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Postado em 14-05-2016
Arquivado em (Artigos) por vitor em 14-05-2016 01:21


Temer e novos ministros assumem…


…e Ulysses sob o céu de Brasília

ARTIGO DA SEMANA

Temer e Dilma : sombras de Ulysses em Brasília

Vitor Hugo Soares

“A oposição é atividade estatal. Subversão não é exercê-la, mas embaraçá-la ou impedí-la. Como é inevitável que os governos cometam erros e abusos, também é inevitável denunciá-los. É o princípio da oposição do Estado ao Governo do Estado”.
(Ulysses Guimarães, o saudoso parlamentar e símbolo de homem público da resistência democrática e constitucional no Brasil, cujo corpo despareceu no mar, mas o espírito encantado muitos juram ter visto rondando sobre o Planalto Central, nestes dias ardentes e encrespados de maio. Do livro “Rompendo o Cerco”, no capítulo das 100 melhores frases do deputado, selecionadas por dona Mora, sua mulher, também desaparecida e encantada).

Brasília ferve na quinta-feira, 12 de maio de 2016, que se inscreve, dentro e fora do País, “em letras garrafais” – para usar a expressão de linguagem castiça do novo presidente, Michel Temer, no discurso depois da posse dos novos ministros, ao assumir as funções constitucionais de substituto da mandatária Dilma Rousseff, afastada do cargo em votação contundente do Senado, 55 a 22, resultado implacável que parece sinalizar para uma saída sem retorno e muito além dos 180 dias que tem para se defender, no processo de impeachment a que responde.
Na fala de Temer, já quase no final do dia, aparecem os sinais mais nítidos das sombras de Ulysses Guimarães, que muitos juram, de pés juntos, ter visto sobrevoando sobre a noite e madrugada de Brasília.

A manhã no Palácio do Planalto e suas redondezas, no entanto, ainda está povoada de rostos cansados e gente com nervos à flor da pele diante do desfecho previsível, mas que os donos do poder, nos últimos 14 anos, sempre preferiram não enxergar, ou fazer de conta que nada disso tem a ver com eles.

Mas “Sua Excelência, o fato”, é implacável (outra vez a presença do desaparecido timoneiro). Dilma acabara de ser comunicada formalmente, por um emissário do presidente do Senado, Renan Calheiros, sobre o seu afastamento do cargo e intimada a promover a sua defesa. No amplo salão do palácio já a esperam, para o discurso da despedida, e não há tempo a perder: parlamentares, ministros, que acabam de ser demitidos, aliados mais próximos, formam o grupo restrito ao lado da mandatária. A imprensa foi convocada, “sem direito a perguntas”.

As cenas na tela da TV, que vejo em Salvador, mostram quase todos abatidos pela noite e madrugada insones, pontilhadas de más notícias que chegavam do Senado, aos borbotões, enquanto durou a votação crucial. E, principalmente, quanto às perspectivas imprevisíveis e nada animadoras para os donos do poder, há quatro de mandatos seguidos, nesta nova encruzilhada política e governamental que se desenha no País.

Dilma aparenta mais tranquilidade (ou seria alívio?) diante da derrota acachapante, que ela recebe com naturalidade e algum desdém: “Era o previsível”, comenta ao telefone ao receber de um aliado fiel a notícia do resultado final da votação, segundo relato da Folha de São Paulo. Até arruma melhor a sua fala, para a saída do Palácio do Planalto, em comparação com o furdunço anárquico e descontrolado dos últimos dias. Repete, é verdade, a cantilena do “é golpe”, mas acrescenta apelo político e humano novo, e, seguramente, de impacto ao público interno e internacional que ela e seu partido, o PT, pretendem alcançar a partir de agora. “A maior brutalidade a ser cometida contra um ser humano: puní-lo por um crime que não cometeu”, diz a presidente que acaba de ser afastada. “O que está em jogo no processo de impeachement não é apenas meu mandato. Está em jogo o respeito às urnas, à vontade da Constituição. O que está em jogo são as conquistas dos últimos 13 anos”, completa.

Em seguida, caminha para fora das dependências do palácio de governo, cercada de ex-ministros, parlamentares, aliados e fiéis escudeiros de seu segundo mandato. Perto dela, o ex-presidente Lula, meio atarantado, não consegue esconder ou disfarçar seu aturdimento, e forte abatimento, com a inesperada situação. Pela porta de saída do andar térreo, vai em direção dos representantes dos “movimentos sociais” e da “militaância petista e do PC do B” que a esperavam do lado de fora, na rua.

