Selma Egrei:a matriarca de “Velho Chico” no cartaz
de cinema nos anos da Alucinação de Belchior

CRÔNICA

40 anos de uma bendita alucinação

Janio Ferreira Soares

Em abril de 1976 eu tinha quase 18, uma Brasília amarela e morria de medo de servir ao Exército. O presidente Geisel tinha 68, usava óculos escuros e era muito elogiado por Glauber, que via nele o cara que abriria o país. Na “Terra da Felicidade”, apesar do chicote, tínhamos o regalo de ter dois respeitados professores comandando a capital (Jorge Hage, 38) e o estado (Roberto Santos, 49), ao tempo que Luiz Melodia, na criatividade de seus 25, passou seis meses da novela Pecado Capital lavando roupa praticamente todos os dias, que agonia, na quebrada da soleira, que chovia.

No futebol, o técnico Oswaldo Brandão começava a dar adeus à Seleção, entre outras coisas, pela malfadada experiência de escalar um ataque com Gil, Enéas e Joãozinho, enquanto na porta do Cine São Francisco, aqui em Paulo Afonso, o cartaz do filme A Carne, com a foto de uma estonteante Selma Egrei a anos-luz de dona Encarnação de Velho Chico, despertava na moçada ideias de corar (ou excitar) o Bispo. Já as demais estreias anunciavam a psicodelia de Tommy, a tensão de Terremoto e a agonia do xerife Roy Scheider, que na época apenas começava sua luta contra o mais sanguinário dos tubarões que por muitos verões manchariam de sangue as águas de seu condado.

Mas como eu ia dizendo, eu tinha uma Brasília e nela havia um toca-fitas que diariamente respondia com boa música ao barulho de um motor pessimamente localizado no seu interior. E foi nesse clima de duelo entre guitarras e carburadores, que um cearense se apresentou aos habitués como um rapaz latino-americano que falava dos Beatles, Alan Poe e assum preto, com a mesma naturalidade que expressava sua afinidade com as coisas da América do Sul, a ponto de dizer que um tango argentino lhe caia bem melhor que um blues. Como numa profecia, o disco chama-se Alucinação. Não à toa, há mais de oito anos seu autor decidiu virar miragem. Longa e louca vida ao genial Belchior.
Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco.

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Comentários

Cida Torneros on 16 Abril, 2016 at 21:58 #

Linda crônica. Amo o Belchior. Estive com ele só uma vez. Era noite e entrei num bar na Cinelândia no Rio. Fui tomar um cafezinho. Ao meu lado vi aquele cara de cachecol no frio raro carioca. Não resisti. Falei com ele que adorava suas canções. Ele apenas sorriu e nos abraçamos. Saí de alma lavada. Isso deve ter acontecido há uns 20 anos. Parabéns . Obrigada por me fazer reviver tão linda alucinação!


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