BOA NOITE!!!


“As Mulatas”: quadro de Di Cavalcanti no Palácio do Planalto.

CRÔNICA

O que dizem as paredes de Brasília

Janio Ferreira Soares

Sempre achei que as paredes, além de ouvidos, têm bocas. Portanto, nada mais natural que nas madrugadas do Palácio do Planalto, as divisórias de tijolo que por lá mureiam aproveitem o silêncio que sucede os conchavos para papear sobre os mais diversos assuntos, que só findam quando os primeiros clarões entram pelas frestas alertando-as de que está na hora de voltar a se fazer de mortas para captar as espertezas dos vivos. No embalo dessa fantasia, segue um provável diálogo ocorrido no Gabinete Presidencial na madrugada dessa sexta-feira, 13 de maio, depois que o Senado afastou a presidente Dilma de suas funções.

“E aí, preparada para os novos inquilinos?”. “E desde quando a gente não esteve?Parece que foi ontem que aquele lunático das Alagoas pegou sua deslumbrada de Canapi e chispou daqui levando consigo a peculiar soberba dos insanos,lembra? Sem falar em Jango, que foi corrido pelos milicos, e no fofo do Tancredo, coitado, que sequer teve a chance de nos aproveitar,como fazia Jânio Quadros, que antes de sair achando que voltaria nos braços do povo, bebia todas e ficava zanzando pelos corredores a declamar vocábulos como se estivesse embriagado de Aurélio, vodca e Houaiss. Quando é agora, depois de 20 anos de uma certa calmaria sob o comando de FHC, Lula e do primeiro mandato dessa mau humorada que implicava até com as mulatas de Di Cavalcanti penduradas no mezanino, mais uma vez vamos ter que nos adaptar a uma nova turma que, aqui pra nós, só é nova no nome.A propósito, você tem alguma informação sobre quem são os ministros que virão despachar aqui?”. “Já estão confirmados Jucá,Picciani, Moreira Franco, Geddel, Kassab, Sarney Filho, Henrique Alves….”.

Ao ouvir esses nomes os orixás da tela de Djanira entram em transe e as corujas piam. O cinza do alvorecer chega rápido,assim como Renan e Feliciano, que logo chegarão para acertos com nosso simpático vampiro bem casado. “Espero não sentir saudades da Erenice”. “Amiga…!, você já viu o vice-presidente Maranhão de perto?”.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura da Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco.


BOM DIA!!!

maio
14


Temer e novos ministros assumem…


…e Ulysses sob o céu de Brasília

ARTIGO DA SEMANA

Temer e Dilma : sombras de Ulysses em Brasília

Vitor Hugo Soares

“A oposição é atividade estatal. Subversão não é exercê-la, mas embaraçá-la ou impedí-la. Como é inevitável que os governos cometam erros e abusos, também é inevitável denunciá-los. É o princípio da oposição do Estado ao Governo do Estado”.
(Ulysses Guimarães, o saudoso parlamentar e símbolo de homem público da resistência democrática e constitucional no Brasil, cujo corpo despareceu no mar, mas o espírito encantado muitos juram ter visto rondando sobre o Planalto Central, nestes dias ardentes e encrespados de maio. Do livro “Rompendo o Cerco”, no capítulo das 100 melhores frases do deputado, selecionadas por dona Mora, sua mulher, também desaparecida e encantada).

Brasília ferve na quinta-feira, 12 de maio de 2016, que se inscreve, dentro e fora do País, “em letras garrafais” – para usar a expressão de linguagem castiça do novo presidente, Michel Temer, no discurso depois da posse dos novos ministros, ao assumir as funções constitucionais de substituto da mandatária Dilma Rousseff, afastada do cargo em votação contundente do Senado, 55 a 22, resultado implacável que parece sinalizar para uma saída sem retorno e muito além dos 180 dias que tem para se defender, no processo de impeachment a que responde.
Na fala de Temer, já quase no final do dia, aparecem os sinais mais nítidos das sombras de Ulysses Guimarães, que muitos juram, de pés juntos, ter visto sobrevoando sobre a noite e madrugada de Brasília.

A manhã no Palácio do Planalto e suas redondezas, no entanto, ainda está povoada de rostos cansados e gente com nervos à flor da pele diante do desfecho previsível, mas que os donos do poder, nos últimos 14 anos, sempre preferiram não enxergar, ou fazer de conta que nada disso tem a ver com eles.

