Millôr: “onde será que enterram os canalhas?”

DEU NO BLOG POR ESCRITO (DO JORNALISTA LUIS AUGUSTO GOMES)

Aurélio do Carmo sobrevive a Passarinho

É muito bom que o desembargador paraense Aurélio Correia do Carmo ainda esteja vivo, aos 94 anos, pelo que de felicidade representa a existência de um ser humano como pelo fato de que não precisamos, ainda, passar em branco por sua morte.

A morte do ex-governador e ex-ministro Jarbas Passarinho, domingo, aos 96, ocorreu cheia de registros. Da grande participação em ministérios e mandatos ao toque militar no sepultamento, passando pelos pêsames prontamente declarados do presidente Temer.

A cena faz lembrar a charge clássica de Millôr Fernandes em que dois extraterrestres passeiam entre lápides de um cemitério, não necessariamente brasileiro, e um deles indaga: “Onde será que eles enterram os canalhas?”

Não cheguemos a tanto com relação a Passarinho. Mas a percepção é a de que, neste Brasil do bem entrado século XXI, devemos deixar para trás a era do ôba-ôba, com permissão para os acentos contra a gramática oficializada.

O “democrata” e “intelectual” do AI-5

A “brilhante” carreira de Jarbas Passarinho na vida pública começou por sua condição de principal nome do Exército no Pará, com a nomeação para governador, em junho de 1964, no lugar, justamente, do supracitado Aurélio do Carmo.

Eleito para o cargo com 70% dos votos, Do Carmo foi cassado por “subversão” e “corrupção”, tradicionais acusações da época, que jamais foram provadas. Voltou à vida pública, mas não política, após a anistia de 1979.

Enquanto isso, Passarinho foi ministro do Trabalho, da Educação e da Previdência, num período em que os trabalhadores, estudantes e aposentados brasileiros só perderam em direitos, representação e estrutura. Daí, decolou para mandatos consecutivos no Senado.

Nessa fase, posou de “democrata” e “intelectual”, embora não tenha apagado de sua biografia o episódio em que, como ministro do governo Costa e Silva (1967-69), ao declarar apoio ao terrível AI-5, que radicalizou a ditadura, mandou “às favas todos os escrúpulos de consciência”.

Na sucessão presidencial intramuros que caracterizou o Brasil do regime militar, seu nome foi muitas vezes lembrado na imprensa, porém sem chance, pois alcançara na carreira a patente de coronel, e na rígida hierarquia reinante não poderia “dar ordens” a generais.

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 8 junho, 2016 at 10:03 #

Apenas um 477 que tentam, muito de 171, transformar em digno de memória. Millôr faz sentido.


luis augusto on 8 junho, 2016 at 13:10 #

Obrigado, Fontana. Me lembrei dos acordos MEC-Usaid, não quis citá-los. mas me esqueci do 477.


luis augusto on 8 junho, 2016 at 13:15 #

Não vou dizer que é a idade para não ofendê-lo, a você, que lembra de tudo. Abraços, Luís.


luiz alfredo motta fontana on 8 junho, 2016 at 13:42 #

Esta idade é um fato, o detalhe é que ela insiste em repetir, não esqueça do ontem, para não aplaudir velhacos históricos.

Abraços!!!


vitor on 8 junho, 2016 at 13:47 #

Luiz Fontana:

Bem lembrado, poeta: o 477 que me cassou a matrícula na Faculdade de Direito da UFBA no ano em que eu iria me formar e ainda permitiu a PF invadir a faculdade e me levar (juntamente com vários outros colegas tb com matrículas cassadas pelo 477) para uma temporada no Quartel do 19º Batalhão de Caçadores da VIª Região Militar do Exército.Bem lembrado, poeta!!!


Taciano Lemos de Carvalho on 8 junho, 2016 at 15:03 #

“Às favas, sr. presidente, neste momento, todos os escrúpulos de consciência!”.

Ele, Jarbas Passarinho, foi enterrado no Campo da Esperança, na Ala dos Pioneiros de Brasília.

Sabemos, assim, onde alguns canalhas estão enterrados.

Triste é lembrar que o PC do B apoiou a candidatura de Passarinho para governador do Pará.


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