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Postado em 23-03-2016
Arquivado em (Artigos) por vitor em 23-03-2016 00:54


O Cassino de Buenos Aires, marca emblemática de Cristóbal López. / R. Ceppi

DO EL PAIS

Carlos E. Cué

A família Kirchner dominou praticamente todo o poder na Argentina durante 12 anos. E a seu redor cresceu um império não só político, mas também econômico, com empresários próximos cujos negócios se expandiram com o kirchnerismo no poder. Depois da derrota, esse conglomerado está vindo abaixo não só por falta de apoio político, mas pela evidente ojeriza do Governo de Mauricio Macri, que está pondo contra a parede em especial Cristóbal López, o empresário mais poderoso do mundo kirchnerista, e de vários juízes, que durante anos mantiveram estagnados diversos casos que afetavam o entorno do Governo e agora os revitalizaram. A Argentina vive no momento um recrudescimento da guerra entre kirchneristas e antikirchneristas, que parecia refluir depois da vitória de Maurício Macri, mas agora volta a ganhar força.

O próprio presidente, segundo fontes do Executivo, recebe muita pressão em seu entorno para que mova suas cartas para “levar à prisão Cristina Fernández de Kirchner”. É o que reivindica o setor mais duro e conservador do antikirchnerismo. Alguns no Governo acreditam que essa não seria uma boa ideia e que não há nenhuma necessidade de chegar tão longe. Por ora, ela foi denunciada em uma causa que não é de corrupção, mas de mau uso do dinheiro público, e terá de depor em 13 de abril. Mas ao seu redor estão caindo todas as bombas políticas, judiciais e midiáticas que vêm afundando o que até poucos meses era o poder absoluto na Argentina.

Os mais afetados são dois empresários da Patagônia que se tornaram muito ricos durante o kirchnerismo. Cristóbal López é o mais importante. Com a família originária de Almeria (Espanha) – por isso seu grupo se chama Indalo, símbolo dessa província espanhola –, é chamado de “czar do jogo”. Acumulou um império de cassinos, petróleo e meios de comunicação que o tornam um dos empresários mais ricos do país. O outro é Lázaro Báez, um homem que era caixa de banco quando conheceu Néstor Kirchner e passou a ser dono de um conjunto de empresas de construção que realizou quase todas as obras públicas de Santa Cruz, a província dos Kirchner. Esta semana um vídeo de uma câmera de segurança em que se vê seu filho com outros funcionários de sua empresa contando 3,5 milhões de dólares (13 milhões de reais) causou enorme polêmica.

Mas a peça importante é López. Ele é o dono da C5N, uma das redes mais importantes do país e que se tornou um dos poucos órgãos da mídia de refúgio do público kirchnerista. Seu apresentador de destaque, Roberto Navarro, hipercrítico de Macri, provocou até uma pequena manifestação no domingo diante da entrada do canal quando anunciou no Twitter que não lhe deixavam transmitir um especial de três horas sobre os negócios do grande sócio e amigo de Macri, Nicolás Caputo. A pressão sobre a C5N é muito forte e a polícia se apresentou ali na sexta-feira para uma investigação antecipada pelo jornal La Nación, a qual provaria que López deixou de pagar 8 bilhões de pesos (cerca de 2 bilhões de reais) em impostos durante o período kirchnerista. Agora o Governo de Macri os está cobrando.

A mídia é o grande palco das batalhas políticas na Argentina. A C5N era precisamente uma rede de propriedade de Dahiel Hadad, um jornalista que conseguiu formar um grande grupo de meios de comunicação e agora é dono do Infobae. A C5N criticava muito o kirchnerismo e, em 2012, a presidenta Cristina Fernández de Kirchner fez chegar uma mensagem clara a Hadad: ou vendia seu grupo de mídia – que incluía uma rádio importante – a Cristóbal López, o empresário mais próximo do kirchnerismo, ou seria fechado de um jeito ou de outro. Hadad decidiu vender, e o grupo deu um giro de 180 graus até se transformar em uma das grandes referências da mídia próxima ao kirchnerismo. Agora o poder mudou, mas a C5N seguia na mesma linha até esta semana. A decisão de não transmitir o programa de Navarro parece ser o primeiro passo de uma guinada num momento em que López, cercado pela Justiça e o Governo, quer desfazer-se rapidamente de seu grupo de meios de comunicação e voltar a ter um “baixo perfil”, o termo mais usado na Argentina para os que querem desaparecer da linha de frente da polêmica.

Mais complicada ainda é a situação de Lázaro Báez, que agora quase não tem obras públicas em Santa Cruz, uma província praticamente quebrada, e está em um processo de demissão da maioria de seus 1.800 funcionários.

O império kirchnerista parece assim afundar com a mudança de Governo, enquanto a ex-presidenta mantém seu silêncio e seu grupo de fiéis se afasta pouco a pouco, embora ainda continue sendo a grande referência da oposição. Macri vai ocupando pouco a pouco todo o espaço. O kirchnerismo sofre uma enorme deterioração e cenas como a do filho de Lázaro Báez contando dólares o fazem afundar ainda mais. Quem de fato fala é Máximo Kirchner, o filho mais velho da família, que cita uma “perseguição notória” contra seu grupo. Algumas fontes peronistas e macristas consultadas acreditam que esse é somente o início de uma ofensiva muito forte contra o entorno da ex-presidenta e a suposta corrupção que ali se produzia, embora acreditem que não se chegará ao extremo de ela acabar na cadeia, como desejam muitos dos mais próximos do presidente.

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