Bahia em Pauta estende o tapete vermelho nesta terça-feira de maio (24), para orgulhosamente receber Lúcia Jacobina Mesquita entre seus olaboradores.Bravo!!! ( Vitor Hugo Soares)

ARTIGO/ CINEMA

Cinquentenário de “Um Homem, uma Mulher”

Lúcia Jacobina Mesquita

Já se anuncia nas telas o próximo Festival Varilux do Cinema Francês, trazendo a imagem de um casal que se desloca em um conversível vermelho, ao som do famoso “chabadabada” de Francis Lai,certamente uma alusão e uma homenagem ao cinqüentenário do inesquecível filme de Claude Lelouch, “Um homem, uma mulher”.
Em 1966, Claude Lelouch ganhava em Cannes, a Palma de Ouro de Melhor Filme e de Melhor Fotografia. Com apenas vinte e oito anos de idade, era até então o mais novo diretor de cinema a receber a premiação. No ano seguinte, lograria também o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Roteiro Original. Desde logo seu nome se tornou conhecido e filmes se sucederam em sua longa carreira com a mesma temática do amor, contudo sem rivalizar com o sucesso alcançado pela dupla Jean Louis Trintignant e Anouk Aimée.
Não obstante tantas premiações, o filme é esnobado pelos críticos que jamais o colocaram entre os maiores na arte cinematográfica, tampouco Lelouch faz parte da lista dos grandes realizadores mundiais. Pouco importa se a grande crítica não o incluiu entre os mais importantes do cinema. Nem seria preciso, o público já o consagrou.
É curioso assinalar que o filme se insere perfeitamente dentre os paradoxos da década de sessenta, pois ao lado do desprezo pelos preconceitos e da proclamação do amor livre, exalta em contrapartida o romantismo nas relações amorosas. Temos no Brasil, concomitantemente, o exemplo da bossa-nova que se caracterizava pelo culto da mulher novamente galanteada em versos ternos e apaixonados. Para nós, este filme possui ainda um apelo especial por incluir em sua trilha sonorao “Samba da Benção”, de Baden Powell e Vinicius de Morais, na voz de Pierre Barouh.
Projeto de pequeno orçamento e equipe reduzidíssima, rodado em curto espaço de tempo, com sequências coloridas e outras em branco e preto por razões de economia, tendo o próprio diretor como cameraman, “Um homem, uma mulher” conseguiu reunir todos os ingredientes para atrair o público: uma envolvente história de amor, atores jovens e bonitos, locações na costa da Normandia, além da divina música de Francis Lai, autor de memoráveis trilhas sonoras de filmes como “Mayerling”, “Love Story”,“O Passageiro da Chuva” e“Viver a Vida”, entre outros.
Filmado após “Os Amantes”, de Louis Malle,1958, e “Jules et Jim”, de Truffaut, 1962, dois emblemáticos representantes da sétima arte que retrataram a ruptura dos costumes, Lelouch retoma a fórmula romântica ao enfocar o envolvimento de um casal de viúvos,ambos com filhos pequenos, sem conflitos interiores ou condenações externas, tanto que o filme mereceu ainda o prêmio do Ofício Católico de Cinema. Como contraponto ao encanto do amor que se refaz, narra em flashback os desaparecimentos precoces e violentos dos respectivos cônjuges e a aventura como ingrediente essencial e fascinante de suas existências calcadas no risco sempre presente da morte. Justamente a mesma peripécia amorosa que Homero estabeleceu como ponto de ligação entre o épico e o romântico tanto na Ilíada como na Odisséia, elegendo com os casais Páris e Helena, Ulisses e Penélope, arquétipos que até hoje presidem o imaginário do homem ocidental. Essa a explicação que tenho para a permanência deste filme na memória do grande público e o sucesso conseguido desde seu lançamento até os dias atuais.
Em Salvador, estreou no Cine Popular no segundo semestre de 1967, onde foi exibido durante doze semanas mais ou menos, um feito raramente suplantado. Desde aquela época, a polêmica se instaurou. Lembro-me que nosso professor de literatura portuguesa, no Colégio Central, deixou de lado os temas do seu magistério e dedicou toda uma aula para desmerecer o filme,classificando-o como uma película banal cheia de clichês, reduzida a mera propaganda do Mustang da Ford. Devo confessar que nenhuma influência negativa demoveu minha admiração e as incontáveis vezes que o revi no seu lançamento e posteriormente em VHS e DVD. Continua sendo um de meus predileto se detém um local privilegiado na minha estante de cinéfila, justamente por constituir um prazer para os olhos e um presente para a sensibilidade.
Já nos primeiros anos desta nossa década, tive a grata satisfação de ler alguns comentários elogiosos.André Setaro, de saudosa memória, em seu livro“Escritos sobre Cinema” dedica-lhe artigo intitulado “Claude Lelouch é um poeta”, no qual destaca a sequência na qual Trintignant treina no autódromo como “excepcional, com os objetos (os carros capotados, os prédios, as pessoas) adquirindo, na mise-em-scène, uma outra significação – como um artista plástico que se aproveita da sucata para “sugerir” e fazer sua arte”. Em Giusy Pisano, professora e crítica de cinema, que conheci em Montmartre, leio em seu “L’Amour Fou au Cinéma”,lançado em 2010 e ainda sem tradução para o português, a inclusão do filme entre aqueles que enfocam o caso de amor como um conto de fadas, mas noticia algo muito importante que é a forma como repercutiu na política francesa dando o nome à previsão dos partidos de elaborarem as listas “Chabadas” que devem propor alternadamente um homem e uma mulher, tendendo a favorecer o igual acesso dos dois sexos aos mandatos eleitorais e funções eletivas. E para confirmar o acertodessa fórmula, atualmenteHollande decidiu estender essa paridade aos conselhos municipais nas cidades com população superior a 3.500 habitantes.
Quem se der ao trabalho de pesquisar no Google,vai verificar que na França o termo “chabada” apresenta uma variedade de empreendimentos, desde pousadas, programas televisivos, restaurantes, etc. E o sucesso da denominação já ultrapassou as fronteiras francesas para surgir no Brasil no título do livro do jornalista e escritor Chico Sá “Chabadabadá, Modos de Macho e Modinhas de fêmea”, divulgado na mais recente edição da Revista da Livraria Cultura.
Meus votos são os de que mais se faça para a oportuna celebração de “Um homem, uma mulher”.