O que se vê e se ouve em seguida é desastroso, desalentador e lamentável. Gritos de guerra da política, acompanhados de ofensas à imprensa e de agressões físicas a jornalistas no livre exercício da profissão. Quatro profissionais da Rede Globo e do canal privado Globo News (entre eles a referencial repórter Zileide Silva) são xingados, chutados, esmurrados e, um deles, cinegrafista, derrubado no meio fio da calçada com seu equipamento.
O repórter da Globo News ainda acha alento e coragem para perguntar a Jaques Wagner, que vem em seu socorro e tenta afastar os vândalos: “Para onde vai a presidente Dilma agora?”. E o ex-polivalente ministro petista, que já mandou sua mobília de volta para a Bahia, em avião da FAB, responde: “Vai para o Palácio da Alvorada, para liderar a resistência.
Desce a cortina e estamos de volta às sombras de Ulysses Guimarães, que outra vez sobrevoam a imensidão do Planalto Central do País, como o canto tropicalista de Caetano Veloso, na abertura da novela “Velho Chico”
No sétimo mandamento de seu fundamental “Decálogo do Estadista” – a Paciência – , o saudoso timoneiro da horas turvas da política brasileira estabelece: A impaciência é uma das faces da estupidez. Paciência é a competência para fazer a hora, seguindo a receita genial de Geraldo Vandré.

O estadista tem a paciência de escutar, não é falastrão. Saber escutar é um dom político.”Deus deu ao homem dois ouvidos e uma boca, para que ouça o dobro do que fala. A santa paciência de escutar. A misericordiosa paciência de ouvir os redescobridores da roda, os inventores da quadratura do círculo, os chatos que não lhe deixa ficar só e não lhe fazem companhia, como lamenta o filósofo Benedetto Croce. Como o peixe, o mau político apodrece pela cabeça, e morre pela boca”.

Que Temer tenha capacidade de escutar e, principalmente, seguir o mandamento de seu antigo mestre e guia da política. A conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra. com.br

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 14 Maio, 2016 at 10:45 #

Caro VHS!

E caminharam tanto, que não perceberam que estavam no mesmo lugar, as vestes rotas, os pés lacerados, por nada, por coisa alguma, apenas cansados, estropiados e de volta ao ponto de partida, não lhes restou sequer o mapa, rasgado, manchado, sem serventia, nunca conseguiram entender os sinais.

Décadas se foram, trocaram até o Sarney, por outro já também gasto, testemunhando que o ambiente não mudou.

Livraram-se, é verdade, da barbárie, da estultice, da arrogância, ao menos isto.

A imagem de um Lula abatido, calado, perdido no olhar, tentando entender porque o exercito de Stedile não estava invadindo o planalto, valeu como símbolo da derrota vil.

Dilma, em completa dissociação com a realidade, fingia glória confraternizando-se com o punhado arrebanhado que lhe ofereceram como claque.

O discurso de Temer, em meio ao caos da cerimônia, diluiu-se, até pela falta de atenção dos presentes.

Exaustos, pela vigília da madrugada anterior, nem perceberam que o inimigo não batera em retirada, por uma razão simples, não havia exercito para retirar, eram réplicas de incômodos foliões ao meio dia da quarta de cinzas. Sem som, sem voz, sem o que lamentar, falsetes postos a nu em rito morno e constitucional.

Pior foi a sexta, pior foi o dia 13 que se seguiu ao enterro do 13.

Temer enviou seu arauto para anunciar os novos tempos, este, por vicio de origem, no lugar de atos ofereceu prólogos, prenhes de promessas de diagnósticos, sem sequer oferecer um misero analgésico. Confie, repetiu, confie, sem dizer em que ou como.

Se Ulysses sobrevoou, certamente o foi por brevíssimo tempo, e fez bem em encurtar o sobrevoo, o tempo é cerrado, o horizonte comprometido, os instrumentos de voo obsoletos.

Caro VHS!

Ao menos, o exercito de Stédile, só é real nos delírios etílicos de quem o convocou.

O Lula perdido, só, roto, sem jaça, traduz os 13 anos perdidos, embora não pague a conta.

Tim Tim!!!


Taciano Lemos de Carvalho on 14 Maio, 2016 at 11:52 #

Enquanto o espírito de Ulysses rondava o Planalto, vampiros e zumbis deixavam o lugar. E outros (não seriam parte dos mesmos?) assumiam o governo.

Para nos vermos livres de todos esses vampiros, dessas falanges de zumbis —se é que podemos dizer assim— só usando estaca de madeira, se é que algum deles tem coração. E ter muita fé na cruz que se possa empunhar. Estou falando numa fé que não é, certamente, a falsa e demagógica fé de muitos dos deputados e senadores.


vitor on 14 Maio, 2016 at 14:41 #

Luiz Fontana:

Maravilha de comentário, poeta de Marília (SP)!!! De embasbacar qualquer um. Tim Tim!!!


luiz alfredo motta fontana on 14 Maio, 2016 at 17:16 #

Grato VHS

Fica o convite, fechar este sábado ao som de uma obra prima em vinil

https://www.youtube.com/watch?v=YsnlFAywhIc


Chico Bruno on 14 Maio, 2016 at 18:47 #

Bravo!


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