Moro: ataques de Sarney, Jucá e Renan…


…Juarez Bahia: lições de jornalismo.

ARTIGO DA SEMANA

Jucá, Renan, Sarney: diálogos de peixes que parecem patos

Vitor Hugo Soares

Medo e pânico são as palavras da hora nestes dias de fim de maio de 2016, que prenuncia, também, a abertura da renovada temporada de suspense e sustos, agora com o País sob a nova direção de Michel Temer. Isto se vê ou se percebe principalmente nos noticiários, manchetes e análises da mídia nacional e estrangeira sobre o escândalo da vez na terra de todos os escândalos.

Trato, evidentemente, da divulgação de parte (mínima, segundo se sabe) do conteúdo de mais de seis horas de conversas, nada republicanas (salvo em repúblicas de bananas) gravadas pelo ex-senador e ex-diretor da Transpetro, Sérgio Machado, com o senador e brevissimo ministro do Planejamento, Romero Jucá, com o presidente do Congresso, Renan Calheiros, e com o ex-presidente da República José Sarney, tornadas públicas em reportagens escaldantes do jornal Folha de S. Paulo.

“Tá legal, eu aceito o argumento”, para não perder a batida do samba de Paulinho da Viola, mas… “Eia, estamos na Cidade da Bahia”, dos versos satíricos do poeta Gregório de Matos e de onde observo o que acontece em volta para escrever este artigo semanal. E a sensação primeira é de náusea e desconforto, somados a boa dose de desconfiança. Ceticismo, na verdade, talvez seja a palavra mais apropriada para definir a situação, e mais de acordo com um dos mandamentos fundamentais da minha profissão.

“Duvidar sempre. E se as coisas e as situações se mostram quase programadas, bem arrumadas e certinhas, sem deixar aparentemente margem para desconfianças, aí é preciso desconfiar ainda mais. Não dos fatos em si, que estes são sagrados, mas das reais intenções dos que os produzem”. Este ensinamento aprendi com o saudoso Juarez Bahia (seis vezes premiado com o Esso de Jornalismo), mestre de teoria e prática de jornalismo, de várias gerações. Com ele trabalhei e convivi longamente no Jornal do Brasil, quando Bahia era Editor Nacional, na sede do Rio, e eu chefiava a a redação da sucursal do JB em Salvador.

Uma vez tendo enveredado pelo terreno das lembranças e citações, devo assinalar, foi de Ulysses Guimarães, – fundador do MDB (célula mãe do PMDB, partido tanto do presidente em exercício da República, quanto dos três principais enrolados, até aqui, nas gravações de Machado) – a primeira recordação, desde que bati os olhos na reportagem do diálogo gravado com Romero Jucá. Mais precisamente, lembrei de uma frase antológica do timoneiro encantado no fundo do mar, incluída por dona Mora na seleção que ela fez, das 100 melhores frases do marido, publicadas no livro referencial “Rompendo o Cerco”.

“Política é conversa de adulto, não de moleque. É doloroso ter de repreender imaturos com o convite latino: “Puer, sacer est lócus: extra migite”. Em língua crioula: “Menino, o lugar é sagrado. Vá fazer pipi lá fora”.

Na mosca!!! Ainda mais nesta semana em que Teori Zavaski (qualificado por Jucá, na gravação, como “o mais fechado e inacessível membro do Supremo”), acolheu judicialmente a delação premiada de Sérgio Machado no processo da Lava Jato.

No caso em pauta chama a atenção, antes de qualquer coisa, a leviandade, desfaçatez, grossura e solerte falta de escrúpulos, senso ético e de princípios de quem grava e dos que são gravados pelo “amigo”. Tudo acompanhado sempre (e por todos eles) de doses maciças de vaidade e auto-suficiência pessoal dos que só consultam seus próprio interesses, se julgam acima de qualquer suspeita e inalcançáveis pela polícia ou pela justiça. O caldo de cultura que conduz à insensibilidade moral e ao sentimento de impunidade, que começa a ser enfrentado no País.

O resto é lama, agressões, maledicências e suspeitas lançadas no ar indiscriminada e irresponsavelmente, na tentativa de igualar por baixo a todos e a tudo: governantes, políticos, profissionais de imprensa, promotores públicos, magistrados… “Melar tudo”, eis o objetivo que parece mais evidente nos diálogos. A começar pelo barramento do avanço implacável e justo da Lava Jato (a mais ampla exemplar operação de apuração, julgamento e punição de corruptos e corruptores já levadas a efeito no Brasil). Se possível, com desonra e humilhação para o seu principal condutor: o juiz Sérgio Moro.

Em resumo, é isso (até aqui) o que se espalha por vários trechos das conversas dos peixes grandes e tarimbados da política e do poder no Brasil, com o desesperado mas bem treinado lançador do “anzol”, Sérgio Machado. Peixões fisgados como autênticos patinhos!

Bem feito. Mas, antes do ponto final, outra frase magistral para os dias que correm. A do ex-presidente do Supremos Tribunal Federal, Ayres Brito, no encerramento da esplêndida reportagem sobre o assunto, levada ao ar na edição de quinta-feira, 26, do Jornal Nacional (TV Globo): “A Lava Jato está vacinada contra qualquer tentativa de embaraço, de desfazimento, de bloqueio, ela se autonomizou. Passou a ser uma questão de honra nacional prosseguir com ela. A Lava Jato hoje é um patrimônio objetivo do país. Não há governo, não há bloco político, não há conluio que impeça a Lava Jato de prosseguir”.

Que assim seja!

Vitor Hugo soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 28 Maio, 2016 at 11:43 #

Doses diárias de delação, extraídas da imensidão protegida pelo tal sigilo, aplicadas sem anestesia, sem direito a eméticos, é a parte que nos cabe neste lamaçal.

A cada naco, uma nova teoria, uma nova certeza, uma edição renovada, da marcha da corrupção entre mares e campos mambembes.

Devemos agradecer aos que compilam fatos revelados, em tomos e mais tomos sob segredo, sonegando sempre, de “nosotros’, a versão original e completa?

Quanto de poder é retido por quem seleciona o que vazar?

Somos tão incapazes que, em nosso nome, sem prévia combinação, retem-se verdades, seleciona-se o que devemos, ou não, repudiar, a cada semana, tornando-nos, ébrios sem mapa num labirinto sem saída.

Caro VHS!

Montesquieu seria um Maquiável despudorado?

Tim Tim!!!


vitor on 28 Maio, 2016 at 12:59 #

Luiz Fontana, poeta de Marília (SP)

Responda quem souber. Tim Tim!!!


regina on 28 Maio, 2016 at 14:41 #

Bingo, Fontana!!!
Montesquieu e Maquiavel teriam que reinventar suas teorias diante do absurdo brasileiro!!!


Rosane Santana on 28 Maio, 2016 at 19:01 #

E é por essas e outras que não aposto um naco nesse Brad Pitt de Curitiba. Sujeito com pendores hitlerianos.


Rosane Santana on 28 Maio, 2016 at 19:02 #

O pau que dá em Chico, da’ em Francisco!


Sergio Mattos on 29 Maio, 2016 at 18:23 #

Excelente comentário Vitor Hugo. Parabéns. Abracos


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