Dona Ceci: presença na confissão do filho.


CRÔNICA
Minha delação espontânea

Janio Ferreira Soares

Diante de um gravador, pigarreio um pouco, cumprimento as autoridades e abro aspas para dizer que “sim, meritíssimo, realmente faltei com a verdade naquela manhã, quando, excitado pela aragem que balançava tamarineiros bageados, eu disse a dona Bidinha que não podia assistir à aula porque iria ajudar minha mãe a lavar uma pilha de pratos acumulados desde a sopa da noite anterior. Se ela acreditou? Olha, doutor, atualmente minhas certezas mais falseiam que confirmam, mas me lembro de que ela sorriu aquele riso de vó quando a gente inventa uma desculpa para em vez de reza, rio, e em seguida passou a mão na minha cabeça e disse um irônico ‘vai, menino, que Ceci precisa de sua ajuda’. Então saí em disparada e fui logo pegando minha peteca escondida entre cartilhas e lapiseiras e mais tarde cheguei em casa com uns passarinhos nos bolsos, imediatamente assados e servidos justamente sobre a louça que nunca lavei.
Como, digníssimo? Sim, isso realmente aconteceu, mas minha intenção ao morder aquela hóstia foi para confirmar se padre Geraldo dizia a verdade ou não. Aí travei os dentes no aro e fiquei olhando se alguma lágrima corria pela face de Cristo, que do alto do altar da igreja de Santo Antônio da Glória também me olhava com uns olhinhos iguais aos dos peixes que eu fisgava no açude da roça do meu avô. E como ele não fez nenhum gesto de dor, nas missas seguintes mastiguei com mais força ainda e, diante da certeza de que nenhum pranto sagrado iria rolar, comecei a desconfiar de todas as crenças do mundo.
Se sou ateu? Veja bem, semana passada, num fim de tarde no Raso da Catarina, umas ararinhas passaram voando. Aí um cachorro latiu bem longe e Milton começou a cantar Sentinela numa rádio AM, enquanto bodes, vacas e bêbados placidamente dividiam as chamas de uma fogueira, desenhando ali uma perfeita lapinha real. Aí me lembrei do meu amigo Jessier Quirino e pensei: deve haver alguma ciência nessas bem-aventuradas coincidências. Estou dispensado ou vão me atar o mocotó?”.
Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, nas barrancas baianas do Rio São Francisco

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Comentários

vitor on 9 julho, 2016 at 15:22 #

Belo escrito, Janio. Saudades da nossa submersa Santo Antonio da Glória (única cidade do mundo arborizada com tamarineiros e pés de umbú cajá). Quando o vento soprava do rio, um perfume único se espalhava no ar. Saudades da “prima Ceci” e de Zé da Silva, um herói da minha infância, janista até a alma, como meu pai.No seu caso,
sobrou para o filho.No meu, carrego a herança dos livros do escritor francês que sobravam lá em casa. Forte abraço.


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