DEU NO BLOG POR ESCRITO (DO JORNALISTA LUIS AUGUSTO GOMES)

Temer deverá ser efetivado em julho

A consumação informal do afastamento de Dilma Rousseff do cargo de presidente da República saiu às 3h19 da madrugada de hoje, quando discursou o 41º senador favorável ao impeachment, mas era necessário, por simbolismo de que ela não volta mais, que o placar final mostrasse número suficiente para a cassação definitiva.

Isso ocorreu. O resultado de 55 a 22 ultrapassa em um voto a marca fatal, e esse resultado ficará ligeiramente maior dentro de dois meses, quando, apesar da disponibilidade de 180 dias, é de se presumir que o julgamento chegará ao final – meados de julho –, pois não haverá interesse de estender por muito tempo esta agonia.

Feita essa previsão de natureza cronológica, reforce-se a primeira, sobre a saída definitiva de Dilma: mais fácil do que ela voltar a despachar no Planalto seria a queda do próprio novo presidente, Michel Temer, não tanto por eventual ligação de seu nome a falcatruas quanto por uma decisão do TSE, cassando por crime eleitoral a chapa em que figurou como vice.

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Novo presidente terá “crédito de confiança”

Data: 12/05/2016
11:17:25

Assim mesmo, é difícil que isso venha a acontecer, especialmente por agora, com o país vivendo terrível e já muito longínqua crise e precisando recuperar a confiança popular e o dinamismo administrativo.

Temer deverá receber do establishment um prazo de carência, do contrário a opção seria uma nova eleição ainda este ano, capaz de gerar forte instabilidade social ante o clima instalado.

Citada acima no sentido tão amplo quanto possível – a depender apenas do papel a ser jogado pela imprensa tendo em vista seu patrimônio de credibilidade –, a entidade establishment envolve a classe política, o setor econômico e as cúpulas do Judiciário.

Todos concorrerão, dentro do limite do razoável, para a retomada da normalidade na vida nacional. A lógica do poder é diferente do sonho romântico da sociedade, pelo qual, por exemplo, Temer deveria também ser punido se algo ficasse provado contra ele. E mesmo a população, por enquanto, quererá mais paz que agitação.

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Comentários

Rosane Santana on 13 Maio, 2016 at 16:51 #

Desculpe, caro Luís, mas o Brasil não vive uma crise econômica terrível e longínqua. O Brasil vive, sim, um descrédito total, absoluto do establishment, esse mesmo que você diz que afiançara’ Temer. De que maneira se a crise é ele próprio, ele próprio a insensibilidade para com as questões centrais, como uma desigualdade brutal de renda, por exemplo. O Brasil está numa encruzilhada, por ora sem saída. O ministério de Temer e ele próprio são a cara do país que não dá mais certo. Esqueçam Dilma, se querem a verdade. O Brasil que ruiu é o Brasil que tomou o poder. É exatamente esse. O retrato ministerial do senhor Temer. Quem caminhou nas ruas, caminhou por mudanças, mas nem sabe que mudancacas queriam. É o Brasil que assombra, o Brasil canalha há 500 anos, se apossa e fala em mudar? Lembro muito Caio Prafo e seu magnífico “Formação do Brasil Contemporâneo”. Está ali, logo na abertura, a explicação clássica pra o que vivemos. O sentido da colonização. Estes senhores que aí estão representam exatamente esse sentido do qual fala Caio Prado, e que precisamos mudar. Mudar este bando!


Rosane Santana on 13 Maio, 2016 at 16:57 #

A desconstrução não é pacífica, não tem receita, não tem regra, nem pode ser ditada pelos interesses do capital que, embora nunca tenha deixado de comandar, estava na retaguarda por uns tempos. Não tenho fórmulas, mas sei que não será fácil, sem educação. Por maiores erros e desvios que o governo do PT tenha cometido, ele foi infinitamente superior a qualquer dos seus anteriores no quesito educação e distribuição de renda. Disso, não tenho dúvida.


luiz alfredo motta fontana on 13 Maio, 2016 at 19:02 #

Usando o “prazo”, como “Rolando Lero”, não irá decolar.

Josias de Souza é cirúrgico:

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Na largada, ferramenta da gestão Temer é gogó
Josias de Souza 13/05/2016 16:26

Submetido a decepções em série, o brasileiro aprendeu a lidar com os governos. Jamais acredita piamente, que é para não perder o direito de piar depois de cada novo desapontamento. Com Michel Temer a taxa de desconfiança é descomunal. Está estampada num índice revelado em recente pesquisa do Datafolha: 60% dos brasileiros desejavam que o vice de Dilma fosse enviado mais cedo para casa junto com ela. Em resposta a esse cenário, o governo provisório do presidente interino exibiu nas suas primeiras horas de existência uma única ferramenta de gestão: o gogó. Nenhum anúncio bombástico. Nenhuma medida inadiável. Só saliva. Muita saliva. O governo reage à onda de descrença pedindo um voto de confiança.

A portas fechadas, a principal orientação feita por Temer em sua primeira reunião ministerial foi a seguinte: só Henrique Meirelles, ministro da Fazenda, tem delegação para falar sobre economia. Na sequência, em entrevista coletiva, Meirelles anunciou que não dispõe de nada para anunciar. Disse ter pressa. Por isso, vai devagar com o andor. Acha natural que as pessoas, por “curiosidade ou ansiedade”, queiram saber qual é a primeira ou a segunda medida. Mas prefere anunciá-las “no momento certo, depois de maturadas”.

