Boneco de Lewandowski na Paulista:STF quer PF no caso..


…e o goleiro Luna preso em São Paulo:
“sou inocente disso aí”.


ARTIGO DA SEMANA
Prisão de Luna, defesa de Dilma e o boneco de Lewandowski

Vitor Hugo Soares

Quarta-feira, 6 de de julho: As operações policiais determinadas pela justiça seguem céleres, apartidárias e implacáveis à caça de corruptos, corruptores e malfeitores, de vários tipos e quilates, públicos e privados, espalhados pelo País como vírus contagioso e letal, corroendo tudo. Da Petrobras dilapidada, aos pequenos times de futebol, cujos cartolas e jogadores, de São Paulo ao Nordeste, andam metidos nas trapaças internacionais das loterias, e são apanhados em casa ou nos clubes, às primeiras horas da manhã, com direito a transmissão quase instantânea nos primeiros noticiários do dia na TV.

À menos de um mês da abertura dos Jogos Olímpicos, no Rio de Janeiro, o ex-goleiro Luna, do obscuro América, de São José do Rio Preto, de dentro do camburão, onde é colocado antes de seguir para o exame de corpo de delito e a cadeia, grita para os jornalistas que pedem uma palavra sua: “Sou inocente. Nunca ganhei um real sequer com essa história aí”, diz o jogador, antes do agente da operação “Game Over” (Fim de Jogo) fechar a porta do bagageiro e mandar tocar o carro para a carceragem.

Enquanto isso, no Palácio da Alvorada, em Brasília, a presidente afastada, Dilma Rousseff, se debate em seu labirinto político e existencial, sem encontrar escapatória, à medida em que se aproxima a hora do acerto de contas na votação de seu impeachment pelo Senado. Comemora com o ex-ministro petista e braço direito, Jaques Wagner, o balanço da “vaquinha” que bate nos R$ 500 mil (ironia das ironias) para as suas viagens pelo país. E despacha, o também afastado ministro, José Eduardo Cardozo para ler, no Congresso, o documento de 30 laudas da sua defesa pessoal. Despreza, assim, outra oportunidade preciosa (para um chefe de governo em apuros e cercado de suspeitas) de falar frente a frente aos seus “juízes” ou com a sociedade que ela proclama acolher e acatar em seus discursos.

No arrazoado que Cardozo lê na Comissão do Impeachment – meio à moda maçante dos bêbados de comício ou de fim de festa (para usar uma expressão do grande Ulysses Guimarães) – as negativas e as desculpas de praxe: “eu não sabia de nada”; “não me avisaram nada disso”; “a culpa é do outro, de quem fez o malfeito”. A ex-mandatária procura abrigo no passado, de que sente orgulho, para tentar escapar do presente, do qual deveria sentir vergonha.

“O destino sempre me reservou grandes desafios. Alguns pareciam intransponíveis, mas eu consegui vencê-los. Já sofri a dor indizível da tortura, já passei pela dor aflitiva da doença e hoje sofro a dor igualmente inominável da injustiça”, recorda Dilma, pela voz de Cardozo. Alho misturado com bugalhos. A fé e os princípios da juventude, a entrega ideológica no combate a um tempo de sombras e arbítrio ou, mais recentemente, a luta contra infortúnios da saúde, são agora, tristemente, utilizados como salvo conduto da mandatária de um governo fracassado e de um partido corrompido, cercados de suspeitas e graves acusações por todos os lados – a partir do seu fundador e guia -, praticamente sem saída.

Sob os céus do Brasil, em protesto na Avenida Paulista, aparece o primeiro boneco inflado do ministro presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski. Agora, anunciam os jornais, a Corte pediu à Polícia Federal que investigue e responsabilize os manifestantes que inflaram os mamulengos alusivos ao mandatário do Supremo e ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot, “de forma crítica”, nos recentes protestos na capital paulista.

Missão inútil, com evidentes sinais de desconformidade com o pleno regime de liberdades democráticas em que vive o País, além de claramente despropositada. Pior ainda é o “caráter de urgência”, para o resultado das investigações, determinado no ofício assinado pelo secretário de segurança do STF, Murilo Maia Herz e endereçado ao diretor-geral da PF, Leandro Daiello.

“Nonadas”, diria provavelmente Guimarães Rosa, sobre este despropósito, se vivo estivesse. Além disso, praticamente não há o que investigar neste episódio, muito menos é preciso que a PF “empenhe todos os seus esforços para interromper nefasta campanha difamatória contra o Chefe do Poder Judiciário, de maneira a que esses constrangimentos não mais se repitam”, como escreve o burocrata do STF em seu ofício. Afinal, a coordenadora de projetos e porta-voz do movimento “Nas Ruas”, Carla Zambelli Salgado, já confirmou e assumiu a autoria. E revelou que, além dos bonecos de Lewandowski e de Janot, levou também às ruas bonecos dos ministros Zavascki e de Dias Toffoli, e um representando a presidente afastada Dilma Roussef. “Não tenho receio algum de responder pelas minhas atitudes, garantidas pela liberdade de expressão”, disse Carla Zambelli ao G1 (O Globo).

Melhor, portanto, não desviar os esforços da PF em relação aos trabalhos de investigação que a sociedade julga, efetivamente, urgentes e necessários: a operação Lava Jato e seus cruciais desdobramentos, por exemplo. Priorizar, agora, investigações sobre criadores de bonecos, pode parecer poeira lançada no ar para embaçar visões. Ou não? Responda quem souber.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

Be Sociable, Share!

Comentários

Taciano Lemos de Carvalho on 9 julho, 2016 at 14:31 #

“É proibido proibir o humor: Numa democracia, nenhuma alta autoridade está imune às críticas dos cidadão!!!”

É uma verdade! E que seja sempre assim.

https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2016/07/e-proibido-proibir-o-humor-numa.html


vitor on 9 julho, 2016 at 14:58 #

Taciano:

Pode apostar, bravo editor do Gama Livre. Pode apostar. Se não for assim, não é democracia de verdade, nem liberdade pra valer. É farsa. Abs.


luiz alfredo motta fontana on 9 julho, 2016 at 17:04 #

Caros!

Lewandowski, caso algum dia teve, de há muito perdeu o senso do humor, não há graça nos convivas de seus jantares, especialmente em terras lusitanas.

Dilma, Cardoso e Lewandowski, juntos à mesa, jamais serão digestivos, muito menos divertidos!

Tentar censurar as ruas é constrangedor.


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos