Teori Zavaski: decisão sem precedentes no STF…


…Fernando Guerreiro: “escolher a cor da camisa virou um problema”


ARTIGO DA SEMANA

¨Roda Baiana¨ e a hora e a vez de Teori Zavaski
Vitor Hugo Soares
Menos de 24 horas antes, – da medida liminar ser assinada, em histórica canetada pelo ministro da Suprema Corte, Teori Zavaski, na madrugada de quinta – feira, 5, em Brasília, determinando o afastamento do deputado Eduardo Cunha de suas funções parlamentares,incluindo a presidência da Câmara -, liguei o rádio, em Salvador, para escutar o “Roda Baiana”, um de meus programas diários favoritos.

E não poderia ter feito melhor escolha, no calor da hora destes tempos pontuados de tensões aparentemente inesgotáveis. Repletos de emoções eletrizantes e virulência à espreita em cada esquina do Twitter ou do Facebook. Dignas dos melhores contos de suspense de Edgar Alan Poe – “O Barril de Almontilado”, por exemplo, narrativa clássica preferida do saudoso advogado Pedro Milton de Brito (brilhante e corajoso ex-presidente da OAB-BA e membro de atuação firme e indelével no Conselho Federal da Ordem , em anos loucos e autoritários. Quanta falta ele faz na Bahia e no Brasil que temos e vivemos agora, às vésperas da votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff, pelo Senado.

A empolgante reunião do pleno, do Supremo Tribunal Federal, que se seguiria na tarde de quinta, reservava novas e grandes testes de nervos no país, que amanhecera já sob o forte impacto causado pela notícia surpreendente do afastamento do todo – poderoso Cunha, que logo se alastraria pelas manchetes dos jornais do mundo.

A primeira e talvez a mais reveladora demonstração de que algo transcendente acabara de acontecer, veio logo. Através da nota postada no Twitter, pelo ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa. O rigoroso e em geral esquentado magistrado, precocemente aposentado, condutor do emblemático processo do Mensalão, escreveu:

“O ministro Teori acaba de tomar uma das mais extraordinárias e corajosas decisões da história político – judiciária do Brasil”. Os irônicos franceses, diante de algo assim, seguramente diriam: “amaldiçoado seja aquele que pensar mal dessas coisas”. No caso de Barbosa, porém, que conhece muito das coisas da justiça e um bocado dos jogos perigosos da política, ouso deduzir: a frase curta e verdadeira diz muito mais do que está escrito na mensagem na rede social. Sugere outros assuntos relevantes de bastidores – provavelmente manobras graves em andamento, das quais ele teve informações prévias e preciosas sobre prováveis armações submersas -, que o levaram a expressar sua exultação com o fato do ministro, encarregado da Lava Jato no STF, ter furado a bolha antes da perigosa explosão.

O artigo da bem informada colunista política Eliane Cantanhede, com o título “Desarmando a Bomba” (reproduzido na edição de ontem, 6, da Tribuna da Bahia) lança luzes sobre maquinações, nas sombras, de alguns gabinetes entre a Casa do Judiciário e o Palácio do Planalto, onde a mandatária ainda estribucha para não cair. Recomendo a leitura, enfaticamente.

Petardo apagado, no plenário do Supremo, é a hora e vez de Teori Zavaski. Das suas bem cuidadas, originais, nítidas e decisivas justificativas para a medida preventiva surpreendente e inédita, acatada com rara unanimidade e pródigos elogios dos membros da corte maior da justiça brasileira: 11 a zero.

Agora, antes do ponto final, retorno à referência que fiz ao “Roda Baiana” no começo. Preciso contextualizar, para melhor entendimento dos leitores e ouvintes mais distantes, do círculo e do jeito soteropolitano de ser e fazer as coisas. O Roda é uma espécie de vale-tudo de arte, cultura, política e atualidades em geral. Apresentado diariamente na Metrópole FM, em Salvador (de Mário Kertész), com máxima irreverência, bom humor … e “picardia”, como faz questão de assinalar na abertura, André Simões (o Andrezão), um dos três mestres de cerimônia da atração radiofônica, de enorme audiência e influência, nos começos de tardes na capital baiana. Não raramente com repercussão nacional, por seu irrefreável e explosivo poder de causar polêmicas e de virar tudo de cabeça para o ar. Outro apresentador é o músíco, dublê de animador cultural, Jonga Cunha.

Na quarta-feira desta semana para não esquecer, no entanto, o Roda estava inteiramente sob o comando do autor e diretor teatral Fernando Guerreiro: um anarquista no sentido lato da palavra, língua solta, irreverência fora de controle, e bem melhor do que o ex-presidente FHC, quando se trata de não perder a piada, custe o que custar.

Guerreiro, para quem ainda não sabe, é um desses especiais “baianos sem fronteiras”. É dele a concepção original de “A Bofetada”, maior sucesso da Cia. Baiana de Patifaria e um dos maiores fenômenos de permanência e de público do teatro brasileiro, que completou 28 anos de gargalhadas e aplausos em janeiro deste ano e já foi vistos por mais de um milhão e meio de pessoas, inclusive em Nova Iorque.

No “Roda” de quarta, Guerreiro navegava a todo pano em sua escuna ancorada no bairro de Pernambués, na mesma sede onde há anos também naveguei ao lado de Andrezão – ele na Radio Cidade, e eu chefiando a sucursal do JB na Bahia.a . Ao lado da auxiliar Babi, Guerreiro abriu o programa falando de seus temores e preocupações nestes dias de pré-impeachment: “não uso mais camisa vermelha, de que tanto gosto, porque posso ser esbofeteado no restaurante ou no meio da rua por alguém que grita tresloucado: seu mortadela de uma figa, defensor de corruptos”. Tem medo, igualmente, de sair com camisa verde ou amarela. “Tem sempre alguém na espreita para gritar: coxinha safado, golpista da direita. Não vai ter golpe!”. No Jornal das 10 da TV, sem horário para terminar, o estresse não para, diz o autor teatral, imitando a apresentadora em plena madrugada: “Meu Deus, estão chamando de Brasília de novo. Lá vem bomba!”

