Lula, segunda-feira, 6 na Fundição Progresso (Rio)…


…e Balzac:um pensador que enxerga longe.

ARTIGO DA SEMANA

Chicana no Rio: Lula na Fundição Progresso (e na pesquisa)

Vitor Hugo Soares

“É hora de discutir sobre estes homens medíocres que ocupam um lugar importante em sua época e que mobilizam uma imprensa comparável em produção à edição de livros”.

(Honoré de Balzac, em citação da antologia “Contra la Prensa” (Contra a Imprensa), do jornalista e pesquisador argentino Esteban Rodriguez, composta de textos críticos de grandes autores, em diferentes épocas, sobre a imprensa e a política).

Estranho, muito estranho, para dizer o mínimo, os mais recentes movimentos pessoais e políticos do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva – fundador do PT, padrinho e fiador da presidente afastada Dilma Rousseff, em situação bem mais complicada que a do japonês da Federal, nas suspeitas das investigações da Operação Lava Jato -, apontado em pesquisa divulgada na quarta-feira, 8, como o nome que encabeça a relação dos preferidos até aqui (21%) entre prováveis candidatos à presidência da República, em 2018, incluindo o senador Aécio Neves (PSDB) e a dona da Rede, Marina Silva.

O mais engraçado de tudo isso (ou suspeito seria a palavra mais correta para definir a situação?) é que Lula transfigurou-se, se comparado há menos de dois meses, quando apareceu com ar destroçado no ato dos petistas e aliados no Palácio do Planalto e imediações, no bota fora da mandatária – manhã seguinte à fragorosa derrota no Senado. Desde então, passou a ser citado e apresentado, piedosamente, como um ser praticamente em “estado vegetativo”, pessoal e politicamente falando. Em silêncio, afastado dos holofotes, macambúzio, dizia-se nas falas e escritos de certos nichos da imprensa nacional (e estrangeira também): “Lula está de saco cheio”. “Lula entrou em depressão profunda”. “Lula não consegue pegar no sono, preocupado com familiares em seu apartamento de São Bernardo (SP)”.

O burburinho começou, segundo as fontes e os veículos, quando o criador e principal líder do PT, começou “a demonstrar alheamento e desinteresse pelo futuro de seu próprio partido, deixando de comparecer não só às tertúlias do Instituto Lula, em São Paulo, mas, principalmente, à reunião da cúpula partidária, em Brasília, que discutiu a sobrevivência e o discurso do PT, “até Dilma ser julgada pelo Senado”.

“Amaldiçoado seja aquele que pensar mal destas coisas”, diriam os irônicos franceses. Quem sabe assim pensaria também, se vivo fosse, o velho e sábio escritor Honoré de Balzac, citado na abertura deste artigo? Responda quem souber.

O que sei e o que afirmo é: o ex-presidente petista retornou com a corda toda (ou quase), no começo desta semana junina, mês de Santo Antonio, São João e São Pedro, de grandes festejos nordestinos. Mas a volta do dirigente petista, encrencado com as firmes e cada vez mais definitivas investigações, interrogatórios e sentenças do juiz Sérgio Moro, em Curitiba, se deu no palco da Fundição Progresso. A mais famosa gafieira carioca, localizada no centro do Rio de Janeiro, a poucos metros de um dos mais representativos cartões postais da Cidade Maravilhosa.

No mesmo local onde, há menos de dois meses, comandara (ao lado de Chico Buarque e do então ministro da Cultura, Juca Ferreira), o constrangedor e desastroso ato denominado “Cultura pela Democracia”, com a casa lotada de dirigentes sindicais e estudantis, intelectuais e artistas (neste caso, gente, em geral, bafejada pelas graças e pela grana da Lei Rouanet). Seguido da manifestação “popular e artística” pró-Dilma, nos Arcos da Lapa, na noite da humilhante derrota do PT e aliados, na Câmara, em Brasília, que prenunciava a queda inapelável de Dilma Rousseff, em seguida afastada pelo Senado das funções presidenciais que ela praticamente jamais exerceu em seu segundo mandato. Tudo transmitido ao vivo e à cores pela TV Brasil e “afiliadas”da Televisão Educativa no país inteiro, na festa do “jornalismo chapa branca” patrocinado pelos governos Lula e Dilma.

