Dilma, ao lado de militares, acena para militantes em Salvador


Charles Bronson no cult “O Passageiro da Chuva”

ARTIGO DA SEMANA

Dilma, a chuva e o navio: acenos à militares e à militância

Vitor Hugo Soares

Horas antes do relator da comissão especial de impeachment da Câmara dos Deputados, Jovair Arantes (PTB- GO), apresentar relatório favorável ao impedimento da presidente Dilma (com o sinal de mercúrio do termômetro político, em Brasília, batendo nos 40 graus), a mandatária desembarcou em Salvador, na manhã de quarta-feira, 6, debaixo de chuva fina que foi engrossando com o passar das horas. Algo não previsto, na véspera, nem por Maria Júlia Coutinho, a Majú do Jornal Nacional da TV Globo.

Mal (ou bem?) comparando, a atual prisioneira do Palácio do Planalto – enquanto se decide se o seu impedimento vai ou não vai – largou, por alguns instantes, a sua atual ocupação de oradora de comícios “interna corporis” (usando uma expressão jurídica bem da moda no Brasil, deste começo de outono de 2016). Desceu no Nordeste, em seguida, numa “passagem de quem vem buscar fogo”, como se dizia antigamente em meu sertão do Rio São Francisco.

Ao desembarcar na Bahia, a mandatária petista mais parecia uma representação feminina do personagem enigmático, encarnado por Charles Bronson, nas cenas de abertura do filme policial de suspense “O Passageiro da chuva ” (Le Passanger de La Pluie), um “Cult” para os amantes de cinema (do tipo deste jornalista) desde o lançamento, nos anos 70, até hoje. Recomendo efusivamente aos que nunca viram e aos que precisam rever esta jóia da sétima arte.

“Coisas da Bahia”, disseram alguns sem algo mais interessante e original para dizer, à guisa de explicação para a brusca virada meteorológica, quando Dilma desembarcou trazendo debaixo das asas o seu ministro da Defesa, o comunista do PC do B, Aldo Rebelo. Acompanhada, também, do ex-governador Jaques Wagner, atual chefe do Gabinete Pessoal da presidente, – o “coringa” deste mandato de Dilma, – segundo definição do “ABC do poder no Brasil”, em reportagem do jornal chileno “El Mercúrio”; ou “o Galego de Lula” , como preferem os petistas e linhas auxiliares.

Ao grupo palaciano de Brasília juntaram-se, em Salvador, o atual e indecifrável esfinge petista que governa o estado, Rui Costa, e o pentapresidente da Assembleia Legislativa, Marcelo Nilo, que acaba de desembarcar do PDT baiano, em busca de novo pouso partidário onde possa continuar desfrutando das benesses dos palácios de Ondina e do Planalto e, quem sabe, emplacar um sexto mandato consecutivo em seu império preferido, no Centro Administrativo da Bahia.

“Coisas da nossa Bahia”, como costumava dizer o ex-governador, ex-senador e falecido imortal historiador da Academia Brasileira de Letras, Luiz Viana Filho.

Pelo menos, no caso das chuvas de quarta-feira, parece ter ocorrido um apagão geral de memória na comitiva da presidente. Afinal, é de conhecimento secular entre os soteropolitanos: março e abril são meses de grandes catástrofes pluviais e desabamentos na capital baiana, a exemplo dos registradas ano passado. Um dos mais trágicos deles, bem ao pé do famoso Elevador Lacerda e da Praça Cayru.

A menos de 100 metros da sede do II Distrito Naval, onde Dilma esteve em sua visita relâmpago (juro que há segunda intenção ou outro subentendido qualquer na frase retórica). E a menos de 500 metros do Porto de Salvador, onde a mandatária entregou um novo barco à Marinha do Brasil, em cerimônia apontada como razão principal e única da visita presidencial.

