Pedro Pablo Kuczynski acena para eleitores.
MARIANA BAZO REUTERS


Carlos E. Cué

Jacqueline Fowks

Lima

A contagem final dos votos na eleição no Peru confirmou a inesperada derrota por uma mínima diferença da direitista Keiko Fujimori e a vitória do liberal Pedro Pablo Kuczynski (PPK). Com 92% dos votos apurados, o resultado mostra que os Fujimori repetiram seu fracasso de 2011, quando ficaram sem a vitória na reta final frente a Ollanta Humala. De novo a onda antifujimorismo do final da campanha, nete caso com um respaldo de última hora da esquerda ao liberal Kuczynski para frear Fujimori, parecem ter tido um efeito surpreendente. Com 92% do escrutínio oficial, o ex-ministro de Economia de Alejandro Toledo alcançava 50,3% dos votos frente a 49,7% da filha do autocrata que governou o Peru entre 1990 e 2000.

Mesmo assim, os fujimoristas se negavam a reconhecer a derrota à espera de uma guinada nos últimos dados do interior do país, mais fujimorista. De fato, a diferença foi se encurtando ligeiramente ao longo da noite até ficar em quase meio ponto, um suspiro.

Uma diferença tão escassa e o habitual voto envergonhado em Fujimori faziam todos os especialistas agirem com cautela na noite de domingo, prevendo apuração longa e tensa, na qual poderia ser crucial a atuação de fiscais e interventores partidários – algo em que a rede do fujimorismo é muito mais poderosa no país inteiro.

Num ambiente de grande tensão, com uma diferença tão escassa e muitas preocupações com fraudes, Kuczynski compareceu diante de seus seguidores com uma expressão de inquietação muito contida. “Não ganhamos ainda, para isso será preciso esperar os resultados oficiais. Temos que ser vigilantes para que não nos roubem os votos na mesa. Mas tenho certeza de que a ONPE [organização eleitoral] sairá [nesta segunda-feira] à noite com seu veredito em favor da democracia. Teremos um país democrático. Por isso tomamos estes veredictos oficiais com otimismo, mas com modéstia. Nós abominamos a ditadura e amamos o diálogo”, afirmou o candidato. E com isso chamou ao diálogo, imprescindível por estar em minoria no Congresso. “Somos conciliadores, apesar do que dizem sobre nós, e vamos poder governar o Peru para um horizonte brilhante e melhor. vamos conversar com todos. Chega de sarcasmo e enfrentamento.”

Pouco depois falou Keiko Fujimori e, longe de reconhecer a derrota, anunciou ser a ganhadora e disse que sua vitória seria confirmada quando fossem apurados os votos do interior. “Enche-nos de orgulho saber que contamos com 50% de respaldo popular”, afirmou. “É uma votação apertada, mas vemos a vitalidade da democracia do nosso país. As cifras que vemos na televisão nos mostram um empate técnico. Vamos esperar com prudência, durante toda a noite chegarão os votos das regiões e o voto rural do Peru profundo. Por isso estamos otimistas. Hoje dissemos que não queremos ódio, queremos unidade e reconciliação. Estamos contentes rumo à vitória”, bradou.

Antes da divulgação dos dados oficiais, duas pesquisas de boca de urna apontavam uma vitória mínima de Kuczynski (50,4% x 49,6%, segundo o Ipsos, e 51,2% x 48,8%, segundo GFK), ao passo que outra, do CPI, indicava a vitória de Keiko com 51,1% x 48,9%. O tradicional voto fujimorista oculto causava uma desconfiança geral – mas a apuração das primeiras seções já não é uma pesquisa, e sim um dado real.

Fujimori centrou sua campanha na segurança pública, buscando o voto dos pobres. Há apenas uma semana, sua vitória parecia inevitável, com 5 ou 7 pontos de vantagem sobre Kuczynski. Mas o candidato deu um giro radical na sua campanha, endureceu seus ataques e, sobretudo, surfou na onda antifujimorista estimulada pela esquerda e nos escândalos que afetaram o partido de Fujimori – seu secretário-geral precisou sair de cena devido a uma investigação da DEA, agência antidrogas dos EUA.