Bravo, Fernando Guerreiro! Longa vida ao Roda Baiana, da Metrópole! Quem sabe o ministro Teori, com sua liminar, tenha dado um providencial freio de arrumação no furdunço geral?. A conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 7 Maio, 2016 at 9:02 #

As tais regrinhas que deveriam nos conduzir:

1. O quê? (= a resposta relata o que aconteceu, acontece ou acontecerá).
2. Quem? (= a resposta indica os agentes da ação).
3. Quando? (= a resposta refere o momento do acontecimento).
4. Onde? (= a resposta aponta o local do acontecimento).
5. Como? (= a resposta menciona as circunstâncias do acontecimento).
6. Por quê? (= a resposta revela as razões do acontecimento).

Sem elas, especialmente em terra alheia, padecemos de incompreensão.

Caro VHS, o ato inesperado, inédito, inusual, estranho, cadente, extremo, com que o STF, nos brindou, remete ao universo das regrinhas básicas do bom e velho jornalismo.

Como aquinhoar, intenções e resultados, se não atentarmos aos personagens. Sob cada toga uma imensidão de sinais, trocados ou não.

E a cronologia? Porque disparou em casa afeita aos passos lentos dos quelônios? Qual a razão do galope?

Afinal, em que ombro mítico repousa o motivo, que fez com que Lewandowski, transformasse o pueril ato de pautar lides em garrote tenazmente aplicado ao lento Teori, fazendo este atravessar insana madrugada para ultrapassar a pressa inesperada de Marco Aurélio. Teria o sentimento, de incomum urgência em salvar a nação, repousado nos vetustos corredores, acionando alarmes, retirando sono, espantando inércias?

De um lado, Marco Aurélio, e sua incrível capacidade de ser sorteado em dilemas inesperados, vide o impeachment de Temer. De outro, Lewandowski, o comensal em terras lusitanas.

Atente-se à noticiada jabuticaba que, travestida de cereja do bolo, produziria efeito paralisante no impeachment de Dilma, por trazer à baila a nulidade dos atos de Cunha.

Estranha reunião, inesperada pauta, vasta coleção de sombras a serem perlustradas.

Ignorar-se, ainda que por simpatia estribada em noção de justiçamento, a inusitada ruptura no conceito de independência dos poderes, traduz generosa e excessiva complacência com o executor. Maculou-se, mesmo que por suspensão, o mandato de um eleito, que por previsão constitucional só pode ser atingido pela ação da própria casa, somente eleitos ferem mandatos de eleito. Para isso o rito da cassação.

Caro VHS, não sera em breve resenha que o acontecido terá sua tradução por inteiro. As regrinhas desta vez exigem acuidade.


luiz alfredo motta fontana on 7 Maio, 2016 at 9:47 #

Dilma detesta Cunha, Rede Globo não gosta de Cunha, o padre tem restrições , o sorveteiro jura que não suporta Cunha, o padeiro quer o Cunha longe, as meninas do baile recusam dançar com Cunha. Janot odeia Cunha, estamos todos com Cunha por aqui!!

Ótimo, sem contar que repousam, no próprio STF, inquéritos e ação contra Cunha, perfeito, se há pressa, e a nação concorda que há, que julguem!

Os limites da democracia repousam no respeito aos poderes, o mandato, que advém do povo, por eleição, só pode ser suprimido, ou mutilado, pelo próprio poder legislativo, em rito previamente constituído, nunca como pena alternativa, por considerar o relator, a prisão excessiva para o caso.

Não há previsão legal, muito menos constitucional para a “criativa” solução esgrimida pelo STF.


luiz alfredo motta fontana on 7 Maio, 2016 at 10:19 #

A democracia é um exercício penoso aos afoitos!

Recomenda-se:

Reflita antes de aplaudir!


vitor on 7 Maio, 2016 at 12:43 #

Fontana:

Ótimas, relevantes e bem encaixadas perguntas, querido poeta da Marília (SP). Elas me tiram o sono desde o tempo de jovem frequentador dos bancos da Faculdade de Jornalismo da Universidade Federal da da Bahia, ainda no entroncamento dos bairros Nazará-Saúde, quase nos fundos da primeira casa onde morei em Salvador, na Rua da Agonia (Barão do Rio Vermelho), bem no alto da Ladeira da Poeira.Reduto de bambas, a começar por Gordurinha, que morava no Largo da Saúde.
No caso em tela, nos tempos de Teori, Mello e Lewandowski, responda quem souber. No mais, bom mesmo é ouvir Fernando Guerreiro, Andrezão e Jonga rodando a baiana pelas ondas da Metrópole. Tim Tim!!!


luiz alfredo motta fontana on 7 Maio, 2016 at 12:44 #

Lewandowski e Marco Aurélio pautam a bomba manufaturada no antigo escritório de advocacia de Barroso.

Teori a desmonta, acionando a criatividade revel, ignorando Montesquieu, num ato de ilusionismo constitucional.

Barbosa, surge do nada, guiado pelo aroma do arbítrio, não resiste e corre para aplaudir, como se necessária fosse sua digital para acentuar o excesso contido na decisão.

Afinal o que se aplaude?

A derrota de cunha?

Teria ocorrido, de há muito, caso os feitos, em que figura como réu ou investigado, tivessem curso diverso da excessiva morosidade.

A democracia, bem como seus princípios, amanheceram ao relento.


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