Sem citar o nome de Dilma ou dos seus antecessores na Fazenda, Meirelles deixou muito claro que deseja devolver à gestão econômica algo essencial: a confiança. Ele disse coisas assim: “Uma das questões mais relevantes, hoje, é exatamente a preocupação com metas que são anunciadas e que depois não se confirmam. Por exemplo: um déficit fiscal que depois é maior do que aquele que foi anunciado ou foi estimado num determinado momento. Ou medidas que não são viáveis ou se revelam insuficientes. De um lado, sim, temos pressa. Mas de outro lado é preciso que as medidas ou as metas sejam definitivas. As metas têm que ser anunciadas com realismo.”

Meirelles não escondeu: o que está por vir são medidas amargas, duras de roer. Coisas como reforma previdenciária e da legislação trabalhista. Não descartou a alta “temporária” de impostos. Acredita que a sociedade está preparada para o tranco. Noutra entrevista, o ministro Eliseu Padilha, novo chefe da Casa Civil, ecoou Meirelles. O governo cogita cortar 4 mil cargos comissionados. Perguntou-se a Padilha se esse plano não azedará as relações do governo do PMDB com sua coligação fisiológica. Qualquer partido ou presidente que assumisse nas atuais circunstâncias “teria que tomar essas medidas”, disse Padilha. “Sob pena de, até o final do ano, não ter condições de pagar salário.”

Na conversa com Meirelles, um repórter quis saber se o ministro não receia o ronco das ruas. E ele: “Protestos fazem parte da democracia. […] Evidente que isso pode ocorrer. Em qualquer momento, em qualquer circunstância, as pessoas podem protestar contra aquilo que julgarem incorreto ou que fira os seus interesses. A manifestação é livre. Evidentemente, tem que prevalecer o intresse da sociedade no final do processo. Não se pode agradar a todos durante todo o tempo. Certamente o debate será bastante intenso. E as pessoas que se sentirem prejudicadas vão protestar. É legítimo, faz parte da democracia.”

O discurso de Meirelles faz lembrar as manifestações de Joaquim Levy, aquele eleitor de Aécio Neves que Dilma havia escolhido para consertar, no segundo mandato, o estrago que ela própria fizera na sua primeira gestão. Levy teve um fim conhecido. Foi derretido junto com suas boas intenções de recuperar a economia num caldeirão em que se misturaram a inconsistência dos propósitos de Dilma, a resistência do PT e o esfarelamento da base congressual do governo. Meirelles age como se tivesse carta branca de Temer, aval do PMDB e uma base congressual disposta a matar no peito medidas impopulares, inclusive a elevação de impostos.

Mal comparando, é como se o ministro, escolhido para ser a cara do novo governo diante da crise econômica, tentasse reescrever um conto do escritor americano John Updike. Chama-se “Trust Me”. Começa com uma cena corriqueira, à beira de uma piscina. Dentro d’água, o pai convida o filho, uma criança de quatro anos, a pular. Promete segurá-lo. “Confie em mim”, ele diz. O garoto confiou. E experimentou a angustiante sensação de afundar rumo ao insondável. Antes de ser agarrado e içado à superfície pelo pai, o menino conheceu as bolhas e o desespero propiciado pela falta de ar.

Com outras palavras, o governo de Michel Temer dirige à sociedade o mesmo apelo que o pai fez ao filho: “Confiem em nós.” No conto de Updike, ao ser retirado da piscina, o garoto decepcionado, ainda buscando o ar, ouviu o estalo do tapa que sua mãe desferiu na cara do pai descuidado. Diante da balbúrdia em que a administração Dilma mergulhou a economia brasileira, a ausência de anúncios bombásticos parece ser uma coisa boa. Todos preferem a segurança ao improviso. Mas fica boiando na atmosfera uma pergunta inquietante: o que fará a sociedade brasileira se o gogó do governo seminovo de Temer não corresponder aos fatos?

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E agora Michel???


Carlos Volney on 13 Maio, 2016 at 21:00 #

Olhando a cena atual, fico a refletir depois de ler com atenção esse brilhante, oportuno e lúcido artigo de Josias de Souza.
E reminiscências me levam a imaginar Lula agora, se não tivesse exercido o poder um dia, a bradar intrépido, guerreiro, contra o que diria ser um assalto ao povo brasileiro. Até imagino mais ou menos – “Não vamos aceitar, companheiros, mais esse crime contra o povo. Eles fizeram a farra, que paguem a conta, não venham cobrar de nós. Quando chegarmos ao poder não admitiremos isso…”
Pois é, chegaram ao poder, aumentaram impostos como nunca, roubaram descaradamente se aliando ao que tinha de mais podre na política brasileira e agora vão posar de vítimas.
Desde que me entendo por gente só vejo aumento de impostos, sempre em nome de um conserto inevitável – e nunca nada é consertado.
Por outro lado, como ter esperança em um governo que começa com oito ministros denunciados por falcatruas e que tem em seu chamado “núcleo duro” gente da estirpe de Geddel Vieira Lima, Moreira Franco e Eliseu Padilha – que ACM chamava publicamente de
“Eliseu Quadrilha”???
Eta Pindorama!!!!!!
Minhas desculpas aos que desagrado…


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