O prefeito de Salvador, ACM Neto, do DEM, defensor do impeachment e apontado, em todas as pesquisas até aqui, como “Pule de 10” para ser reeleito nas municipais e continuar mandando na capital, foi mantido afastado das cerimônias no Distrito Naval – coalhado de militares e políticos federais e estaduais – e no Porto, para onde foram arregimentados militantes petistas, de linhas auxiliares e do PC do B, além de sindicalistas e saudosistas da UNE, aos gritos de “Não vai ter golpe”. ACM Neto (que, provavelmente, não esqueceu dos sustos que teve e dos desgastes sofridos com os desabamentos e mais de 20 mortes, do ano passado), se lá estivesse, talvez falasse sobre o temido período de chuvas na cidade que ele administra, e das vítimas, incluindo um marinheiro, morador do casarão que desabou na histórica Ladeira da Preguiça. Mas o assunto não mereceu uma palavra sequer no discurso da presidente.

Olhando com atenção para o ambiente da solenidade, logo seria possível perceber, com clareza meridiana, apesar do temporal, o sentido político mal escondido, sob a agenda administrativa do navio recauchutado, “doca multipropósito” (a denominação só pode ser uma ideia do ministro Aldo Rebelo!), batizado com o nome “Bahia” pela mandatária.

No discurso em Salvador, a presidente, sob ameaça de impedimento, evitou o seu atual refrão preferido dos comícios no Planalto: “impeachment é golpe”. Preferiu começar com acenos aos quartéis: “O Brasil de hoje é um país com fronteiras nacionais consolidadas e que convive em harmonia, cooperação e paz com nossos vizinhos. Não podemos, no entanto, descuidar da defesa de nossa soberania, motivo pelo qual é necessário investir sempre e mais na capacitação das nossas Forças Armadas. Por isso, mesmo em uma fase de ajustes, como a que estamos atravessando, temos nos esforçado para dar sequência aos projetos estratégicos das Forças Armadas”, falou como uma passageira da chuva que oferece presentes.

Completou a fala aos militares: “Na proposta de lei orçamentária de 2016, que enviamos ao Congresso Nacional em março, incluimos o abatimento na meta de superavit de R$3,5 bilhões destinados ao Ministério da Defesa para garantir a continuidade desses projetos. O cenário fiscal que enfrentamos é difícil. Estamos trabalhando diuturnamente para superá-lo, mas devemos superá-lo sem sacrificar projetos que são fundamentais para a retomada do desenvolvimento e para o futuro do Brasil”, Aldo Rebelo e Jaques Wagner sorriram mais que os oficiais fardados presentes.
Do lado de fora dos portões do Porto de Salvador, na área do Comércio da Cidade Baixa, chegavam os gritos da militância debaixo do temporal: “Não vai ter golpe!” Dilma não resistiu. Do ancoradouro da embarcação dirigiu aos molhados militantes os seus acenos derradeiros na capital baiana: “Queria agradecer a todos os manifestantes que se colocam aqui debaixo de chuva defendendo a nossa democracia e defendendo a institucionalidade do nosso país.”
Depois pegou um helicóptero para a Base Aérea e de lá retornou às pressas para a efervescente Brasília. Tão repentinamente como começara de manhã, o sol e o calorão do indefinido começo de outono voltaram a Salvador.
“Amaldiçoado seja aquele que pensar mal dessas coisas”, diriam os franceses. Eu encerro como o saudoso colunista Ibrahim Sued: “Olho vivo, que cavalo não desce escadas!”

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: Vitor_soares1@terra.com.br

abr
09


DO EL PAIS

Rodolfo Borges

De Brasília

Enquanto o Governo Dilma Rousseff tenta arrancar, em troca de cargos, os votos necessário do PP, PR e PSD para evitar o processo de impeachment, a situação na Câmara se complica para além do placar do plenário. É que os rumos desse processo estão nas mãos do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e ele, que se declarou opositor do Governo em julho do ano passado, não parece nada interessado em facilitar a vida de Dilma.

Cabe a Cunha definir como vai ocorrer a votação sobre o impeachment no plenário da Câmara, esperada para começar na próxima sexta-feira. E ele promete revelar o procedimento — que envolve basicamente a ordem de manifestação de cada parlamentar na hora de votar — apenas no momento da votação. “Vou interpretar o regimento na hora”, disse Cunha na noite de quinta-feira, revelando apenas que não pretende fazer chamada por ordem alfabética, como Ibsen Pinheiro fez na votação do impeachment de Fernando Collor, em 1992.

