CRÔNICA DE CINEMA

“DIPLOMACIA”

Lúcia Leão Jacobina Mesquita

”Paris vale uma missa”!(Henrique IV)

Passando quase despercebido em Salvador, o grande filme de Volker Schlöndorff, “Diplomacia”, exibido somente na Sala de Arte do Cinema do Museu. É certo que a Sala Paseo Itaigara tenha colado seu cartaz na parede desde algum tempo e como já o conheço em DVD, fiquei aguardando que entrasse na programação para revê-lo enfim no cinema, onde as emoções da sala escura e a projeção na tela grande não rivalizam com a televisão nem mesmo as maiores que estão sendo agora fabricadas. É sempre oportuno lembrar Buñuel e sua declaração em “Meu Último Suspiro” sobre a magia que o cinema provoca no espectador. Pelo menos provocava antigamente, pois hoje já não se encontra a ambientação necessária para o envolvimento no filme, devido ao cheiro forte e os ruídos causados pela mastigação da pipoca e do sorver no canudo os imensos refrigerantes, o som dos celulares ou quando silenciosos, os focos de luz que rompem a privacidade da sala acionados pelos mais ansiosos que perderam a capacidade de concentração e insistem em ler as mensagens nas telinhas, sem respeitar o restante da platéia.Mas necessário retornar a Schlöndorff, o diretor que iniciou sua carreira como assistente de Louis Malle e possui uma filmografia invejável.
Não cria ele próprio seus roteiros, prefere escolher um grande texto e realizar sua adaptação para o cinema,como fez em “O Jovem Törless”, romance de Robert Musil, que deu visibilidade ao novo cinema alemão ao receber há exatamente cinquenta anos, o Prêmio da Crítica Internacional, no Festival de Cannes, de 1966, ou na companhia de grandes profissionais do gênero como Jean-Claude Carrière, com quem assinou “Um Amor de Swann”, baseado na obra de Proust, e“O Tambor” de Gunter Grass. Realizou,entre outros, “O Viajante”, de Max Frisch, “A Morte do Caixeiro Viajante”, adaptação do próprio Arthur Miller e, em 2014, adaptou em conjunto com o próprio dramaturgo a peça homônima de Cyril Gely, “Diplomacia”.
Schlöndorff é da mesma geração de Win Wenders, que já esteve em Salvador como conferencista no evento “Fronteiras de Pensamento”, Werner Herzog, Margareth von Trotta e Rainer Werner Fassbinder, que lhe serviu inclusive de ator em “Baal”, uma de suas importantes obras. Tem escolhido para seus protagonistas famosos atores, tais como Jeremy Irons, Ornella Mutti, Alain Delon, Fanny Ardant, Dustin Hoffman, John Malkovich,Sam Shepard, July Delphi, Barbara Sukowa, Niels Arestrup e André Dussollier, estes dois últimos os magníficos intérpretes de “Diplomacia”.
O tema de “Diplomacia” é preservar Paris da destruição ordenada por Hitler no final da Segunda Grande Guerra e que já foi abordado por René Clément, em “Paris está em Chamas?”,a partir do livro do mesmo nome de Dominique Lapierre e Larry Collins.
Desta vez, Schlöndorff baseia-se na peça homônima de Cyril Gély, que narra o diálogo mantido pelo cônsul sueco Raoul Nordling e o general alemão Dietrich von Choltitz, na madrugada do dia 25 de agosto de 1944.
Logo de início, o filme exibe as ruínas de Varsóvia ao som da 7ª Sinfonia, de Beethoven regida por Wilhelm Furtwängler, o célebre maestro que dirigiu no período nazista a Orquestra Filarmônica de Berlim, cuja sombria trajetória é objeto do documentário “The Reichsorchester – The Berlin Philharmonic and the Third Reich”, de Enrique Sánchez Lansch. Todas essas referências conduzem o público a se situar no palco da grande conflagração que dominou a Europa durante quase uma década e continua sendo um tema inesgotável de abordagens nos mais diferentes setores artísticos desde que findou em 1945. Schlöndorff filma quase que completamente entre quatro paredes o tenso diálogo mantido entre um diplomata para demover um general do cumprimento de uma ordem absurda. Durante todo o desenrolar da ação, reafirma a presença da Resistência Francesa na liberação da cidade, que aparece em algumas curtas tomadas como uma terceira personagem, além de estabelecer um confronto magnífico entre os intérpretes e suas habilidades em utilizar táticas militares e diplomáticas para ganhar uma guerra. É, pois, um espetáculo que deve ser prestigiado pelo público e merece maior visibilidade na programação, bem como ser exibido em todas as salas do Circuito Sala de Arte, a fim de que os interessados possam vê-lo. Inclusive porque o filme participou da 64ª Seleção do Festival Internacional de Berlim e ganhou o “César de Melhor Roteiro Adaptado”, em 2015.
Além da interpretação dos atores, do excelente roteiro, a fotografia de Michel Amathieu merece ser destacada na utilização que faz de cenas documentais da época do conflito em preto e branco, bem como nos filtros utilizados na iluminação dos aposentos onde se passa a ação com a cidade ainda imersa na bruma da madrugada vista da janela para sugeririncerteza às vésperas de uma catástrofe. Até a câmera se deslocar para o vão da mesma janela e visualizar as cores da aurora que despontam no horizonte, colocando no mesmo plano e prestes a se fundir as silhuetas do cônsul e da Torre Eiffel. A plasticidade desta tomada e a simbologia da claridade a se sobrepor à bruma, fez-me imediatamente retornar a memória outro célebre epílogo ligado à preservação da memória de Paris, na atitude tomada pelo rei Henrique IV de se converter ao catolicismo, afim de interromper a chacina religiosa, no século XVI.
E para finalizar, como contraponto ao Allegretto, da 7ª Sinfonia de Beethoven que inicia a projeção, a nostálgica canção “J’ai deux amours”, na bela voz de Madeleine Peyroux, enquanto são exibidos os créditos.

Lúcia Leão Jacobina Mesquita, ensaísta e autora de “Aventura da Palavra”.


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Comentários

Francisco Magalhães Costa Neto on 8 junho, 2016 at 21:30 #

Se já não tivesse visto Diplomacia, certamente iria agora correndo para o cinema assisti-lo. Esse texto de Lúcia jacobina é empolgante e cheio de informações preciosas. Ela não deixa escapar nenhum detalhe, nem mesmo a belíssima canção J’ai Deux Amours na voz de Madeleine Peyrroux que surge no momento dos créditos. Os cinéfilos precisam de mais textos como esse. Parabéns!


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