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Postado em 16-05-2016
Arquivado em (Artigos) por vitor em 16-05-2016 00:29

O artigo do jornalista Augusto de Franco foi publicado na imprensa de Brasília e selecionado e sugerido para publicação pelo ex-repórter do Jornal do Brasil, amigo do Bahia em Pauta, Antonio Jorge Moura.BP agradece ( Vitor Hugo Soares)

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O governo Temer será um governo ordinário. Ainda bem!

Augusto de Franco

Michel Temer cuidou, até agora, de fazer alianças com os partidos para ter governabilidade no parlamento. É claro que isso implicaria fazer concessões ao fisiologismo. Só porque Dilma saiu, isso não significa que o nosso velho sistema político tenha se renovado por milagre. Não! Com algumas exceções, são os mesmos atores – que estavam até ontem na base do governo do PT – que agora estão na base do governo Temer. Dilma tinha 9 ministros investigados pela Lava Jato. Temer tem 3. Sabem o que isso significa? Nada!

O velho sistema político apodreceu e continuaria podre com Dilma, assim como continuará podre com Temer. A convocação de novas eleições gerais, neste momento, não consertaria isso, como propagam os oportunistas do tipo de Marina. Alguém tem dúvidas de que seriam eleitas (com algumas exceções) pessoas muito parecidas com as que estão aí?

Antes de qualquer coisa porque não é um problema dos indivíduos. As pessoas envolvidas com a política são, basicamente, as mesmas que existem em todo lugar (são parecidas com as pessoas que você encontra nas empresas e em outras organizações, ainda que o Estado atraia, em maior número, sociopatas e até psicopatas; muitos – a imensa maioria – não têm a menor noção do que é democracia e alguns têm tendências claramente autocráticas). Foi o sistema – do modo que está organizado e funciona – que apodreceu, não os indivíduos (supostamente por falta de berço, de religião, de educação – quer dizer, de disciplinamento via ensino – e de outras patifarias autocráticas). Não há um contingente de irmãs Carmelitas Descalças (ver foto) só esperando uma oportunidade para entrar na política, purificá-la e renová-la. Não é assim que funciona. Não se trata de excluir as maçãs podres. As maçãs ficam podres (mesmo que não tenham chegado à política nesta reconhecida condição) porque o sistema funciona de modo a incentivar a corrupção (inicialmente para financiar a reeleição e em seguida para o locupletamento individual), o conchavo contra os interesses da maioria, o jeitinho, o levar vantagem, a privatização do público et coetera. É por isso que há sempre uma dose de corrupção endêmica na política, inclusive na política democrática (e isso é assim desde Péricles, o principal expoente da nascente democracia ateniense no século 5 AEC).

Mas as pessoas têm imensa dificuldade de entender que os democratas não estamos preocupados, nem apenas, nem principalmente, com a corrupção de Péricles (que foi acusado – entre outras coisas, de conspirar com uma pessoa tida por prostituta, Aspásia, que nem cidadã de Atenas era, posto que natural de Mileto – de desviar dinheiro da construção do Partenon arruinando as contas da cidade e de ter nomeado irregularmente um filho para um cargo público). O que nos assusta é a honestidade de Leônidas (o autocrata espartano, conquanto ele fosse um verdadeiro varão de Plutarco, com certeza muito mais honesto individualmente do que Péricles). Mas se você não entendeu por que a honestidade de Leônidas é infinitamente pior do que a corrupção de Péricles, você não entendeu nada da democracia.

Ademais, as pessoas em geral não entendem que essa corrupção endêmica é tão diferente da corrupção sistêmica quanto um batedor de carteira da esquina é diferente da Máfia; ou quanto um tradicional populista latino-americano, como Lázaro Cárdenas (o político do PRI mexicano), é diferente de um Vladimir Putin (o representante do governo de assassinos da FSB, ex-KGB); ou, ainda, quanto um Rafael Caldera é diferente de um Hugo Chávez.

O problema para a democracia é quando a corrupção endêmica da política realmente existente é aproveitada (ou instrumentalizada) para autocratizar o regime político, criando condições para que uma organização consiga privatizar partidariamente a esfera pública com o fito de tomar o poder e retê-lo em suas mãos por tempo indeterminado de sorte a nunca mais sair do governo.

É claro que é melhor ter pessoas honestas. Mas não é uma questão de anjos x demônios. Uma multidão de pessoas honestas não faz um governo honesto se o sistema político como um todo – na sua estrutura e na sua dinâmica – não for alterado. Mil clones de Mohandas Gandhi organizados hierarquicamente e regulados autocraticamente em um exército, não tornariam essa força militar mais cooperativa ou mais preparada para a paz do que para a guerra. Vejam a falta que faz a compreensão das redes e da democracia!

Portanto, não se espere de Temer um governo de santos. Será um governo como outro qualquer (com sua dose “normal” ou habitual de corrupção no Brasil), exercido nos marcos da nossa democracia representativa (que, como se sabe, é bastante flawed). Não se espere dele, também, um governo ultra-eficiente. Não será o governo dos sonhos de ninguém. Não será o governo das novas democracias mais interativas, mais distribuídas, mais diretas e mais substantivas que queremos ver emergir no terceiro milênio. Mas ser um governo como outro qualquer, um governo ordinário, já é infinitamente melhor do que ser um governo extraordinário à serviço de um projeto autocratizante de poder. Não queremos – e não podemos pretender – ter um governo que faz milagres e, nem mesmo, um governo escandinavo nas condições do Brasil.

Atenção! É muito difícil entender o que vai ser dito agora, considerando a cultura política predominante sobre nós. Um bom governo é aquele que a gente nem conhece direito, mas está seguro de que ele está cumprindo o seu papel (você sabe os nomes dos governantes da Suíça, da Noruega e da Finlândia? Pois é). Não é aquele que tem um líder com alta gravitatem, que perturba todo o campo social, polariza as atenções, nos transforma em seus fãs para – ao final – nos conduzir como gado. Não é aquele que nos arregimenta para nos comandar em uma guerra contra inimigos imaginários. Não é aquele que mesmeriza as massas e vive trepado em palanques. Um bom governo é um governo de simples funcionários públicos: quanto mais anonimamente trabalharem, quanto mais discretamente se comportarem, melhor. Um governo exercido por nossos empregados (pois somos nós que pagamos seus salários), não um governo de nossos patrões. Governos existem – nas democracias realmente existentes – para servir a sociedade e não para servirem-se dela transformando-nos de cidadãos em súditos.

Por tudo isso, governos ordinários – que façam seu trabalho e nos deixem trabalhar, que cuidem de seus assuntos e não queiram ficar toda hora se metendo nos nossos – são sempre preferíveis a governos extraordinários, que querem salvar a humanidade, reformar a sociedade e o ser humano e nos tanger para qualquer paraíso que imaginaram. Quando um governo assim aparece, o melhor é fugir para as montanhas.

O governo ordinário de Temer não vai conseguir fazer – em pouco mais de 2 anos e muito menos em 180 dias – tudo que precisa ser feito no Brasil. Imaginar o contrário é se iludir para – como torcem os que foram apeados ontem do poder – depois se desiludir (só pode se desiludir quem se iludiu). Talvez este governo não consiga fazer nem 20% do que imaginou ser capaz de realizar. Mas é preciso que ele entenda as circunstâncias que lhe deram origem. É um governo que assume em razão dos descalabros produzidos pelo projeto do PT. Seu papel principal é criar condições para que os autocratas que reinaram sobre nós – e nos infelicitaram tanto na última década – nunca mais voltem ao poder (não, pelo menos, enquanto não se converterem à democracia).

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