CRÔNICA

O Gonzaguinha do grande ponto de interrogação?

Maria Aparecida Torneros

Ele se foi deixando poesia e música de intensa profundidade. Gonzaguinha foi marcante na minha geração.
Tantas vezes explodiu nossos corações e outras tantas nos deu gritos de alerta. Tinha olhar triste e sorriso tímido sob os bigodes. Era magro e leve.

O peso lhe vinha da Vida e sensibilidade. Criava letras feministas. Poemas de protesto. Esbravejava a dor dos perseguidos pela ditadura militar. Cantava o amor sobrevivente das decepções.

Resgatou o pai rei do Baião enquanto encantou nossa legião de gonzaguistas seguidores. Partiu repentinamente num acidente em Pato Branco.

Fomos tomados de imensa tristeza.
A voz do moleque criado no Estácio calou e ficamos órfãos dos seus versos elaborados.

Legou-nos a certeza de que a vida é bonita. Bonita e bonita.

Gonzaguinha era nosso companheiro de estrada. Tinha a cara da sede de justiça e da fome de igualdade.

Exibia o semblante do Guerreiro da comunidade periférica. Podia carregar nossas bandeiras de lutas e esperanças.

Sua fala e seu canto estão vivos.
Tão vivos que é possível sentir suas nuances premonitórias.

O menino que desceu o Estácio ganhou o Brasil e reencontrou a saga nordestina paterna.
Foi se embora nas terras do Sul. Tinha um destino bem brasileiro.

Obra de Mestre. Fez da sua música um libelo de consciência nacional. Seu canto também ecoou na liberação sexual. Ousou.

A história dele é nossa. Porque virou doutor e venceu na harmonia.

Saudades dele teremos sempre. Como esquecer ídolo de um tempo em que se combatia a opressão através da canção?

Cida Torneros é jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária. Colaboradora da primeira hora e amiga do peito do BP.

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Comentários

ermelinda rita on 22 junho, 2016 at 8:17 #

Parabéns,Cida ,pela sensibilidade com relação ao cantor Gonzaguinha.Ele representa uma geração e está cada vez mais atual.Beijos


Mariana on 22 junho, 2016 at 10:16 #

Lindo texto, Cida!
Gonzaguinha foi um poeta sem tempo, ainda vive dentro de cada um de nós…
Hoje o 27º Premio da MPB, que será transmitido pelo canal Brasil, fará homenagem a ele! Vamos todos assistir…Vai ser legal, penso.
O meu verso preferido é: “quando eu soltar a minha voz, por favor, entenda, é apenas o meu jeito de viver o que á amar…”.


Carlos Volney on 22 junho, 2016 at 12:25 #

Esse texto de Cida Torneros, a quem não tenho o prazer de conhecer, mas a quem admiro pelas brilhantes intervenções neste blog, é verdadeiramente primoroso e sintetiza, com rara felicidade, Gonzaguinha e a importância dele para nós, seus admiradores, bem como para nossa sofrida Pindorama.
Efusivos parabéns e a certeza de que ninguém que queira também homenagear nosso ídolo lhe superará.
Seu texto é verdadeiramente digno de Gonzaguinha e sua grandeza.


Cida Torneros on 22 junho, 2016 at 12:47 #

Bjs cariocas e gonzaguistas p vcs! Obrigada


Cida Torneros on 23 junho, 2016 at 8:44 #

Assisti a homenagem ontem ao Gonzaguinha na entrega dos prêmios da MPB. Foi tudo lindo. Três filhos dele cantaram juntos Brincadeira de roda.


Gilson Nogueira on 27 junho, 2016 at 18:47 #

Cida Torneros on 27 junho, 2016 at 20:48 #

Obrigada Gilson pela canção do Tom na interpretação linda do Zumbi Trio. Bj


Gilson Nogueira on 27 junho, 2016 at 21:13 #

Zimbora,Cida!!!


Gilson Nogueira on 27 junho, 2016 at 23:50 #

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