Regina Duarte e Lucas Mendes: noite de gala no Manhattan Connection

ARTIGO DA SEMANA

Regina política Duarte: uma senhora entrevista no Manhattan Connection

Vitor Hugo Soares

Mesmo apresentado tarde da noite, o melhor e mais recomendável do domingo na televisão brasileira, opino, é o programa Manhattan Connection (na Globo News, às 23h), onde o inesperado, sempre à espreita, pode fazer uma aparição em qualquer intervalo, mesmo neste tempo temerário (grato pela expressão ao saudoso mestre do Direito Constitucional da UFBA e escritor Nestor Duarte) quando praticamente nada mais surpreende no Brasil.

Foi o que se deu domingo passado, no segundo bloco do programa do canal privado de TV, cujos realizadores tiveram a feliz ideia de convidar Regina Duarte – a profética atriz do medo ao PT e a Lula – para uma entrevista. Foram 15 minutos de conversa provocativa, reveladora e desassombrada (sem perder o humor, jamais). Para quem pegou no sono mais cedo, recomendo um dos vídeos que correm e seguem causando polêmica política e cultural acirrada pelas redes sociais.

A primeira grata surpresa da noite: o ar de harmônica combinação de serenidade com altivez crítica da entrevistada, mesmo diante das questões mais sensíveis e delicadas, antigas ou atuais. Isso depois de tantos anos, desde que, em 2002, (na campanha em que Lula se elegeu presidente da República), a porta se abriu e ela, sem prestar atenção no aviso “verifique se o elevador está parado no andar”, entrou de cara. “A sensação é de que eu entrei, o elevador não estava, e eu caí no vácuo, despenquei e fui parar no fundo, que medo!”.

É isso, exatamente – o ar jovial, digno, sorridente, de gente bem resolvida e sem ressentimentos ou mágoas intransponíveis, apesar de ter “apanhado tanto” e por tão longo tempo – o que primeiro chama a atenção do âncora Lucas Mendes.

Sentado em sua bancada no estúdio principal de New York, – quando a atriz aparece ao lado do jornalista Ricardo Amorim, na bancada do programa em São Paulo, – Lucas Mendes, o apresentador e jornalista sagaz e elegante (mas sempre sarcástico e crítico) vai direto ao ponto, depois de dar as boas vindas à convidada e assinalar a alegria do reencontro depois de muito tempo (a última vez fora em um espetáculo na Broadway.

“Regina, eu estou observando o seu rosto daqui, e não vejo nenhuma escoriação, nenhuma marca de violência: você apanhou muito lá dos defensores do MINC?”. A entrevistada entende a metáfora e o elogio elegante, dá um sorriso expressivamente irônico e marca em seguida o tom que embalaria a conversa inteira: “virtualmente foi uma sova, eu era para estar de cama”, responde com outra metáfora acentuada pelo inconfundível sotaque paulista da maior estrela da teledramaturgia brasileira. E pela expressividade que empolga e emociona milhões de pessoas no mundo inteiro.

A entrevistada e seus entrevistadores apresentavam assim, logo na largada, a embalagem bem humorada, sofisticada e inteligente para as informações relevantes e de interesse político, artístico e cultural – e igualmente na narrativa dos momentos de apuros, tensão e de fortes pressões pessoais que Regina Duarte precisou enfrentar desde a noite da dramática declaração que fez,em 2002, no segundo turno da campanha presidencial, quando, segundo ela, sentiu “o perigo do momento” que iria levar Lula e o PT ao comando do País: “Eu estou com medo”.

Era o gancho jornalístico da entrevista, em torno do qual giraria praticamente a conversa inteira. Com a participação ainda (além dos já citados) dos demais integrantes da bancada do “Manhattan”, que falam de muitos assuntos de diferentes partes do mundo: Diogo Mainardi (de Veneza), Pedro Andrade e Caio Blinder ao lado do apresentar em NY. Uma ceia noturna rica e saborosa, servida altas horas do domingo, 29, a espectadores notívagos do tipo em que se transformou, de uns tempos para cá, o jornalista e blogueiro que assina este artigo semanal de opinião.

Anunciada na abertura do programa como “palpiteira política”, a Raquel da novela Vale Tudo – ainda lembrada nas conversas em Cuba, como “aquela atriz que não gosta de Lula, Dilma e Fidel”,- contou Pedro Andrade, que esteve recentemente em Havana, em um dos mais hilariantes e marcantes momentos da entrevista. Mas Regina Duarte foi muito mais que isso: brilhante, verdadeira e convincente em cada detalhe da sua participação.