No ato desta segunda-feira, 6, a TV Brasil (em guerra intestina por mudança desde o começo do governo Temer (PMDB), não fez cobertura ao vivo. Mas ainda assim foi simbólico e revelador o ato de reaparecimento de Lula – “contra as privatizações de Temer, Meireles e Serra”- batizado de “Se é Público, é para Todos”. Emblemático das manifestações do PT e suas linhas auxiliares, não? Desta vez, no entanto, marcado por indisfarçável tom provocativo de desafio e chacota. De chicana mesmo, para usar o jargão jurídico do julgamento de corruptos condenados no processo do Mensalão. Cada dia mais presente nesta fase de denúncias, prisões, julgamentos e condenações de malfeitores do conluio público e privado, envolvidos na Lava jato.

A Fundição Progresso tinha menos artistas desta vez, mas de novo ficou coalhada de sindicalistas, políticos, estudantes ligados à UNE, representantes dos chamados “movimentos sociais”, em volta de Lula, “com objetivo de propor um debate sobre temas de natureza pública”, segundo seus organizadores. A estrela principal da festa, no entanto, parecia mirar em outros alvos em seu discurso “de comício”. Desconsiderou velhos “companheiros e aliados” e os desqualificou: de Temer, vice de Dilma, a Meireles, seu ex-ministro do peito. Sem esquecer a imprensa, que atacou dura e irresponsavelmente, mais uma vez.

“É o ministério de Eduardo Cunha,- provocou, enquanto o público gritava:”Volta, Volta, Volta”!- Os coxinhas agora estão com vergonha, foram para a rua em busca de um risoto, e o que caiu na panela que eles batiam foi Temer”. Lembrou da companheira Dilma e falou: Não estou dizendo que a Dilma não cometeu equívocos. Ela cometeu. E queremos que ela volte exatamente para corrigir os erros que nós cometemos”. E terminou com uma resposta aos apelos da “turma do volta Lula”.

“É cedo para pensar nas eleições presidenciais de 2018. Mas temos gente boa e nova para isso. Eu estou na idade para me aposentar”. Em seguida, sem dar sinais de depressão alguma, foi para Brasília se dedicar a “articulações” na terça-feira. Depois voou a São Paulo, para esperar o resultado da pesquisa que saiu na quarta-feira. Mais não digo, a não ser que Balzac pode estar, mais uma vez, com a razão. A conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 11 junho, 2016 at 9:37 #

Lampeiro e pimpão!

Até quando?

Até quando Teori o guardar em vetusta gaveta, livrando-o, sem razão aparente, de seu destino de réu.

Lula, hoje, é um fenômeno sustentado pela inércia do judiciário. Travestido de sigilo, conservado em temor reverencial que inibe eventuais editoriais.

Quem colocará o guizo no gato?

Deixar Lula guardado em gaveta, sem sequer se dar ao luxo de justificar, traduz prevaricação?

“Amaldiçoado seja aquele que pensar mal destas coisas”, apresso-me a consignar, antes que confundam minha frágil dúvida com provocação ao gato!

Lula continuará pimpão, lampeiro e bizarro, enquanto perdurar o silêncio, nada inocente, de quem despreza os mais comezinhos prazos.

O resto é distração, incluindo-se nela, o tal “japonês da federal”, mero condutor de presos, elevado à celebridade, pelo jeito afeto a cartoon de sua figura.

Melhor discorrer sobre o “japonês”, nenhum risco, nenhum temor, reverencial, afinal é só imprensa.

Estranho, além louvável, seria encontrar editais e matérias tentando, por exemplo, explicar a razão com que Jaques Wagner foi aquinhoado por investigação sob rótulo de procedimento oculto, neste mesmo STF.

Enquanto isto, fundados ou não, em razões e fatos que os justifiquem, dormitam, sem resposta, os pedidos de prisão de Sarney et caterva, sem que a sociedade mereça, sequer explicações, fundadas ou não.

Tim Tim!!!

(Que Exú, o Orixá mensageiro, acorde Montesquieu)


Vanderlei on 11 junho, 2016 at 17:08 #

Ele , Lula, é na verdade mesmo, um sério candidato à “Republica de Curitiba”.


Taciano Lemos de Carvalho on 11 junho, 2016 at 23:15 #

Enquanto isso, no Palácio do Jaburu

—Marcela, o Dia dos Namorados é amanhã. Jantamos fora ou em casa?

—Fora, Temer.

Coisas que rolam pelo WhatsApp


luiz alfredo motta fontana on 13 junho, 2016 at 8:40 #

A exceção que comprova a regra vergonhosa!

