José Serra fala ao assumir o Itamaraty (Relações Exteriores)


…e depois do exílio no Chile, abre em 79, na Bahia,
o congresso de ressurgimento da UNE (31º )

ARTIGO DA SEMANA

Voo de Serra: da Ação Popular (AP) ao Itamaraty e…

Vitor Hugo Soares

O paulistano, natural do bairro da Mooca, José Serra que aos 74 anos de idade acaba de assumir, com voz altiva e luz própria, o comando do Ministério das Relações Exteriores, do Governo Michel Temer (seja por quanto tempo for), iniciou a sua mais nova experiência de poder e gestão “pisando nos cascos”, na expressão bem ao gosto dos soteropolitanos para definir políticos audaciosos e administradores públicos arrojados. Do tipo que, no dizer de Ulysses Guimarães, “não vai ao Rubicão para beber água, mas sim para fazer história”.

A referência local na contextualização de abertura deste artigo, sobre o político tarimbado e qualificado gestor de São Paulo, se deve não apenas ao fato de que escrevo “da cidade de todos os santos e de quase todos os pecados”, (na definição mais que perfeita do saudoso cronista do cotidiano, Nelson Gallo). Mas, principalmente, pela histórica ligação do novo comandante da política externa do País com a terrinha.

Vem do tempo da organização e promoção de movimentos e grandes eventos da política estudantil, no começo dos anos 60, com a participação direta de Serra, o ex-presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes), conduzido ao posto pela atuação decisiva de representantes da então militância baiana da AP (Ação Popular), entidade ligada à esquerda católica, de sólida formação intelectual e cultural. A AP mantinha em Salvador, na época, uma das suas bases mais cultas, atuantes e politicamente mais influentes do País. Para purgação e desespero do conservador e agressivo arcebispo Primaz do Brasil, cardeal D. Augusto da Silva.

A atuação local de Serra, portanto, vem de longe. A começar pela realização, em Salvador, do famoso Congresso Internacional dos Estudantes do Mundo Subdesenvolvido citado por muitos historiadores, nacionais e brasilianistas, como um dos principais estopins para o golpe de 1964, que depôs o Governo João Goulart. Algo bem distante e diferente do que acontece, agora, com Dilma Rousseff constitucionalmente afastada da presidência, mas que insiste em tentar vender, aqui dentro e lá fora, a ideia de novo “golpe”, à imagem e semelhança daquele que brutalmente afastou Jango por décadas. Até a morte suspeita no exílio, a poucos quilômetros da fronteira do Brasil , mas impedido de retornar ao seu Rio Grande do Sul e ao seu País.

Nas andanças por Salvador – mais freqüentes e cheias de significados políticos e pessoais do que muitos imaginam – desde a juventude (incluindo os mais recentes carnavais do axé), o recém empossado ministro, diz e repete sempre que retorna a estas bandas do Nordeste: “aprendi a fazer política na Bahia, e não em São Paulo”.

Alguns provavelmente dirão: “a frase em si diz pouca coisa, ou quase nada. Outros ficarão com um pé atrás e pensarão: isso não passa de mero exercício de retórica, de movimento estudantil ou de candidato em cima de palanque, em tempo de campanha eleitoral. Serra estaria assim, para estes, simplesmente imitando o que costuma (ou costumava?) fazer o ex-presidente Lula, em seus comícios e entrevistas na capital ou no interior do estado: “alguma coisa dentro de mim grita que em outra geração eu nasci baiano”. Apelo certeiro – e praticamente irresistível, durante muito tempo – ao espiritualismo e sempre proclamado sentimentos místicos “da minha boa gente baiana”, das saudações nos anos 50, do ex-governador e brilhante tribuno do Senado, Antonio Balbino de Carvalho Filho, no tempo em que era ele quem mandava na Bahia.

Seja como for, tenha ou não a tradição local algo a ver com isto, o fato é que Serra (PSDB), – no recém inaugurado governo de Michel Temer (PMDB), – já emitiu, em menos de 10 dias, sinais afirmativos e eloquentes indicativos de que é possível a rápida superação da mambembe “diplomacia” da política exterior, praticada em mais de cinco anos de governo petista de Dilma (quatro do primeiro e mais de um do segundo mandato).

Triste e deletéria fase em que embaixadas foram transformadas em aparelhos partidários, e diplomatas viraram meros boquirrotos e arrogantes militantes políticos de um governo marcado por malfeitos e corrupção, da grossa, sem projeto e sem rumo, acusado de graves crimes administrativos, condutores do País à petição de miséria em que se encontra.

Ao assumir o comando do Ministério das Relações Exteriores Serra assinalou, em seu discurso de posse, que a diplomacia brasileiro voltará a refletir legítimos valores da sociedade e os interesses da economia a serviço de todos. Além disso, o que não é pouco, assegurou que o Brasil estará atento à defesa da democracia e dos direito humanos em qualquer país do mundo. “A nossa política externa será regida pelos valores do Estado e da Nação, não do governo e jamais de um partido”, concluiu o novo chefe do Itamaraty, tarimbado em outros embates da política e da gestão pública.

Se seguir na mesma pisada, José Serra promete ir longe, muito longe. Até onde é difícil prever ainda. Arrisque um palpite ou responda quem souber.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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