Lúcia Leão Jacobina Mesquita é ensaísta e autora de “A Aventura da Palavra”.

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Comentários

Cida Torneros on 24 Maio, 2016 at 19:16 #

Cida Torneros on 24 Maio, 2016 at 19:17 #

Vanderlei on 24 Maio, 2016 at 19:39 #

Maravilha! Como faz bem recordar e conhecer a história do filme ” Um Homem e uma mulher”. Voltei o relógio e me vi na década de 60, na cidade de Campinas. Onde andará a namorada que vimos o filme e vivemos um grande amor?
C’est la vie!


SALIN SIDDARTHA on 24 Maio, 2016 at 20:09 #

MUITO OBRIGADO POR RECORDAR-ME O FILME “UM HOMEM E UMA MULHER”. ASSISTI-O DIVERSAS VEZES E ENCANTA-ME TUDO NELE. É UMA DAS MELHORES PELÍCULAS DO CINEMA FRANCÊS (NOVELLE VAGUE) E MUNDIAL.


Vera Lucia de Oliveira on 25 Maio, 2016 at 16:44 #

Querida Lúcia, adorei o seu artigo! Que falta nos faz crítica como a sua, de quem tem sensibilidade e intimidade com o grande cinema! Esse filme é um dos meus favoritos também pela magia, delicadeza e paixão inspiradora… Escreva mais!
Escreva mais


Vera Lucia de Oliveira on 25 Maio, 2016 at 16:45 #

Querida Lúcia, adorei o seu artigo! Que falta nos faz crítica como a sua, de quem tem sensibilidade e intimidade com o grande cinema! Esse filme é um dos meus favoritos também pela magia, delicadeza e paixão inspiradora… Escreva mais!


Eloísa Campos on 27 Maio, 2016 at 15:40 #

Belíssima apreciação sobre o filme. Revela sua inteligência, conhecimento e sensibilidade . Parabéns!!!


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