposta positiva, confirmou May, 59 anos, como primeira-ministra britânica.

Vinte dias foram suficientes para a máquina partidária dos tories apresentar ao país uma nova primeira-ministra desde que Cameron, derrotado no referendo sobre a Europa, anunciou sua demissão em 24 de junho passado. A inexistência de uma campanha pela liderança — depois da retirada de sua adversária, Andrea Leadson — acabou por manter o mistério que ronda, para os britânicos, aquela que irá dirigir o país em um momento tão delicado. O enigma acompanhou May até a Downing Street. O que se vê, segundo aqueles que já trabalharam com ela, é exatamente o que existe. Uma mulher séria e eficiente, pouco chegada às intrigas políticas. “Simplesmente trabalho naquilo que tenho pela frente”, disse ela.

Às seis da tarde, o Jaguar prateado oficial em que May viajava avançava pela rua Whitehall em direção à Downing Street. No mesmo púlpito usado por Cameron algumas horas antes em sua despedida, May pronunciou o seu primeiro discurso como primeira-ministra. Começou elogiando o antecessor. “Sigo os passos de um grande e moderno primeiro-ministro”, disse ela, abrindo um pronunciamento curto, mas esclarecedor. David Cameron “estabilizou a economia”, disse May, “mas seu grande legado está na justiça social”. “Governarei com esse mesmo espírito”, anunciou.

O discurso esteve longe dos cânones conservadores. Ele poderia ter sido feito, por exemplo, 20 anos atrás, por Tony Blair. May lembrou que o nome completo da organização por ela dirigida é Partido Conservador e Unionista. “Isso significa que acreditamos em uma união não apenas das nações que constituem o Reino Unido, mas também de todos os nossos cidadãos”, esclareceu.

Sua missão, segundo suas próprias palavras, será “fazer com que o Reino Unido funcione para todos”. Dirigiu-se diretamente, usando a segunda pessoa, às “famílias trabalhadoras”. “Sei que vocês trabalham o dia inteiro, sei que fazem tudo o que podem e que a vida às vezes pode ser uma luta árdua. O Governo que dirigirei não será guiado pelos interesses de alguns poucos privilegiados, mas pelos interesses de vocês. Faremos tudo o que for possível para lhes proporcionar um maior controle sobre as suas próprias vidas”, afirmou.

Theresa May abordou a questão do grande desafio que o Reino unido tem pela frente. “Vivemos um momento importante da história do país, e sei que estaremos á altura do desafio”, disse. “Ao mesmo tempo em que deixamos a União Europeia, estaremos construindo um novo, audacioso e positivo lugar no mundo”, afirmou.

A primeira-ministra tem três anos e meio, antes das próximas eleições gerais, para deixar a sua marca no país. O referendo sobre a Europa tirou da linha de frente do Partido Conservador praticamente todas as suas grandes figuras, à exceção de May. Isso deixou um vazio de liderança, mas, ao mesmo tempo, proporciona a ela uma boa margem de manobra. A primeira-ministra prometeu se cercar de pessoas com perfis que refletem todas as facções do partido e colocar mais mulheres em postos importantes.

Para as Relações Exteriores, por exemplo, ela escolheu Boris Johnson, o ex-prefeito de Londres que fez campanha intensa a favor do Brexit. Johnson era apontado como provável primeiro ministro após a vitória de sua campanha no referendo, mas surpreendeu ao abrir mão da disputa. Enquanto chanceler, o ex-prefeito não terá qualquer competência sobre a saída do Reino Unido da União Europeia.

No final da tarde, ficou-se sabendo que George Osborne, até agora ministro das Finanças e do Tesouro, braço direito de Cameron, não fará parte do Governo de May. Sai de cena, assim, aquele que, poucos meses atrás, era o favorito para se tornar o próximo primeiro-ministro, o que expressa a dimensão das turbulências pelas quais o país tem atravessado nas últimas semanas. Ele será substituído por Philip Hammond, ministro próximo a May e que estava até agora à frente do Foreign Office.

O fato de que May defendia a permanência na União Europeia, embora o tenha feito discretamente, a deixa desde já sob a vigilância estrita dos eurocéticos mais convictos. A primeira-ministra já deixou claro que não existe volta para trás, que “Brexit significa Brexit”. Mas qualquer concessão, especialmente no terreno do controle das fronteiras, fará ressurgirem as tensões em um partido cujas feridas continuam abertas, mesmo que se procure exibir uma imagem de unidade nestes momentos emergenciais.

A primeira-ministra terá a oportunidade de lembrar a célebre frase de um de seus antecessores no cargo, Winston Churchill, que afirmou que, no Parlamento, enquanto a oposição ocupa a bancada da frente, “o inimigo se senta atrás”. Até que o Partido Trabalhista solucione o gigantesco imbróglio em que se meteu internamente com a segunda disputa pela liderança em menos de um ano, May fará muito bem em se preocupar mais com o seu próprio partido do que com a oposição trabalhista. Assim como com as correntes populistas que desafiam a política tradicional dos dois lados do Atlântico.

O ritual desta quarta-feira, somado à demonstração de unidade alcançada, proporciona a May, a segunda pessoa mais velha a assumir as rédeas do país, um dia do qual ela jamais se esquecerá. Uma lembrança à qual poderá recorrer ao longo dos tempos difíceis que, sem nenhuma dúvida, terá pela frente.

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