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Jogo pesado à vista

Antonio Risério

Já ficou célebre a afirmação da senhora Rousseff: se não for impedida de governar (coisa que, de resto, nunca acertou a fazer), ela propõe um pacto nacional para retirar o Brasil da crise, “sem vencidos ou vencedores” – se perder, é carta fora do baralho. Isto é: só topa essa conversa de “pacto” se estiver por cima, dando as ordens, como vencedora compenetrada e arrogante. Vencida, não: recusa qualquer conversa. E o Brasil que se dane.

É a mais esdrúxula proposta de “pacto” que pode haver: se eu ganhar, fazemos um pacto; se você ganhar, nada feito. Lembra a fórmula pornográfica popular, assim adaptável à conjuntura: a “situação” entra com o pau e a “oposição” entra com a bunda. A essa altura, com o ex-tudo Jaques Wagner – no papel do Compositor ou do Passivo, a depender do gosto ou das ordens do chefão – já em cena, a fim de convencer, a quem encontrar pela frente, que pimenta no dos outros é refresco.

Mas não é a lábia de Wagner, o Rolando Lero da decadência petista, que me preocupa. Ele ainda vai ter muito a explicar quando a OAS botar a boca no trombone. Mas o problema agora é o que Lula, Dilma e o PT anunciam que vão fazer, caso não curvem o Congresso ao “pacto”. Se forem vencidos na disputa do impeachment, nada de grandeza, nenhuma generosidade, republicanismo algum. Dilma quer a guerra. Lula idem. Rui Falcão, também. Ou seja: se o governo perder, o programa lulopetista será o mesmo que eles tanto xingaram enquanto estiveram no poder: o tal do quanto-pior-melhor.

É o que prega explicitamente a turma de Rui Falcão, o pauzinho-mandado de Lula no partido, ao dizer que o PT não reconhecerá um governo “nascido de um golpe”. E Lula – o sumo sacerdote das formas mais inferiores de feitiçaria política que grassam no país; o babalaô do “baixo espiritismo” político dos dias que correm – não faz por menos. Vocifera aos quatro ventos que não dará trégua a quem ousou enxotá-los dos palácios (e dos cofres) brasilienses.

Todos já sabem. Em vídeo que andou distribuindo, o “führer” petista é mais do que claro: qualquer passo errado (tradução: tirar o PT do poder) levará o país ao caos. O que não diz – e nem precisa se dar ao trabalho de dizer, desde que é público e notório – é que ele e seu partido já estão se colocando como “protagonistas do processo”. Vale dizer, como os principais promotores do caos que anunciam. E pelo qual torcem e trabalham. Este deve ser o amor-pelo-Brasil de que eles tanto falam, quando as conveniências permitem.

Antonio Risério
é escritor, autor de, entre outros, “Uma História da Cidade da Bahia” (2000), “A Utopia Brasileira e os Movimentos Negros” (2007), “A Cidade no Brasil” (2012) e “Mulher, Casa e Cidade” (2015)

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