Aqui Josias de souza:

—————————-

Denúncia contra Renan aguarda por um ‘julgamento’ no Supremo há 1.235 dias

Josias de Souza 13/06/2016 04:39

Nos sonhos dos políticos que têm contas a ajustar com a lei, há sempre um Supremo Tribunal Federal receptivo aos embargos auriculares. Nesses devaneios, os encrencados dizem com incômoda frequência que conversam com ministros do Supremo. Como se alguns desses ministros, sentados à mão direita de Deus, fossem simpáticos à ideia de firmar um “pacto” para “estancar essa sangria”.

Nas pegadas da divulgação do áudio das conversas vadias do delator Sérgio Machado com os morubixabas do PMDB, o presidente do STF, Ricardo Lewandowski, soltou uma nota oficial sobre o tema. Nela, escreveu:

“Faz parte da natureza do Poder Judiciário ser aberto e democrático. Magistrados, entre eles os ministros da Suprema Corte, são obrigados, por dever funcional, a ouvir os diversos atores da sociedade que diariamente acorrem aos fóruns e tribunais.”

Lewandowski anotou também que “tal prática não traz nenhum prejuízo à imparcialidade e equidistância dos fatos que os juízes mantêm quando proferem seus votos e decisões, comprometidos que estão com o estrito cumprimento da Constituição e das leis do país”.

Admitindo-se que não há razões para duvidar da sinceridade de Lewandowski, o ministro renderia homenagens à sensatez se explicasse aos brasileiros por que o tribunal que preside não consegue julgar um processo que traz na capa o nome de Renan Calheiros.

Trata-se daquela denúncia em que a Procuradoria-Geral da República acusa o presidente do Senado de usar dinheiro da empreiteira Mendes Júnior para pagar pensão a uma filha que teve fora do casamento. O Supremo precisa dizer se aceita a denúncia, o que converteria Renan em réu.

A plateia espera por uma resposta há 3 anos, 4 meses e 3 semanas. Repetindo: a Procuradoria protocolou a denúncia contra Renan no Supremo há 1.235 dias. E nada. Originalmente, o relator do processo era Lewandowski. Sentou em cima dos autos por um ano e sete meses.

Em setembro de 2014, Lewandowski assumiu a presidência do Supremo, deixando para trás cerca de 1.400 processos que aguardavam deliberação em seu gabinete. Entre eles o de Renan. O caso deveria ter migrado para a mesa de Joaquim Barbosa. Mas o relator do mensalão aposentou-se.

Dilma demorou a providenciar a substituição. Só em junho de 2015 tomou posse o substituto de Barbosa: Luiz Fachin. Ele herdou o processo contra Renan. Há quatro meses, em fevereiro passado, Fachin pediu a Lewandowski que incluísse a encrenca na pauta do plenario do STF.

Dias depois, entretanto, o mesmo Fachin requisitou os autos de volta ao seu gabinete. Os advogados de Renan alegaram que havia uma “falha processual”. Chamada a se manifestar, a Procuradoria negou a existência de falhas e devolveu os autos no mesmo dia, encarecendo que fosse marcado o julgamento. E nada.

No mês passado, Fachin acionou novamente a Procuradoria. Alegou que faltam documentos ao processo. O Ministério Público pediu que o julgamento fosse marcado com urgência. Renan foi acusado de três crimes: peculato (uso do cargo público para desviar dinheiro), falsidade ideológica e uso de documento falso. Se condenado, poderia pegar até 23 anos de cadeia. Mas o último delito já prescreveu. E nada.

Beneficiário da demora, Renan continua presidindo o Senado como se nada tivesse sido descoberto sobre ele. Já está metido noutro escândalo, o petrolão. É protagonista de uma dúzia de inquéritos no Supremo, dos quais nove referem-se à Lava Jato.

A delação de Sérgio Machado deve resultar em nova denúncia contra Renan. E nada de uma manifestação do Supremo sobre o caso da empreiteira que bancava a pensão da filha do senador. O STF revela-se capaz de tudo, menos de incomodar Renan Calheiros. Para o senador, o Supremo é um Judiciário muito distante, uma Justiça lá longe.

—————–

este o retrato do Supremo, que deveria estar estampado diuturnamente, quiçá, face ao desnudamento, resolvessem cumprir com suas obrigações em tempo decente. Se não por convicção, ao menos, por vergonha!

Josias, neste aspecto, infelizmente é exceção para vergonha gera do jornalismo, tão afeito à paralisia provocada pelo tal temor reverencial.


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