Mas “Sua Excelência, o fato”, é implacável (outra vez a presença do desaparecido timoneiro). Dilma acabara de ser comunicada formalmente, por um emissário do presidente do Senado, Renan Calheiros, sobre o seu afastamento do cargo e intimada a promover a sua defesa. No amplo salão do palácio já a esperam, para o discurso da despedida, e não há tempo a perder: parlamentares, ministros, que acabam de ser demitidos, aliados mais próximos, formam o grupo restrito ao lado da mandatária. A imprensa foi convocada, “sem direito a perguntas”.

As cenas na tela da TV, que vejo em Salvador, mostram quase todos abatidos pela noite e madrugada insones, pontilhadas de más notícias que chegavam do Senado, aos borbotões, enquanto durou a votação crucial. E, principalmente, quanto às perspectivas imprevisíveis e nada animadoras para os donos do poder, há quatro de mandatos seguidos, nesta nova encruzilhada política e governamental que se desenha no País.

Dilma aparenta mais tranquilidade (ou seria alívio?) diante da derrota acachapante, que ela recebe com naturalidade e algum desdém: “Era o previsível”, comenta ao telefone ao receber de um aliado fiel a notícia do resultado final da votação, segundo relato da Folha de São Paulo. Até arruma melhor a sua fala, para a saída do Palácio do Planalto, em comparação com o furdunço anárquico e descontrolado dos últimos dias. Repete, é verdade, a cantilena do “é golpe”, mas acrescenta apelo político e humano novo, e, seguramente, de impacto ao público interno e internacional que ela e seu partido, o PT, pretendem alcançar a partir de agora. “A maior brutalidade a ser cometida contra um ser humano: puní-lo por um crime que não cometeu”, diz a presidente que acaba de ser afastada. “O que está em jogo no processo de impeachement não é apenas meu mandato. Está em jogo o respeito às urnas, à vontade da Constituição. O que está em jogo são as conquistas dos últimos 13 anos”, completa.

Em seguida, caminha para fora das dependências do palácio de governo, cercada de ex-ministros, parlamentares, aliados e fiéis escudeiros de seu segundo mandato. Perto dela, o ex-presidente Lula, meio atarantado, não consegue esconder ou disfarçar seu aturdimento, e forte abatimento, com a inesperada situação. Pela porta de saída do andar térreo, vai em direção dos representantes dos “movimentos sociais” e da “militaância petista e do PC do B” que a esperavam do lado de fora, na rua.

O que se vê e se ouve em seguida é desastroso, desalentador e lamentável. Gritos de guerra da política, acompanhados de ofensas à imprensa e de agressões físicas a jornalistas no livre exercício da profissão. Quatro profissionais da Rede Globo e do canal privado Globo News (entre eles a referencial repórter Zileide Silva) são xingados, chutados, esmurrados e, um deles, cinegrafista, derrubado no meio fio da calçada com seu equipamento.
O repórter da Globo News ainda acha alento e coragem para perguntar a Jaques Wagner, que vem em seu socorro e tenta afastar os vândalos: “Para onde vai a presidente Dilma agora?”. E o ex-polivalente ministro petista, que já mandou sua mobília de volta para a Bahia, em avião da FAB, responde: “Vai para o Palácio da Alvorada, para liderar a resistência.
Desce a cortina e estamos de volta às sombras de Ulysses Guimarães, que outra vez sobrevoam a imensidão do Planalto Central do País, como o canto tropicalista de Caetano Veloso, na abertura da novela “Velho Chico”
No sétimo mandamento de seu fundamental “Decálogo do Estadista” – a Paciência – , o saudoso timoneiro da horas turvas da política brasileira estabelece: A impaciência é uma das faces da estupidez. Paciência é a competência para fazer a hora, seguindo a receita genial de Geraldo Vandré.

O estadista tem a paciência de escutar, não é falastrão. Saber escutar é um dom político.”Deus deu ao homem dois ouvidos e uma boca, para que ouça o dobro do que fala. A santa paciência de escutar. A misericordiosa paciência de ouvir os redescobridores da roda, os inventores da quadratura do círculo, os chatos que não lhe deixa ficar só e não lhe fazem companhia, como lamenta o filósofo Benedetto Croce. Como o peixe, o mau político apodrece pela cabeça, e morre pela boca”.

Que Temer tenha capacidade de escutar e, principalmente, seguir o mandamento de seu antigo mestre e guia da política. A conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra. com.br

maio
14
Posted on 14-05-2016
Filed Under (Artigos) by vitor on 14-05-2016


Sinfrônio, no Diário do Nordeste (CE)

DEU NO BLOG POR ESCRITO ( DO JORNALISTA LUIS AUGUSTO GOMES)

Pinheiro equilibra-se em muro alto

Não se conheciam os dotes de mestre de obras do senador Walter Pinheiro, mas o fato é que, nos últimos tempos, ele veio construindo um muro no qual se instalou, pois seus posicionamentos recentes caracterizam-se pela falta de clareza.

