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DO BLOG POR ESCRITO (DO JORNALISTA LUIS AUGUSTO GOMES)

Com discurso pronto, a Temer só falta o terno

A impressão que transmitem os fatos, mais uma vez precipitando-se em alta velocidade sem que se saiba se com ou sem segundas intenções, é de que, caso a presidente Dilma Rousseff pretenda salvar o seu mandato, deve procurar entender-se com o Senado, porque na Câmara não há mais o que fazer.

Aprovado, como se delineia, o processo no próximo domingo pela Câmara, será difícil evitar nova admissibilidade no Senado, por maioria simples, que retiraria Dilma do cargo imediatamente, e, mais tarde, por dois terços do plenário – 54 senadores – a decretação do impeachment propriamente dito.

A debandada de partidos da base do governo projeta uma realidade visível há muito tempo: tendo encontrado espaço e motivação, o establishment político decidiu tirar Lula do poder e neutralizá-lo, o que inclui, natural e prioritariamente, a queda da presidente da República.

Só o TSE evitará troca de seis por meia dúzia

Data: 13/04/2016
09:58:07

O ex-presidente tornou-se personagem indesejável, especialmente quando, atribuindo-se características ofídicas, promove escancaradamente uma operação fisiológica para salvar a si e a sua criatura. Nesse meio tempo, ocorre a prisão de Gim Argello, ex-senador que Dilma tentou colocar no Tribunal de Contas da União.

O vazamento do “discurso” de Michel Temer, nesse contexto, nada mais é que uma senha de ensaio geral. A “gafe” do áudio não muda nada: o eleitorado cujo apoio o vice-presidente “espera” é imune a indignação, só vê interesses, tanto que vem sendo disputado a tapa – ou argumento mais persuasivo.

Daqui pra frente, somente o Tribunal Superior Eleitoral poderia afetar Temer. Se ele chegar ao Planalto e tiver fôlego para acomodar as coisas, para o que haverá sensível colaboração das grandes forças empenhadas em liquidar o petismo, não se pode duvidar de que, num país onde Eduardo Cunha ainda preside a Câmara, alguma acomodação será arranjada.

Balcões e balconistas em excesso

O prefeito ACM Neto, que não trairia a genética se tivesse o feeling da direção dos ventos, grita contra o “balcão de negócios” montado em Brasília sob o comando, claro, de Lula. Mas a verdade é que, balcão, todo mundo faz quando precisa.

Palavras são do jogo político, como, também, faz o governador Rui Costa ao dizer que “o golpe não passará”. Não poderia mesmo jogar a toalha, nem ele nem o ministro Jaques Wagner, que sonha com 215 votos contra o impeachment.

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 14 Abril, 2016 at 8:43 #

Foquemos Wagner, o “envarandado”.

Sua condição de ministro, amparada em MP que ainda tramita pelo congresso, esta prestes a extinguir-se, basta o senado acolher o impeachement e Wagner será devolvido à contemplação do mar baiano.

Rui Costa será ligeiro em lhe oferecer algum cargo que lhe garanta, ao menos, escapar da primeira e temida instância?

Desta vez, o sindicalista de resultados, poderá amanhecer, para dizer o mínimo, em condição e posição, desagradáveis. No limite da escatologia.

O outono soteropolitano promete emoções estranhas.

Caetano, para amenizar o suplicio, fará seresta na varanda?


Jader martins on 14 Abril, 2016 at 10:39 #

Perguntinha básica para os que crêem no ínclito Sergio Moro e ainda não foi respondida: Por que será que a mulher e a filha do também ínclito Eduardo Cunha ainda não foram convidadas para conhecer a capital do Paraná?
Para completar , como diz o Kiko Nogueira:
“Pena dos imbecis que seguraram estandartes com a foto de Sergio Moro, guerreiro do povo brasileiro.
Pensando bem, pena nenhuma. Nasce um otário a cada minuto.”


luiz alfredo motta fontana on 14 Abril, 2016 at 11:10 #

Caro Luís

A vida tem destas coisas, portanto aceite, desde já, minhas escusas.

A insegurança tem tornado certos comentaristas em pesadelos de si mesmos.

Não suportando a realidade tentam, muito de esperteza, via a subversão da realidade, justificarem suas próprias torpezas.

Perguntam, insistentemente, a razão pela qual a mulher de Cunha, bem como a filha, não foram conduzidas, quer presas, quer sob vara, para a capital do Paraná.

Acreditam estar posando de donos da verdade com esta pergunta nada ingênua.