A especulação dá conta de que o presidente da Câmara pretende privilegiar, na ordem de chamada nominal para a votação, deputados de Estados mais inclinados para o impeachment — o regimento da Câmara estabelece que nesse caso “a votação nominal será feita pela chamada dos deputados, alternadamente, do norte para o sul e vice-versa”. Assim, a votação a favor do impeachment ganharia números na frente, o que poderia influenciar o voto de indecisos, que não gostariam de ficar na história ao lado dos perdedores. Cunha nega a intenção de influenciar voto ao estabelecer o procedimento de votação: “Não entendo que qualquer forma de chamada beneficie a quem quer que seja”.

Cunha já avisou, também, que os ausentes na hora da votação terão o nome chamado pelo menos uma segunda vez. A ausência é uma expectativa do Governo para que seus apoiadores eventuais não precisem se comprometer publicamente com um voto contra o impeachment. A oposição precisa reunir 342 votos a favor da saída de Dilma. Para barrá-la, o Governo precisa garantir 172 deputados, entre votantes pelo não, abstenções e ausências.
Madrugada e domingo

A regra de votação não é o único subterfúgio a favor do impeachment de que Cunha pretende usar. O presidente da Câmara se comprometeu a instalar a sessão do impeachment assim que a comissão especial destacada para avaliar a admissibilidade termine seus trabalhos. Seguidos todos os prazos regimentais, o debate sobre o parecer da comissão começa na próxima sexta-feira e, definiu Cunha, seguirá pelo fim de semana — ele calcula que o debate e a votação devem levar pelo menos três dias.

Questionado por que a Câmara não deve interromper os trabalhos no fim de semana para retomar a análise na segunda-feira, o peemedebista mencionou o feriado de 21 de abril e disse que, se interrompidos, os procedimentos podem varar pelo fim de semana seguinte. “Melhor adotar um critério único”, comentou. Para o domingo estão convocados protestos pró-impeachment e haveria, em tese, maior exposição da votação transmitida pela TV.

A estratégia de entrar final de semana adentro para cumprir à risca o cronograma acordado pela maioria pró-impeachment da Comissão Especial do Impeachment já começou. Iniciados às 16h20 desta sexta-feira, os debates da instância foram programados para terminar na madrugada de sábado, para respeitar o prazo de entrega do relatório ao plenário, na segunda. Das 118 inscrições para debater o parecer favorável à denúncia do relator Jovair Arantes (PTB-GO) na comissão do impeachment — não-membros também podem debater —, 72 foram para falar em apoio ao impedimento, e 46, contra.Televisionadas por TVs a cabo, a sequência aumenta o desgaste do Governo.

A deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) reclamou de cerceamento de defesa da presidenta Dilma, repetindo os argumentos da Advocacia-geral da União, e disse que “esperava manobra menos explícita” do relator que julgou admissível o impeachment. Wadih Damous (PT-RJ) reforçou argumentos jurídicos a favor do Governo, assim como o colega Arlindo Chinaglia (PT-SP). Já Benito Gama (PTB-BA), que lembrou ter presidido a CPI que levou ao impeachment de Collor, disse que aquela crise “foi uma festa de boneca” perto da atual. Também favorável ao impedimento, Onyx Lorenzoni (DEM-RS) levou o livro O impeachment, do jurista Paulo Brossard, para reforçar seus elogios ao relatório de Jovair Arantes.
Sem indicações para impeachment de Temer

Na segunda-feira, a comissão termina o debate e vota sobre o parecer de Jovair Arantes. Nas contas da consultoria Arko Advice, 33 dos votos da comissão são pelo impeachment, e 22 são contrários — os outros 10 votantes se declaram indecisos. Independentemente do resultado, o relatório vai a votação no plenário. E se o roteiro for seguido como se espera, os deputados votam o futuro de Dilma Rousseff no domingo 17. Na estimativa do instituto Datafolha, 308 deputados estariam inclinados a votar pelo impeachment — 34 a menos que o necessário para encaminhar o processo ao Senado.