Fujimori parece ver esfumar-se uma vitória que tinha nas mãos, sobretudo graças ao voto dos pobres, que apostavam nela motivados pelo desespero da insegurança e a sensação de desproteção. No centro de votação do colégio Leoncio Prado, no bairro de Pamplona Alta, muito perto de uma favela onde Keiko é popularíssima, essa realidade salta à vista. Os habitantes fecharam suas próprias ruas com enormes grades, para se proteger dos ladrões. Cada morador dessas casas baixas, conta Maribel, dona de um quiosque de comida, tem chaves do portão. Os carros não podem circular em nenhum momento, e de noite as ruas ficam completamente fechadas, inclusive aos pedestres. “Como a prefeitura não cuida de nós, nós mesmos cuidamos. É por causa das quadrilhas”, diz ela. Em Lima, quase todas as casas dos bairros de classe média têm cercas eletrificadas, e em todos os bares e restaurantes há correntes sob a mesa para prender a bolsa e evitar furtos. A insegurança é um assunto central, sobretudo para os mais pobres, que a sofrem mais.

“Moradores unidos contra o roubo. É proibida a entrada de delinquentes. Serão presos e punidos pela patrulha dos moradores”, diz um cartaz em outra rua do bairro fechada pelos moradores, o que dá uma ideia dessa autogestão. É nesse ambiente que o fujimorismo e suas propostas linha-dura cresceram. Entretanto, mesmo aqui, em território fujimorista, há pessoas como Alicia que votaram em Kuczynski, “porque tem mais experiência [77 anos, frente aos 41 de Keiko]”, disse ela ao sair da sua seção eleitoral. “As pessoas das invasiones [favelas nos morros] votam em Fujimori porque estão gratas pelo leite que lhes dão de manhã e pelos refeitórios populares que têm. Mas eu vou apoiar PPK pelo bem do país”, diz Teodulfo.

Na universidade privada Ricardo Palma, num bairro limenho de classe média, dois jovens que faziam pesquisa de boca de urna para dois institutos diferentes comentaram que a votação “está muito apertada”. Lima é crucial porque nesta metrópole vive um terço dos quase 23 milhões de peruanos aptos a votar. E é onde Kuczynski estava mais forte, especialmente depois de receber o apoio inestimável da líder esquerdista Verónika Mendoza. Graças a ela, conseguiu entrar nos bairros pobres de Lima e no sul do país, onde sozinho não teria nenhuma força. Os primeiros dados indicavam que Kuczynski ganhou em Lima e no sul, precisamente graças aos votos de Mendoza.

Ela deixou claro que apoiou o liberal Kuczynski apenas para evitar a vitória de Fujimori, mas que não irá aderir ao novo Governo. “A partir de segunda-feira faremos uma oposição vigilante”, afirmou a ex-candidata de esquerda após votar em Cusco, sua cidade. Esse é outro dos grandes problemas. Se Kuczynski confirmar a surpresa neste segundo turno, terá pela frente um Congresso controlado pela família Fujimori. Alguns analistas, no entanto, acreditam que muitos parlamentares fujimoristas acabarão se aliando a Kuczynski, e que Keiko, após uma segunda derrota, entrará em uma guerra familiar com seu irmão Kenji, que aspira a sucedê-la, e que só o pai deles, preso, poderia dirimir essa disputa. Confirmando essa análise, Kenji distanciou-se claramente da irmã e se absteve de votar. Seja como for, o eventual Governo Kuczynski enfrentará dificuldades parlamentares.

A guerra de fundo é total, mas o Peru é um país onde as formalidades são sempre respeitadas e todos demonstram uma enorme tranquilidade e respeito. Os candidatos mantiveram um ritual especial em um país que tem uma das cozinhas mais famosas do planeta: o generoso café da manhã eleitoral diante das câmeras. Em ambiente festivo, os candidatos abrem suas casas ou algum local ligado ao partido para tomar o café da manhã com cobertura ao vivo de todas as redes de televisão.

Kuczynski tomou café com sua esposa, Nancy Lange – prima da atriz Jessica Lange – em La Victoria, um bairro popular. “Que hoje ganhem a democracia, a unidade e o diálogo. Votem com alegria”, pediu aos seus seguidores. Keiko Fujimori fez a refeição diante das câmeras com suas filhas e seu marido, Mark Vilanella, além de seu irmão Kenji e sua mãe, Susana Higuchi, que nos anos 90 se divorciou de seu pai e denunciou a corrupção fujimorista. Agora os pares dos dois candidatos são cidadãos dos EUA. “É um dia de festa, estou contente, com esperança”, disse Fujimori antes de votar. Somente a apuração determinará de quem será a festa dessa vez.


BOA TARDE!