O senador desfiliou-se do PT após cerca de 30 anos, fazendo objeções ao partido e ao governo da presidente Dilma. Entretanto, na Bahia, prepara-se para ser secretário do governo petista de Rui Costa, o que o deixará, pelo menos, numa situação insólita.

É possível – e isto seria de certa forma decepcionante para seus admiradores – que o tenha feito para, em tempos difíceis que se prenunciam, ter o conforto de uma Secretaria da Educação para o embate eleitoral, para ciúme de antigos companheiros que não disporão de tão farto maná.

A declaração de voto contra o impeachment, na madrugada de quinta-feira, foi uma proeza de Pinheiro para tentar encaixar-se na moldura: “Votar pela admissibilidade seria premiar um ou outro, sendo que os dois são responsáveis”, disse, referindo-se a Temer, quando é Dilma a única responsável por tudo. E foi fraca a imagem do “casal que se separa”.

Discurso inconsistente atinge Senado

Insistindo na ideia de marcar novas eleições através de PEC, Pinheiro atacou duplamente o Senado, ao apontar a agilidade da Casa na aprovação da “janela” da troca partidária e, mais remotamente, na concessão de “mais um ano para Sarney”.

Esquecendo a inconstitucionalidade da proposta, pois seria cassar os mandatos da presidente e do vice sem julgamento e com menos votos do que exige a Constituição, a remissão ao distante ano de 1988 traz uma imprecisão que pode confundir.

Na verdade, ao vencer no Colégio Eleitoral o pleito indireto de 1985 a chapa Tancredo Neves-José Sarney, o compromisso da Aliança Democrática, como se chamava o movimento que a lançou, era governar por quatro anos.

Ocorre que o mandato de presidente da República era de seis anos, tendo sido o último general-presidente, João Figueiredo, o único a exercê-lo nesses moldes.

Tancredo, de fato, tinha o compromisso da redução para quatro anos. Morto o presidente eleito, coube a Sarney conduzir o processo, e foi a Constituinte “livre e soberana”, pela qual tanto o país lutou, a reduzir-lhe o mandato para cinco anos.


Com os aplausos calorosos do BP à atriz Cristiane Torloni, a Yolanda da novela “Velho Chico”, pelo notável desempenho no capítulo de ontem. 13. Bravíssimo!!!

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

maio
14
Posted on 14-05-2016
Filed Under (Artigos) by vitor on 14-05-2016

DEU NO BLOG O ANTAGONISTA

A aula de soberania de José Serra

José Serra inaugurou uma nova era no Itamaraty. Em seu primeiro dia como ministro das Relações Exteriores, divulgou duas notas rebatendo críticas de órgãos regionais ao impeachment de Dilma.

O Antagonista reproduz os textos na íntegra e parabeniza o novo chanceler pela postura correta em defesa da soberania brasileira, tão aviltada pelo PT.

Nota 176

“O Ministério das Relações Exteriores rejeita enfaticamente as manifestações dos governos da Venezuela, Cuba, Bolívia, Equador e Nicarágua, assim como da Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América/Tratado de Comércio dos Povos (ALBA/TCP), que se permitem opinar e propagar falsidades sobre o processo político interno no Brasil. Esse processo se desenvolve em quadro de absoluto respeito às instituições democráticas e à Constituição Federal.

Como qualquer observador isento pode constatar, o processo de impedimento é previsão constitucional; o rito estabelecido na Constituição e na Lei foi seguido rigorosamente, com aval e determinação do STF; e o Vice-Presidente assumiu a presidência por determinação da Constituição Federal, nos termos por ela fixados.”

Nota 177

“O Ministério das Relações Exteriores repudia declarações do Secretário-Geral da UNASUL, Ernesto Samper, sobre a conjuntura política no Brasil, que qualificam de maneira equivocada o funcionamento das instituições democráticas do Estado brasileiro.

Os argumentos apresentados, além de errôneos, deixam transparecer juízos de valor infundados e preconceitos contra o Estado brasileiro e seus poderes constituídos e fazem interpretações falsas sobre a Constituição e as leis brasileiras. Além disso, transmitem a interpretação absurda de que as liberdades democráticas, o sistema representativo, os direitos humanos e sociais e as conquistas da sociedade brasileira se encontrariam em perigo. A realidade é oposta.

Tais juízos e interpretações do Secretário-Geral são incompatíveis com as funções que exerce e com o mandato que recebeu do conjunto de países sul-americanos nos termos do Tratado Constitutivo e do Regulamento Geral da UNASUL.”

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