Desde que a instância foi instalada, em 17 de março, a Câmara teve quórum para abrir sessões ordinárias todos os dias, mesmo às segundas e sextas-feiras, algo incomum no parlamento. A razão? O tempo limite de atuação da comissão é baseado no número de sessões (15). A boa vontade com o processo de impeachment de Dilma não se repete com o processo de impeachment do vice-presidente Michel Temer. Após o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello ordenar que Eduardo Cunha instalasse comissão para avaliar pedido de impedimento e Temer, apenas 14 deputados foram indicados pelos líderes partidários — são necessários 66.

Dá-lhe, Morengueira, mestre do samba de breque: em português ou alemão. Confira.

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

DEU NO BLOG POR ESCRITO ( DO JORNALISTA LUIS AUGUSTO GOMES)

Outro sucessor seria malabarismo do prefeito

Ainda não ficou claro para observadores da cena política o plano do prefeito ACM Neto quando maneja entre diversas legendas seus mais próximos quadros, como faz agora com o ingresso do secretário da Educação, Guilherme Bellintani, no DEM.

Não parece lógico, como se divulgou, que pretenda lançá-lo à sucessão municipal, abrindo mão da reeleição, para evitar num segundo mandato o desgaste de administrar sem recursos, em decorrência da crise no país.

Ora, se foi o próprio prefeito a dizer na campanha que “Salvador pode andar com as próprias pernas” e, no poder, anunciou a recuperação financeira do município e a formação de gordo caixa, com o qual vem trabalhando a contento, não faria sentido temer por esse aspecto.

Por outro lado, o prefeito Neto, mesmo bem avaliado pela população e sendo político futuroso, ainda não chegou ao prestígio e à força do falecido senador ACM, capaz, como ele próprio dizia, de “eleger um poste”.

É igualmente inconsistente a tese de que o prefeito quer tempo livre para correr o interior na preparação, aos longo dos anos de 2017 e 2018, da candidatura ao governo do Estado, esta, sim, a bem da verdade, ainda não definida.

Caso concorra, terá seis meses para a campanha, com o respaldo, se for reeleito agora, de quase seis anos de gestão na capital, que, seguramente, não cairá de nível, apesar da pindaíba que acomete União, Estados e municípios.

O prefeito exerceu três mandatos de deputado federal. Nos dois primeiros, com o avô em vida, teve mais de 400 mil votos. No terceiro, três anos após o falecimento do senador, alcançou 328 mil votos, o que atestou sua condição de liderança bem articulada.

Abrir mão de novo período à frente da Prefeitura, e ainda por um suposto motivo que prejudicaria também o seu pretenso sucessor, teria mais ares de um malabarismo maluco, de que ACM Neto, ao longo da carreira, não tem se mostrado adepto.

abr
09
Posted on 09-04-2016
Filed Under (Artigos) by vitor on 09-04-2016


Clayton, no jornal O Povo (CE)

DEU NO BLOG O ANTAGONISTA

Lula nas asas da Gol

O Antagonista republica o vídeo de Lula desembarcando dentro de um hangar em Brasília para dizer o seguinte:

– A Pássaro Azul é da família Constantino, dona da Gol. Apesar de ser um táxi-aéreo, a empresa foi criada para atender basicamente os executivos da Gol e família.

– Lula pode até ter fretado o Gulfstream, mas teria que desembolsar R$ 120 mil só para fazer o percurso de ida e volta entre São Paulo e Brasília.

– No início de março, Dilma Rousseff editou MP que abriu para 49% o limite de participação estrangeira em empresas aéreas nacionais. Fez isso para salvar empresas quebradas, como a Gol, da família Constantino.

– É proibido entrar em hangares e locais fechados com os motores girando. Trata-se de infração grave, que deve ser punida pela Anac com multa para a empresa e para o piloto.

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