Quando fala do passado ou do presente, a mesma intensidade de vibração na arte de falar da vida, da arte, da cultura e da profissão. Mesmo quando trata das sovas e quedas que levou. Sobre a política, vê o lado positivo no momento de crise e radicalizações ideológicas agressivas: o debate e as grandes manifestações públicas. “Voltamos a fazer reflexões sobre o País”, pontua.

Provocada por Lucas Mendes, no final do programa, a atriz brasileira premiada internacionalmente, responde que não representaria o papel da presidente afastada, Dilma Rousseff, na TV, no cinema ou no teatro, se fosse convidada: “Não me sinto capaz de interpretar um personagem tão complexo e tão misterioso. Precisaria ter entendimento daquele ser humano”. Mais não digo, a não ser que foi uma noite da TV para não esquecer tão cedo (confira, quem não viu, os videos que circulam na internet, com a íntegra da entrevista). Aplausos à turma do Mannhattan Connection. Bravíssimo, Regina Duarte!

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 4 junho, 2016 at 11:04 #

A Bahia embalou, acolheu, mimou, fez de Dilma uma realeza, agora, próximo do acerto final, um baiano, dá-lhe o tiro de misericórdia!

– Presidente, resolvi procurar a sra. para saber o seguinte: é mesmo para efetuar o pagamento exigido pelo Edinho?, perguntou Odebrecht.

Entre o primeiro e o segundo turno da eleição de 2014, o tesoureiro da campanha de Dilma, Edinho Silva, cobrou de Marcelo Odebrecht uma doação “por fora” no valor de R$ 12 milhões para serem repassados ao marqueteiro João Santana e ao PMDB. Marcelo se recusou a fazer o repasse, mas diante da insistência de Edinho disse que iria procurar Dilma. Dias depois, em encontro pessoal, o empreiteiro e a presidente afastada mantiveram a conversa abaixo:

– É para pagar, respondeu Dilma.

-É para pagar!

(extraído da matéria de Cláudio Humberto, sob o título CAMPANHA DE DILMA RECEBEU R$ 12 MILHÕES “POR FORA” DE ODEBRECHT)

Dilma nua e crua, exposta em toda sua sanha tresloucada de candidata ao repúdio, sem nenhuma firula de estilo, visto ser, a madame, a tradução perfeita do tosco.

Que dirão, as que ainda relutam em aceitar fim bizarro desta entidade mal ajambrada? Terá direito a “ohs” e “uis” em manifestações no Farol da Barra ou na Paulista? Insistiram ainda, em escrevinharem asneiras prenhes de citações acadêmicas em prol do fica Dilma?

Odebrechet, surpreendo-me em reconhecer, produziu coim sua resiliência, digna de infantes teimosos, esticando ao máximo seu silêncio, um efeito colateral positivo. Teve tempo a nação para assistir o desnudar de outras figuras, antes que Madame o diálogo “histórico” viesse à tona.

Inexiste mocinhos, ninguém veste chapéu branco, neste saloon, não se encontra virgens nesse bordel, em cada personagem uma delação a ser estampada.

A Bahia fez história, o seu maior empresário do ramo das construções, ao se sujeitar ao papel de alcaguete, edificou o capítulo final.

Xangô sorri, enquanto o atabaque chama a todos para uma confraternização, entoando o coro:

Deixem esta vida de cordeiros,
rompam a corda,
tomem as praças,
nunca mais sejam “galera”!

Tim Tim!!!

(Enquanto isto, um certo ninho emplumado, entreolha-se assustado)


vitor on 4 junho, 2016 at 13:23 #

Luiz Fontana:

Certeiro e magnificamente bem pensado e escrito comentário, poeta de Marília (SP). Tim Tim!!!


Rosane Santana on 4 junho, 2016 at 23:19 #

Combinação explosiva para a credibilidade do jornalismo. Aliás, a morte do jornalismo, o casamento entre Isto é Claudio Humberto.


Chico Bruno on 5 junho, 2016 at 8:15 #

O texto faz jus a entrevista.


vitor on 5 junho, 2016 at 11:51 #

Grande Chico BRUNO, muito bom acordar no domingo de junho com um afago assim. Muito obrigado.


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