Esquecem, ou melhor omitem, entretanto, que os autos referentes a elas estavam até o dia 15 de março sob os cuidados do STF, quando, só então, Teori decidiu pela remessa dos mesmos para Curitiba, sendo certo informar que segundo consta em rápida pesquisa no Google, tais autos chegaram em Curitiba no final do mês passado.

Nunca é demais lembrar ao desarvorado comentarista que a prisão ou condução coercitiva, caso ocorram, advém de requerimento do MP local, ou seja da força tarefa, que por certo deve estar debruçada sobre estes autos.

Assim, e da melhor forma, deve o afoito comentarista, informar-se antes de optar por espertezas de estilo.

Renovando o pedido de escusas ao Luís, encerro este dilema.


Jader martins on 14 Abril, 2016 at 11:18 #

Mais elegância poeta , e menos tergiversação!!!!!


luiz alfredo motta fontana on 14 Abril, 2016 at 11:18 #

O mínimo que se espera de alguém que aventura-se no mundo mágico e atraente dos comentários é que, ao menos, informe-se previamente sobre o que tentará discorrer. Deixando claro que esta cautela refere-se aos que detém boa fé.

Por outro lado, aos que ainda insistem na má fé como tradução de suas condutas, sempre é bom lembrar que o mundo pode até estar prenhe de otários, mas a informação ainda é livre.


luiz alfredo motta fontana on 14 Abril, 2016 at 11:20 #

Não se trata de etiqueta e sim de corretivo.

Insistir ainda, na mistificação, é ofender o bom senso.


luiz alfredo motta fontana on 14 Abril, 2016 at 11:22 #

Caro Luís, como antecipei, a vida tem estes momentos desagradáveis.

Viva a informação!

Mais do que nunca precisamos de jornalistas atentos.


luiz alfredo motta fontana on 14 Abril, 2016 at 11:31 #

luiz alfredo motta fontana on 14 Abril, 2016 at 11:35 #

Jader martins on 14 Abril, 2016 at 13:13 #

Do O Globo

A ilusão

Por Luis Fernando Verissimo

Um governo para os pobres, mais do que um incômodo político para o conservadorismo, era um mau exemplo, uma ameaça inadmissível para a fortaleza do poder real

Gosto de imaginar a História como uma velha e pachorrenta senhora que tem o que nenhum de nós tem: tempo para pensar nas coisas e para julgar o que aconteceu com a sabedoria — bem, com a sabedoria das velhas senhoras. Nós vivemos atrás de um contexto maior que explique tudo mas estamos sempre esbarrando nos limites da nossa compreensão, nos perdendo nas paixões do momento presente. Nos falta a distância do momento. Nos falta a virtude madura da isenção. Enfim, nos falta tudo o que a História tem de sobra.

Uma das vantagens de pensar na História como uma pessoa é que podemos ampliar a fantasia e imaginá-la como uma interlocutora, misteriosamente acessível para um papo.

— Vamos fazer de conta que eu viajei no tempo e a encontrei nesta mesa de bar.

— A História não tem faz de conta, meu filho. A História é sempre real, doa a quem doer.

— Mas a gente vive ouvindo falar de revisões históricas…

— As revisões são a História se repensando, não se desmentindo. O que você quer?

— Eu queria falar com a senhora sobre o Brasil de 2016.

— Brasil, Brasil…

— PT. Lula. Impeachment.

— Ah, sim. Me lembrei agora. Faz tanto tempo…

— O que significou tudo aquilo?

— Foi o fim de uma ilusão. Pelo menos foi assim que eu cataloguei.

— Foi o fim da ilusão petista de mudar o Brasil?

— Mais, mais. Foi o fim da ilusão que qualquer governo com pretensões sociais poderia conviver, em qualquer lugar do mundo, com os donos do dinheiro e uma plutocracia conservadora, sem que cedo ou tarde houvesse um conflito, e uma tentativa de aniquilamento da discrepância. Um governo para os pobres, mais do que um incômodo político para o conservadorismo dominante, era um mau exemplo, uma ameaça inadmissível para a fortaleza do poder real. Era preciso acabar com a ameaça e jogar sal em cima. Era isso que estava acontecendo.

Um pouco surpreso com a eloquência da História, pensei em perguntar qual seria o resultado do impeachment. Me contive. Também não ousei pedir que ela consultasse seus arquivos e me dissesse se o Eduardo Cunha seria presidente do Brasil.

Eu não queria ouvir a resposta.

Luis Fernando Verissimo é escritor


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