Depois da pressão, Tia Eron ri por último…


…E Dunga:sem coragem de atravessar seu Rubicon

ARTIGO DA SEMANA
Tia Eron e Dunga: diferenças na hora decisiva

Vitor Hugo Soares

Nestes dias incríveis de junho de 2016 – incluindo a quinta-feira da desconjuntada e cômica cerimônia petista, de entrega do título de cidadã baiana à presidente afastada Dilma Rousseff, em Salvador, e da divulgação dos pormenores da arrasadora delação premiada de Sérgio Machado (Transpetro) à Lava Jato, que alcançou a asa do presidente em exercício Michel Temer, e feriu gravemente outros maiorais da República em transe – , é inevitável, outra vez, recordar palavras e ações do falecido deputado Ulysses Guimarães.

Lembrar do audaz timoneiro da política brasileira em difíceis e tenebrosas travessias passadas. Memorável sempre, e cada vez mais, à medida que o tempo passa, as crises se renovam e se ampliam, e o País se vê cada dia mais pobre e carente de modelos e bons exemplos de líderes políticos, sociais, empresariais e governamentais. Deserto de personagens valorosos e de ideias e ideais que realmente mereçam a denominação.

Dois personagens da semana – a deputada Tia Eron e o técnico Dunga – podem parecer, para muitos, irrelevantes e sem os méritos necessários para as comparações. Mas, dois momentos marcantes e aparentemente opostos justificam a recordação, para este jornalista, nas circunstâncias que atravessamos e diante dos personagens que temos.

O primeiro (cronologicamente falando), o técnico Dunga da humilhante derrota de 1 a 0 para o Peru (gol de mão), seguida da merecida desclassificação dos “pintassilgos” do ex-craque e ex-treinador dos pampas(afastado do cargo depois da vergonha em Boston), na primeira fase da histórica Copa América do Centenário, em disputa nos Estados Unidos.

O segundo, a deputada baiana Tia Eron, do aguardado voto – e suas circunstâncias – na sessão histórica da Comissão de Ética da Câmara, que decidiu pela abertura do processo de cassação do mandato do deputado Eduardo Cunha, que, até a hora decisiva “da nega baiana em quem ninguém manda”, aparecia em praticamente todas as citações e referências, como o todo poderoso e imbatível manda-chuva do Congresso e da política no Brasil.

Os dois episódios demonstraram, com notável expressividade e nitidez, a atualidade das palavras de Ulysses. Segundo ele, na política, como no futebol e na vida, há horas terríveis para decidir. “Mas, há que decidir, mesmo com riscos dramáticos”. Todo político tem o seu Rubicon – o rio dos heróis romanos – assinalava, em seus discursos e escritos, o padroeiro da constituição cidadã de 1988. Todo técnico de futebol também, ouso acrescentar. “Atravessa-o e se consagra, ou estanca na margem, com medo, e se liquida. Ninguém vai ao Rubicon para pescar, advertiu Malraux. Acrescento: ninguém vai ao Ipiranga para beber água. Se Dom Pedro I o fizesse, não ganharia estátua. Ninguém ganha estátua porque bebeu água”. Grande e verdadeiro Ulysses, exemplar parlamentar e inesquecível; torcedor do Santos e do futebol brasileiro, em tempos de grandes decisões e vitórias nacionais e mundiais. Na mosca!

Estes são os fatos: Suas Excelências, os fatos. Sobre eles, multiplicam-se conjecturas e opiniões divergentes. No caso do ex-jogador e ex-treinador da seleção há mais convergências que desacordos, quanto aos traços definidores do perfil de Dunga: um futebolista “raçudo”, do tipo do personagem descrito pelo pernambucano Ascenso Ferreira, no antológico poema “O Gaúcho”. Atleta burocrático, carimbador de praticamente uma jogada só. Técnico mais conservador e limitado ainda. Cabeça dura, enfezado, e contraditoriamente apático e inoperante quando a derrota se desenha (a exemplo do jogo contra os fregueses peruanos) e cobra atitude do líder: é preciso buscar alternativas, fazer mudanças, enfim, decidir. No fim, o desastre anunciado.

Quanto à deputada Tia Eron, há mais riqueza no debate e mais controvérsias salutares, provavelmente em razão do imprevisível e do inusitado da situação que sai do controle das ideias postas e consolidadas. No perfil traçado pelo jornal Folha de S. Paulo, por exemplo, está escrito: “Fiel da Igreja Universal de Reino de Deus, com uma pauta parlamentar ligada aos direitos das mulheres e da população negra, a congressista foi a mulher mais votada entre os deputados federais eleitos pela Bahia, nas eleições de 2014, após três mandatos consecutivos como vereadora de Salvador. Por ter, supostamente, cometido improbidade administrativa, ela é ré em uma ação civil pública que tramita na 5ª Vara de Fazenda Pública da capital baiana e teve sua prestação de contas de campanha contestada pelo Ministério Público Eleitoral”.

Mais prático, e mais próximo da personagem política desta semana de junho, o jornal Tribuna da Bahia escreveu assim em sua bem informada coluna política Raio Laser: “Ninguém duvide: a deputada Tia Eron deixou a Comissão de Ética da Câmara Federal consagrada. Virou nome nacional, ampliou a visibilidade local, e mostrou que sabe, como poucos ou poucas, jogar politicamente. Tem direito de sonhar alto. Há quem a veja com potencial de almejar até o Palácio Tomé de Souza. Mas, por hora, pode ser alçada à condição de vice do prefeito ACM Neto (disparado nas pesquisas para a reeleição). A conferir.

No meio do campo, pontuou o jornal espanhol El Pais sobre Tia Eron na hora decisiva: “O suspense se arrastaria até a votação, quando a pressionada “nega baiana em quem ninguém manda” afirmou que não poderia absolver Cunha e que votaria “sim” ao parecer do relator. Houve comemoração na sala e o seu voto fez com que Wladimir Costa (PSD), que minutos antes dissera haver “provas cabais” de que não houve mentira de Cunha, votasse pela cassação.” Precisa dizer mais?

Antes do ponto final, digo eu: Ulysses vive! Salve a memória e o pensamento de Ulysses Guimarães!

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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