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Postado em 09-05-2016
Arquivado em (Artigos) por vitor em 09-05-2016 01:11

DEU NO BLOG POR ESCRITO ( DO JORNALISTA LUIS AUGUSTO GOMES)

Movimento estudantil que depreda e furta

Foi triste saber do depoimento de uma professora à imprensa, apontando o vandalismo e o furto de equipamentos em escolas ocupadas por estudantes em São Paulo, onde supostamente o objetivo era a melhoria dos estabelecimentos. E ainda a ação da polícia, prendendo alunos flagrados com computadores num táxi.

Ademais, é preciso massa nesses protestos de São Paulo, como o da invasão da Assembleia Legislativa, desautorizada pela Justiça. Pouco depois, foi facilmente frustrada pela tropa de choque a tentativa dos expulsos de entrar em outra unidade de ensino já ocupada.

Para terem credibilidade no Brasil de hoje, fatos políticos – não no sentido, é claro, da reles política partidária – precisam ter a densidade da necessidade, com todos os atores dispostos a atitudes por mudanças que lhes supram alguma coisa das múltiplas carências.

Precisamos de movimentos capazes de acuar o Estado, institucionalmente, a as autoridades, pessoalmente, o que só se consegue com estômago e sinceridade de propósitos, nem se carece de muito conhecimento teórico. Chega de farsa. O Brasil busca a transparência, e quando chegarmos lá… aí seremos felizes.

Os nove dias de junho

Parece brincadeira, mas quase 50 anos atrás, na flor dos 15 anos, participava da única ocupação de colégio secundário em Salvador, num cenário de ocupação geral da Universidade Federal da Bahia, naqueles dias românticos de junho de 1968.

O móvel do levante – na verdade a resistência estudantil contra o regime militar – eram os Acordos MEC-Usaid, pelo quais, em linhas gerais, o ensino brasileiro era submetido a cânones internacionais, de exclusivo interesse das ricas nações capitalistas – era nossa interpretação.

Singela simbiose havia entre os estudantes e a sociedade, pelo menos no caso do Colégio Severino Vieira. Durante certas horas do dia, saíamos à rua para arrecadar, nos ônibus e “lotações” que faziam ponto à nossa porta, o dinheiro dos alimentos a serem cozidos na cantina para mantermos vivo o movimento.

Foram nove dias assim. À noite, quando não havia rango, o pessoal da Faculdade de Direito, do respeitável Diretório Acadêmico Ruy Barbosa, mandava as panelas preparadas no Restaurante Universitário que não haviam sido totalmente consumidas durante o dia.

Uma época excelente, porque a passagem de ônibus não era problema e o ensino era digno dos melhores padrões de educação que se pudessem estabelecer. Os professores recebiam os alunos em casa para tirar dúvidas e interagiam com suas turmas em programações extraclasse.

O Severino era beleza. Tinha como diretora Maria Amália Paranhos de Magalhães, cunhada do então prefeito de Salvador, Antonio Carlos Magalhães, e mãe do hoje deputado Paulo Magalhães, que estudava no colégio, assim como seu primo Antonio Carlos Júnior.

Contando ninguém acredita, porque hoje o senador Cristovam Buarque defende esta situação como se fosse uma utopia digna da mais vigorosa gozação: os filhos da elite estudando nas mesmas escolas que os filhos do povo.

O presidente do grêmio era Honório Farias, e há que se recordar a importante liderança da Aderbal Caetano.
Na última noite, correu a notícia de que a “repressão” atacaria. Uma assembleia extraordinária decidiu pela desocupação do Severino. Foi uma votação renhida, após a qual os derrotados resolveram ficar, numa ofensa ao “centralismo democrático”.

Por volta das 22 horas, o comando do movimento telefonou para saber se queríamos comida. Dissemos que a maioria havia abandonado o colégio e que o que havia era suficiente. Pouco tempo depois, dois carros estacionavam, com a proposta de nos transferirmos para a Faculdade de Filosofia, ali perto.

Um deles era dirigido por João Jorge Amado, um reluzente Fusca, um luxo para a juventude da época. Tinha sido meu contemporâneo no Manoel Devoto, no Rio Vermelho, e continuava na escola pública, agora de nível superior.

Foi na madrugada que se seguiu que fomos todos presos na Faculdade de Filosofia e conduzidos para a Secretaria da Segurança Pública, na Piedade, inclusive o estudante Vladimir, que era uma espécie de chefe da segurança, até um revólver portava.

O comandante da operação policial foi o coronel Valter, da PM, que morava muito perto de mim, no Edifício Vasco, até hoje existente, no Parque Cruz Aguiar. Como menor, fui deixado em casa pela polícia. A luta não foi em vão. Vivemos nossos sonhos juvenis. (LAG)

Sérgio Furtado, uma memória afetiva

Num desses citados dias de junho, uma gigantesca passeata dos alunos do Central aportou em frente ao Severino, convidando-nos para ocupar as ruas. Um de seus líderes era Sérgio Landulfo Furtado, que posteriormente seria assassinado pela ditadura militar.

Era meu vizinho no Rio Vermelho. Um exemplo de filho, de irmão, de estudante, de amigo. Foi para a clandestinidade na luta contra o regime militar, descoberto que fora após um grave acidente automobilístico, do qual escapou, deixando o carro cheio de panfletos e outros itens comprometedores.

Cerca de um ano depois, dormi certa noite no Clube Português, onde jogava futebol, porque perdi a hora de ir embora e não havia mais ônibus. A Pituba, então, era um local praticamente ermo, “fora” da cidade. Seis da manhã, no ponto, ele passou por mim no Dauphine dirigido pelo pai, “seu” George. Trocamos olhares surpresos. Foi a última vez que o vi. (LAG)

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