DEU NO BLOG POR ESCRITO ( DO JORNALISTA LUIZ AUGUSTO GOMES)

O gogó de Dilma contra derrotas acachapantes

A vinda de Dilma a Salvador, marcada para o dia 16, e as viagens que programou a outros pontos do país serão, possivelmente, canceladas ou reduzidas após as restrições de deslocamento que a Casa Civil, sintomaticamente, lhe impôs.

E é bom que tenha sido assim, porque o contrário propiciaria, além de monumental perda de tempo, elevado e inócuo gasto de recursos públicos,

O conforto do presidente “em exercício” no ambiente legislativo está mais do que provado em duas expressivas vitórias – o crédito da meta fiscal estendida e o cheque em branco da DRU – e nas providências para encurtar prazos do processo no Senado, o que ainda depende da concordância do presidente do STF.

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Só não mexam com as minhas bases

Essa situação tem limites, mas que não chegam a ameaçar a cada vez mais próxima efetivação do presidente “interino”, que só não pode se espalhar quanto a CPMF e reforma da Previdência.

Aí, a “base” se divide um pouquinho, porque há um jogo de interesses eleitorais de indivíduos e partidos, que não se prejudicam, muito pelo contrário, quando o negócio é garantir aumento ao funcionalismo por quatro anos.

jun
06
Posted on 06-06-2016
Filed Under (Artigos) by vitor on 06-06-2016


Jarbas, no Diário de Pernambuco

jun
06
Posted on 06-06-2016
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DEU NO BLOG O ANTAGONISTA

Geddel mente; Geddel tem razão

Geddel Vieira Lima deu entrevista a O Globo. Disse que, como sabe o que fez no verão passado, não receia ser citado na delação de Marcelo Odebrecht, porque procurou os capos da empreiteira para pedir doações de campanha legais.

Leiam outras duas respostas do peemedebista:

O Globo: Há relatos de que Cunha continua interferindo nas questões da Câmara como, por exemplo, indicando para líder o deputado André Moura.

Geddel: Ele não indicou o André Moura. Quem indicou André Moura foram as assinaturas de 15 líderes da base aliada. Eduardo Cunha não está entre os que assinaram, e ele não tratou comigo deste tema.

O Globo: André Moura é investigado por tentativa de homicídio.

Geddel: Então vocês, em vez de reclamarem comigo, reclamem com o povo de Sergipe que, sabendo deste inquérito, o elegeu e o colocou no Parlamento. Ele é um deputado no exercício pleno de seus direitos.

É claro que Geddel mente: Eduardo Cunha continuar a interferir na Câmara. É claro que Geddel tem razão: a culpa de existir deputado bandido é do eleitor.



BOM DIA!!!


Manifestantes em março, em Brasília. Fábio Rodrigues Pozzebom Agência Brasi

DO EL PAÍS

Talita Bedinelli

São Paulo

“Renan, não sobra ninguém, Renan! Do Congresso, se sobrar cinco ou seis, é muito. Governador, nenhum”. A frase, dita pelo ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado em uma conversa gravada com o presidente do Senado, Renan Calheiros, pode até ser exagero. Mas poderia muito bem representar a percepção do brasileiro em relação ao sistema político atual. O que até pouco tempo parecia se concentrar mais no PT, se esparramou para as principais legendas. Conforme as investigações da Operação Lava Jato, iniciada em março de 2014, avançam e se aproximam da casta política dos partidos tradicionais, que sempre pareceu intocável. A sensação é de que o sistema político brasileiro parece estar à beira de um colapso e, com seus principais nomes sob suspeita, enfrenta danos cada vez maiores a suas imagens. E a pergunta que fica é: os partidos conseguirão sobreviver a isso?

Só nas últimas semanas, as gravações feitas por Machado, um ex-aliado do PMDB e do PSDB que se tornou delator na Lava Jato, comprometeram ainda mais não só Calheiros, mas Romero Jucá, presidente nacional do PMDB, que acabou afastado do cargo de ministro, e Aécio Neves, presidente nacional do PSDB, que nesta quinta-feira foi alvo de um novo pedido de investigação feito pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Além deles, o principal nome do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, também já é investigado, assim como outro peemedebista de peso, Eduardo Cunha, que se tornou réu na operação e acabou afastado da presidência da Câmara pelo Supremo Tribunal Federal.

