Dilma e Cristina:”a nostalgia pior”…


…a o atentado em Istambul:sombras na Europa.

ARTIGO DA SEMANA

Brasil-Argentina – Europa: corrupção, espantos, nostalgias…

Vitor Hugo Soares

“Duró la tormenta hasta entrados los años ochenta
Cuando el sol fue secando la ropa de la vieja Europa.
No hay nostalgia peor que añorar lo que nunca, jamás sucedió
Mándame una postal de San Telmo, adiós cuídate.”- Durou a tormenta até começos dos anos oitenta/ Quando o sol foi secando a roupa da velha Europa./ Não existe nostalgia pior que estranhar o que nunca, jamais aconteceu./ Manda-me um postal de San Telmo, adeus, cuida-te”.

(Da letra antológica do tango “Com la frente marchita”, do poeta e compositor espanhol Joaquin Sabina.)

Com a voz meio rouca e profunda que sai lindamente da “garganta com areia” (na definição perfeita dos argentinos), escuto, via youtube, a cantora Adriana Varela interpretar os versos de Sabina na canção magistral. Plena de metáforas que mexem fundo em realidades, aparências e sentimentos tão contraditórios quanto os dias que correm nesta complicada e imprevisível travessia do primeiro para o segundo semestre de 2016.

Sim, em voo cego e praticamente sem aparelhos, ingressamos já na metade final do ano e, neste sábado, 2 de Julho, a Bahia (de onde faço este artigo) festeja a sua data magna de independência do domínio colonial português. Há desfiles cívicos e festas nas ruas históricas. Alguns de seus governantes e políticos ainda participam e, apesar dos tempos bicudos, sorriem, acenam e arriscam mais promessas de pão e circo, de olho nas eleições municipais que se aproximam.

O olhar se espalha pelo País, pela Argentina, pelos Estados Unidos, pela Europa, por Londres, por Istambul, e tudo parece um nevoeiro só, com as suas diferenças específicas, mais ou menos delicadas ou trágicas. No computador, a “morocha de Buenos Aires” canta “Com La frente marchita”: a beleza melódica e poética do tango alegra o coração, mas a nostalgia, que impregna a descrição de miragens desfeitas, na política e no amor, da letra do compositor, nascido em Úbeda, mexe fundo na alma do jornalista que assina este artigo.

Mexe mais fortemente, ainda, quando o som vem acompanhado das recordações de antigas imagens guardadas na memória, e depois da leitura dos fatos mais recentes em Brasília, ou do noticiário internacional, nos últimos dias. Em especial , sobre o plebiscito que deverá separar o Reino Unido do resto da Europa, o atentado selvagem e devastador de esperanças, no aeroporto Attaturk, de Istambul, ou o discurso de Donald Trunp, virtual candidato Republicano à presidência dos Estados Unidos, em defesa de práticas de torturas do tipo “afogamentos simulados” para suspeitos de terrorismo, em seguida à tragédia na Turquia.

Sou um apaixonado por Buenos Aires, confesso. Desde os primeiros tangos de Gardel e Goyeneche, soprados das margens do Rio da Prata, pelas ondas curtas de rádios portenhas; na BBC de Londres, em espanhol ou em emissoras do Rio Grande do Sul, que meu pai sintonizava para ouvir Jamelão, cantando sambas canções de Lupicínio Rodrigues, ou as falas do governador Leonel Brizola, altas horas da noite. Além da Rádio Jornal do Comércio, a que falava “de Pernambuco para o mundo”, que eu escutava na margem baiana do São Francisco, o rio da minha aldeia, na infância e adolescência, em que a música se misturava com a política o tempo inteiro.

Nas últimas cinco décadas estive na Argentina inúmeras vezes: estava em San André de Gilles quando do primeiro comício de Hector Campora, com Isabelita no palanque, preparando os apaixonados justicialistas para o retorno de Peron, do exílio, no começo dos anos 70. Então, na companhia do saudoso compadre e amigo maior, Pedro Milton de Brito, ex-presidente da OAB-BA, por duas vezes, e outras tantas vezes brilhante e corajoso ex-conselheiro federal da Ordem dos Advogados do Brasil, nos anos loucos de resistência à ditadura e de luta pela liberdade de expressão e pelos direitos humanos. Ao lado de Pedro assisti, também, ao primeiro e memorável comício de Raul Alfonsin, candidato a presidente da Argentina pela União Cívica Radical.

Tempos das multitudinárias manifestações, dos bumbos ensurdecedores e das primeiras canções de Mercedes Sosa. E dos cartazes arrogantes pregados nas paredes: “Vuelva Peron, somos machos e somos muchos”. Estava em Buenos Aires, também, na posse do farsante, falastrão e corrupto ex-presidente Carlos Menen, à qual compareceu o colega brasileiro Fernando Henrique Cardoso. Na festa de gala, no Teatro Colon, transmitida pela televisão ao vivo, escutei pela primeira vez, no quarto do hotel onde estava hospedado, a voz de Adriana Varela, grande estrela do espetáculo, que até então eu desconhecia. Paixão à primeira vista, escrevi uma vez.

Desembarquei na florescente capital à beira do Rio da Prata, outra vez, dias depois da tragédia do bairro Once. Um quarteirão inteiro explodido em uma das áreas mais movimentadas da cidade, no atentado à AMIA, a associação mutuaria do bairro judeu, com quase 100 mortos, centenas de feridos, além das máculas profundas e ainda inpunes na alma da capital e da gente portenha. As feridas não cicatrizam e as suspeitas se projetam até hoje, e alcançam políticos e governantes, a exemplo da ex-presidente Cristina Kirchner, recentemente derrotada por Macri e agora enredada em denúncias de corrupção e malfeitos diversos, a exemplo de sua colega e amiga brasileira, Dilma Rousseff, afastada do poder. Minha mais recente estada na Argentina foi no ano passado, nos estertores do kirchnerismo, que agora agoniza.

Confesso, no entanto, não recordar de algo tão grotesco e revelador da decadência de homens públicos e governantes de um país (salvo talvez em algumas situações do petrolão brasileiro), quanto as cenas projetadas para o mundo, semana passada, pelo mais recente escândalo na Argentina: o septuagenário José Lopez, nome de referência do kirchinerimo justicialista, como secretário de Obras Públicas, preso numa madrugada quando tentava esconder nove milhões de dólares, distribuídos em sete sacolas, no terreno de um convento quase abandonado (habitado por duas octagenárias freiras) de Buenos Aires, a cidade do Papa Francisco.

“O kirchnerismo sofre um golpe avassalador. O movimento que controlou a Argentina durante quase 13 anos parecia imbatível, mas, apenas seis meses depois de perder o poder, já sofre com disputas internas e escândalos que o afundam politicamente”, resume o correspondente Carlos Cué, em seu relato da capital portenha para o jornal espanhol El Pais. A conferir, a exemplo do caso que abala Dilma, Lula e o petismo no Brasil.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 2 julho, 2016 at 10:58 #

“Qué falta de respeto, qué atropello a la razón!
Cualquiera es un señor, cualquiera es un ladrón!”
(Cambalache – Enrique Santos Discepolo)

Caro VHS

Ouço Cambalache e rememoro Pitigrilli.

Está em Loura Dolicocéfala, com seu herói afeto ao estelionato, a melhor tradução para a crônica política de los hermanos, nada além de um conto do vigário que se exaure em demência.

Melhor ficarmos com a música!


vitor on 2 julho, 2016 at 12:08 #

Luiz Fontana:

Verdade, poeta. Melhor, muito melhor, ficar com a música. De Discepolo ou de Sabina. Tim Tim!!!


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