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Postado em 04-06-2016
Arquivado em (Artigos) por vitor em 04-06-2016 00:11


CPI da Petrobras ouve depoimentos de executivos da Odebrecht, em Curitiba, em setembro de 2015. Luiz Medeiros Câmara dos Deputados


DO EL PAÍS

Rodolfo Borges

São Paulo

A delação das delações da Operação Lava Jato avança lentamente, como um gigante, na direção de Brasília. Prometida em março pela empreiteira Odebrecht, a “colaboração definitiva com as investigações da Operação Lava Jato” chegou ao nível de negociação formal e levou o juiz Sérgio Moro, que cuida do caso em Curitiba, a suspender as ações penais do caso. “Diante de informações de que estaria em andamento a negociação de alguma espécie de acordo de colaboração entre as partes, suspendo este feito por 30 dias”, escreveu o juiz em despacho.

Preso desde o dia 19 de junho do ano passado, o herdeiro da empresa, Marcelo Odebrecht, já foi condenado a 19 anos e 4 meses de prisão por corrupção, lavagem de dinheiro e formação de organização criminosa. Agora, em vias de a maior construtora do Brasil revelar tudo o que sabe em troca de um acordo de leniência, Brasília aguarda apreensiva o estrago que deve alcançar partidos como PT, PMDB, PP e PSDB. Como Sérgio Moro já disse que espera trabalhar na Lava Jato até dezembro, é de se esperar que a potente delação de Marcelo Odebrecht seja o desfecho apoteótico da operação.

As notícias sobre o acordo, que é sigiloso e cuja existência o Ministério Público Federal não confirma oficialmente, dão conta de que o ex-presidente da empresa Emílio Odebrecht, pai de Marcelo, também pode ser convocado para prestar informações. Estão em questão principalmente as contribuições da empresa para campanhas políticas majoritárias. Segundo nota divulgada pela empresa em março, a intenção é tratar de “um sistema ilegal e ilegítimo de financiamento do sistema partidário-eleitoral do país”. Um dia depois de a Odebrecht informar sobre suas intenções de fechar a delação, vazou uma lista com os nomes de quase 300 políticos de 22 partidos ligados à construtora. Nas eleições de 2014, 15 partidos receberam doações da empreiteira.

Após o vazamento, Moro decretou o sigilo da planilha, que não deixava claro se a relação dos políticos com a Odebrecht era ilícita. A quantidade de nomes mencionados ficou como amostra, contudo, da amplitude de relações políticas da construtora, que atua no exterior desde os anos 70. Nos anos do PT no poder, expandiu suas atividades para países africanos e pela América Latina. Atua no setor público desde os tempos da ditadura. Foi a Odebrecht quem construiu o edifício sede da Petrobras em 1969, por exemplo.

Não por acaso, o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, que também fechou um acordo de delação premiada no âmbito da Lava Jato, se refere a Marcelo Odebrecht em uma de suas gravações vazadas nos útimos dias como “o dono do Brasil”. A relação estreita de Odebrecht e de seu pai com o poder nunca foi segredo para ninguém.

Também nos áudio vazados de Machado, que já levaram à queda de dois ministros do Governo interino de Michel Temer, o ex-presidente da República José Sarney menciona a presidenta afastada Dilma Rousseff em possível irregularidade com a empreiteira: “A Odebrecht (…) eles vão abrir, vão contar tudo. Vão livrar a cara do Lula e vão pegar a Dilma. Porque foi com ele. Quem tratou diretamente sobre o pagamento do João Santana foi ela”. Segundo Sarney, a delação da Odebrecht seria uma “metralhadora de ponto 100”, de tão devastadora para o mundo político.

“Esperamos que os esclarecimentos da colaboração contribuam significativamente com a Justiça brasileira e com a construção de um Brasil melhor”, diz a Odebreht na nota divulgada em março, quando anunciou que pretendia colaborar com a Justiça. Depois que a delação da Odebrecht for homologada, a construtora poderá buscar um acordo de leniência. Isso pode lhe dar um fôlego e permitir voltar a contratar com o Estado futuramente, e facilidade para buscar crédito com os bancos. Atualmente, tenta se desfazer de ativos bilionários no Brasil e no exterior para pagar dívidas que se avolumam enquanto seu presidente está preso, e funcionários da empresa são mandados embora.

Segundo o jornal Valor, o grupo acumula uma dívida de quase 100 bilhões de reais, que pode colocar a empresa em recuperação judicial. Só a divisão de agricultura tem 13 bilhões de reais em dívidas. A companhia tem negócios na área petroquímica, logística, infraestrutura, entre outros. Um acordo poderia ajudar a empreiteira, mas deve significar o ocaso da elite política na qual a construtora apoiou seu sucesso na última década.

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