O desgaste na imagem dos partidos não é causado apenas pelo envolvimento de seus quadros com a corrupção. Mas os escândalos ajudam a piorar uma situação que nos últimos anos já não é das melhores. A última pesquisa Datafolha sobre a próxima corrida presidencial, feita em abril deste ano, mostra que os principais nomes presidenciáveis despertam cada vez menos paixões. Aécio Neves, por exemplo, que quase ganhou de Dilma Rousseff na última eleição, tem caído nas preferências desde dezembro do ano passado, quando tinha 27% das intenções de voto -hoje tem 17%. Geraldo Alckmin, outro peemedebista presidenciável, também tem recuado -foi de 14%, em dezembro, para 9%, em abril. O mesmo aconteceu com o outro nome forte do partido, José Serra -foi de 15% para 11%, no mesmo período. Os três chegaram a ser vaiados numa manifestação que pedia o impeachment de Rousseff neste ano. Lula é o único que parece caminhar um pouco na contramão, viu suas chances subirem de 17%, em março, para 21%, em abril.

Pesquisas do Ibope também têm mostrado que a rejeição dos brasileiros aos partidos políticos chegou a níveis recordes – em abril de 2015, por exemplo, 66% dos brasileiros afirmavam não ter simpatia por nenhuma legenda; repetida em fevereiro deste ano, 47% fizeram a mesma afirmação. Em 1988, quando essa pesquisa foi realizada pela primeira vez, esse número era de 38%. Nesse mesmo ano, o PMDB era o partido que aglutinava a maior preferência (com 25%) e hoje caiu para apenas 11%. PT, que um ano antes da eleição de Lula para presidente, em 2001, tinha a simpatia de 25% dos entrevistados, hoje tem a de apenas 12%. E, depois da votação da admissibilidade do impeachment de Dilma Rousseff pelo Senado, no mês passado, poucos brasileiros (26%) demonstraram ter esperança de que o país se tornaria mais honesto – após o impeachment de Fernando Collor, em 1992, essa taxa era de 44%.

“A relação do eleitorado com os partidos, que vinha crescendo, começa a se deteriorar principalmente a partir de 2005 [ano do mensalão, que arrastou nomes importantes do PT]”, explica Maria do Socorro Braga, professora de ciência política da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e especialista em comportamentos políticos. “Quanto mais os partidos têm nomes envolvidos [com corrupção], maior a tendência do eleitorado de se afastar desses partidos”, afirma. Para a professora, a Lava Jato se tornou o ápice desse processo.

O cientista político Antonio Lavareda, especialista em comunicação eleitoral, concorda. “A Lava Jato se tornou uma variável de incerteza e imprevisibilidade. Ela passa como um trator sobre os partidos políticos mais tradicionais e torna os eleitores mais incrédulos em relação a eles e aos candidatos”. Neste cenário, ressalta, torna-se muito difícil imaginar as consequências que nas próximas eleições, ressalta ele.

Para o cientista político, se o desempenho do Governo Michel Temer não melhorar, é possível que o cenário nacional, que não costuma impactar as eleições municipais, acabe causando mudanças nos quadros das cidades, especialmente nas capitais. “O exemplo clássico disso aconteceu em 1988, quando as turbulências do Governo [José] Sarney eram tão grandes que levaram à eleição em São Paulo de Luiza Erundina”. Na época, ela pertencia ao PT, partido que ainda não tinha muita expressão no cenário nacional. “Era vista como uma candidata antissistema”, ressalta o cientista político.

Braga, da UFSCar, também acha que em um cenário tão tumultuado tudo é mais difícil de prever, mas ela crê que, na esteira da Lava Jato, candidatos ligados à Justiça podem acabar ganhando destaque. De uma coisa, entretanto, ela tem certeza: os partidos tradicionais, se quiserem mudar essa tendência de distanciamento da população, precisam começar a fazer uma autoanálise e tomar medidas que mostrem que não compactuam com a corrupção. “Os próprios partidos precisam se reorganizar para punir seus políticos, reforçar suas comissões de ética. É preciso que exista uma reeducação da classe política para que a população comece a se sentir mais contemplada.”

Nas conversas do ex-ministro Romero Jucá gravadas pelo ex-presidente da Transpetro fica claro que os próprios políticos já estão cientes das dificuldades que enfrentam perante a opinião pública. “Nenhum político tradicional ganha eleição, não”, diz ele a Machado. Em outro trecho, ele sugere que a operação Lava Jato tem o objetivo de começar do zero a política brasileira. “[Eles querem] acabar com a classe política para ressurgir, construir uma nova casta”. A frase é irônica, mas muitos brasileiros talvez concordem com a intenção.

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